Recuemos...

ARTIGOS DO SEMANÁRIO REGIONAL TORREJANO, "O ALMONDA". por Carlos Leitão Carreira

Quinta-feira, Abril 05, 2007

Entre “Ovos e Coelhos”, onde pára a Páscoa?



Por esta altura do ano, há quem esconda uns ovos de chocolate no quintal para que as criancinhas os descubram. Há quem compre e coma compulsivamente as amêndoas coloridas. Trocam-se doces e oferece-se dinheiro. Depois são os coelhos. Coelhos para aqui, coelhos para ali, ovos para aqui, ovos para acolá…E no fim da quadra, corre-se o sério risco de ter uma boa porção de crianças a pensar que Páscoa é uma espécie de Natal, onde quem “desce a chaminé” é um coelho, e as prendas se resumem a doces porque nessa quadra os pais não recebem subsídio! Pois a moda parece pegar e alastrar entre as nossas famílias, inspiradas num marketing amigo de uma simbologia mais simpática às vendas. É sem dúvida menos agradável à vista um Cristo agonizante do que um coelhinho azul, mas valerá a pena privar os mais jovens do profundo significado do primeiro em prol da estética do segundo?! Nesta Páscoa sugiro que se expliquem os símbolos àqueles que dependem do nosso cuidado.

Quando, a partir do séc.IV, o avanço do Cristianismo se começou a deparar com as várias crenças pagãs enraizadas na Europa, bem como com alguma relutância no abandono de certas práticas e costumes, deram-se uma série de ajustes e adaptações das práticas religiosas locais, procurando-se fazer coincidir (no seu significado) festas e temas pagãos com as principais celebrações cristãs, de modo a proceder a uma evangelização mais espontânea e eficaz dessas regiões. Dessa sintonização resultaria uma natural troca de elementos que acabavam engrossando também a própria simbologia cristã. A Páscoa é disso exemplo.



Entre as populações pagãs do Norte da Europa, a mudança de estação, correspondente ao equinócio da Primavera, era vivamente celebrada e intimamente ligada a Eostre, deusa da fertilidade, da renovação. Ora, a deusa Eostre surgia representada sob a figura de uma mulher segurando um ovo (símbolo tradicional de fertilidade) junto a um coelho (também ele símbolo de fecundidade). Era uma Primavera exultada no seu carácter fértil, renovador, abundante, e, como tal, acolhida em festa. Na verdade, e face ao período em que se assinala a Paixão, facilmente se alinhou a celebração deste conceito pagão de renovação e renascimento com o da Ressurreição de Cristo e seu carácter salvífico e reabilitador dos homens, um recomeço. Consta que a troca de ovos decorados remonta já aos cultos pagãos de romanos e gregos, pelo que a prática generalizada prevaleceria, acabando mesmo absorvida pelo Cristianismo, que a transformaria numa expressão do culto e veículo de evangelização. A tradição permanece, todavia, mais fiel entre os cristãos do Leste europeu, onde ainda hoje é muito vulgar encontrarem-se ovos decorados com alusões a temas cristãos. Já por cá, parece completamente perdida essa associação, não passando um “ovo” apenas disso mesmo, e de chocolate, de preferência.



Talvez por isso mesmo resulte a necessidade de reintroduzir esta associação, aproveitando o incremento dado ao consumo alusivo à época, para reaproximar a Páscoa destes pequenos veículos, hoje em dia completamente desprovidos de um sentido que não o desse mesmo consumo. Se através de um ovo, onde uma criança pinte a sua ideia de Jesus, surgir uma semente para a compreensão do significado da Páscoa e da mensagem que ela traz à sua vida, então encham-na de amêndoas e os quintais de chocolate, porque se fez a diferença. Tudo o mais são cáries e folias desprovidas de sentido. Se os coelhos e os ovos não forem apresentados às crianças como portadores de uma mensagem e enquanto símbolos (eufemísticos) da obra de um Deus que está presente e é amigo, eles tornar-se-ão contraproducentes, porque apenas distrairão o seu imaginário daquele que é o único significado da presente quadra: Amar como Jesus amou.

Sexta-feira, Março 30, 2007

Artigo de Opinião: Aristides, o “Grande Português”



O vencedor do concurso “Grandes Portugueses” (da RTP) é, para mim, claríssimo (e não estou a falar de Salazar), bem como o verdadeiro sentido e valor do voto nacional. Esqueçamos, por ora, a votação nos dois primeiros no pódio (Salazar e Cunhal), fruto de outras quezílias e portadora de outro tipo de mensagem.

Como seria de esperar, os portugueses colocaram o escol mais representativo do seu património histórico nos 10 primeiros lugares. Símbolos de um passado comum que nos identifica e agrega enquanto povo, depositários do que melhor Portugal tem sido enquanto nação, os 7 últimos finalistas preenchem o espaço que lhes era devido e que todos lhes reservavam à partida. A História fala por si, nem eles precisavam de "defensores" (e quão maus alguns deles!)

Mas eis que surge o 3º classificado, aquele que aponto como o vencedor inequívoco deste concurso. E porquê? Comecemos por recordar que, antes do programa, certamente apenas uma minoria dos portugueses se encontrava familiarizada com a figura de Aristides de Sousa Mendes. Tratava-se quase tão só de mais um capítulo na análise da História do Estado Novo, essencialmente abordado pelos especialistas. Contudo, esta série de debates e a passagem de uma biografia magistralmente apresentada por José Miguel Júdice, deu a conhecer aos portugueses um ilustríssimo anónimo que sem dúvida os cativou. Se atentarmos nas percentagens (ver no fim do artigo), verificamos que existem dois claros fossos nas votações, o primeiro entre Salazar e os demais, o segundo entre os 4 primeiros e os demais. Ficando em 3º (com 13%), Aristides fica ainda à frente do próprio D. Afonso Henriques (12,4%), deixando depois a léguas as vastíssimas glórias da nação. Ora isto não é por acaso.

Os muitos que votaram no diplomata Aristides de Sousa Mendes por certo reconhecem o alto valor dos restantes candidatos, personagens que povoam o imaginário e a alma de qualquer português. Contudo, não embarcando em salazares e cunhais, destinaram o seu apreço não a um líder astuto, não a um aventureiro valente ou a um poeta divinamente inspirado. Elegeram, sim, um Exemplo de Vida, e é isso que a memória de Aristides nos sugere. Homem esforçado, recto, honesto, sereno, humilde, generoso, amigo, ele é a imagem do cristão cumpridor, que, de resto, fazia questão de ser. Até nos seus vícios a maioria de nós se pode rever, numa certa cedência aos pequenos mimos que a instrução nos dá a conhecer e o dinheiro ajuda a conquistar. Mas foi um homem que, a determinado momento da vida, se vê confrontado consigo próprio e com uma consciência lavrada no culto do amor ao próximo. Pai, extremoso e empenhado, de uma família numerosa, não pôde condescender com o paradoxo último que, para qualquer um de nós, constitui a bestialização indiscriminada de seres instruídos e civilizados, como era o caso das muitas famílias e individualidades que se lhe deparavam em fuga da perseguição nazi.

Consciente de todos os riscos em que incorria, Aristides tomou uma opção: salvar quantos pudesse, passando inúmeros vistos à revelia das ordens que tinha. Nunca procurou desculpar ou desvalorizar a sua falta como profissional, assumindo sempre a sua desobediência. É também do caso deste homem que se extrai o mais triste defeito do Dr. Salazar (que custou muitas vidas): a sua teimosia orgulhosa. Nunca condescendeu às várias cartas recebidas, apelando à situação gravosa de toda a numerosa família de Aristides, algumas enviadas pelo próprio e largos anos após o episódio julgado. Sereno e sempre digno, Aristides foi acatando o desprezo dado aos seus sentidos apelos, apenas repetidos face à situação em que via os filhos. De igual modo, serena e digna foi finalmente a sua morte.

É, por isso, fácil de entender a predilecção de tantos portugueses por este "anónimo" agora conhecido. Aparte as doutrinas, regulamentos, hierarquias ou conveniências, eis o exemplo de um dos muitos casos pessoais em que foi preciso agir de acordo com o coração, prevalecendo o desprendimento militante em prol do outro (próprio de quem vive a Fé nos momentos de provação) sobre o apego a uma existência cuidadosa (próprio de quem vive ciosamente esta vida).

Portanto, quer pela fama recém adquirida, quer pela lição de vida que constitui, o verdadeiro voto dos portugueses foi sem dúvida este, na medida em que não está refém da competição absurda ou das quezílias ideológicas convertidas em votos para Salazar ou Cunhal. Excluindo, pois, estes dois, o facto de Aristides ser destacado de entre os demais vultos, revela a antiga e actual expressão do sentimentalismo português: a doce condescendência perante a vulnerabilidade do semelhante.

Comentando, por outro lado, a retumbante vitória de Salazar (41%)… pior ainda que desatar aos gritos, como fez a Drª Odete Santos em directo, seria desvalorizar a expressividade deste voto. Também ele comporta uma mensagem que importa reter. Por certo a maioria dos votantes em Salazar não subscreveria, com esse voto, o retorno das antigas práticas e pontos de vista, ou não votariam dessa forma. Mas, conscientes de que esse voto não comporta ameaça para as instituições democráticas, assinalam um protesto. E como? Recorrendo à memória colectiva, recordam-se os portugueses das inegáveis qualidades intelectuais e profissionais do Dr. Salazar. A auto-disciplina, a coerência, o despojamento, igual empenho em receber ou dar ordens, rigor, perfeccionismo, persistência, etc., são as características que naturalmente fariam de Salazar um funcionário modelo fosse em que regime fosse e ocupasse o cargo que ocupasse. Como é evidente, é esse o carisma de que a figura de Salazar hoje beneficia na tal memória colectiva. É a atitude, é a autoridade (que lhe conferiu a sua austeridade e frugalidade) que paira ainda forte no imaginário de muitos portugueses. Ora, num momento em que é regra desancar na classe política actual, classificando-a como interesseira, corrupta, eleita mais por abstenção que por devoção, natural será que se destaque o modelo oposto de se estar na política, ou seja, o da Causa Pública. Salazar, como figura histórica e passada que é, encarna esse papel, pelo menos nesse imaginário.

Concluindo, esta votação nada tem a ver com “saudades do Passado” ou “tentativas de branquear o fascismo”, tratando-se tão só (ou tanto) de um sinal dos tempos, um protesto sincero, um desabafo desassombrado que merece séria reflexão por parte das classes dirigentes. Não é o sangue e o despotismo que se pede, mas sim a honestidade e o sentido do dever que se exige. Quanto aos brados alarmistas face a esta “vitória”, evite-se credita-la na acção de uma qualquer “extrema-direita florescente”. Tal, seria colocar holofotes no sítio errado e potenciar protagonismos indesejados. É preciso serenidade e lucidez. Sigamos, pois, o exemplo de Aristides de Sousa Mendes, esse grande português.

(1º António de Oliveira Salazar: 41,0% - 2º Álvaro Cunhal: 19,1% - 3º Aristides de Sousa Mendes: 13,0% - 4º D. Afonso Henriques: 12,4% - 5º Luís de Camões: 4,0% - 6º D. João II: 3,0% - 7º Infante D. Henrique: 2,7% - 8º Fernando Pessoa : 2,4% - 9º Marquês de Pombal: 1,7% - 10º Vasco da Gama: 0,7% - Nº total de votos válidos recebidos: 159.245 - Nº total de chamadas recebidas: 214.972)

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

Artigo de Opinião: Recordando Oliveira Marques


Quem são os “alfacinhas”?

Faleceu no passado dia 23 de Janeiro, aos 73 anos, o professor António de Oliveira Marques. Historiador de renome, foi considerado um dos maiores especialistas na investigação da Idade Média, área na qual se tornou uma referência incontornável, pela obra construída, pela relação de proximidade que sempre manteve com os seus discípulos. Foi responsável pela criação de gerações de investigadores, inspirados no seu rigor, no seu exemplo de persistência e imparcialidade.

Integrando uma geração de profissionais durante a vigência do Estado Novo, Oliveira Marques soube destacar-se do excessivo conservadorismo que então emanava dos círculos universitários, alinhando com os parâmetros evolutivos da historiografia europeia. Foi, por isso, acolhido como um exemplo e uma referência pelas novas gerações de historiadores. Acabaria, contudo, por ser afastado do ensino, quando resolve tomar parte numa greve estudantil contra o regime, em 1962. Vê-se então na necessidade de sair do país, em busca de condições para prosseguir o seu trabalho. Em 1965 começa a leccionar nos Estados Unidos da América, passando por várias universidades como conferencista e mesmo como catedrático. Só em 1970 regressaria a Portugal, no entanto, apenas retoma o ensino universitário após a revolução de 1974. É então que se torna numa presença constante, quer como director da Biblioteca Nacional de Lisboa, quer depois no meio académico, ao qual retorna enquanto professor catedrático da recém fundada Universidade Nova de Lisboa. Aí, para além de prosseguir os seus estudos enquanto eminente medievalista, dedica-se agora ao estudo da contemporaneidade da História nacional, algo que o Estado Novo não apoiava e cujo ensino proibia. Enquanto presidente da comissão instaladora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), parte da Universidade Nova de Lisboa, abrirá caminho ao seu departamento de História, junto com investigadores como José Mattoso, Maria José Ferro Tavares ou Iria Gonçalves.

Foi na FCSH que tive o meu primeiro e único encontro com o mítico professor, que, face ao seu falecimento, gostaria de aqui recordar. Por meados de 2000, uns amigos perguntavam-me intrigados, já que era lisboeta e andava a estudar História, qual era a origem da expressão “alfacinha”. Pois eu não fazia a mais pequena ideia… A partir de “alface” todas as teorias eram possíveis. Talvez comessem muita alface e pronto! Numa aula de História de Portugal Medieval, confrontei o professor da cadeira com o enigma. Não me soube responder, no entanto, indicou-me quem talvez o soubesse: o professor Oliveira Marques.

Dirigi-me nesse mesmo dia até ao primeiro andar do Bloco1 (a faculdade, erigida num antigo quartel, é dividida em blocos, sendo este o das antigas cavalariças), onde o professor tinha o seu gabinete. Quando finalmente avistei a porta certa, esta abre-se, e de lá sai um homem altíssimo, algo curvado, com um sobretudo negro e todo abotoado que lhe cobre o corpo quase até aos pés. É um homem idoso, de cabelo branco, com bigode curto e aparado. Acabava de trancar o gabinete quando se virou para a saída. Tinha um olhar cansado e uma expressão algo combalida. Quando me viu ali, especado, perguntou delicadamente – Deseja alguma coisa? – Respondi que sim, que tinha uma dúvida que talvez ele pudesse esclarecer. Sem me deixar dizer mais, o professor esboçou um sorriso e disse – Venha, venha – Procurou novamente as chaves, abriu a porta do gabinete, acendeu as luzes – Tenha a bondade – convidou-me a entrar. Depois de fechar a porta ficou em pé diante de mim e agora sim – Então diga lá. O relato pormenorizado que faço, é para que se recorde o rigor na diligência com que este homem encarava até a menos prometedora conversa, ao fim de um dia de cansaço. A delicadeza no trato é, aliás, uma das características que mais oiço serem-lhe atribuídas.

Num breve diálogo de cerca de 10 minutos, o professor não me pôde dar certezas. Mencionou, contudo, um antigo hábito da Lisboa burguesa de fins do séc. XIX. Em pleno Romantismo, as famílias da classe média lisboeta tinham o costume, quase compulsivo, de, nas tardes solarengas de Domingo, se reunirem em almoçaradas pelas inúmeras hortas que povoavam os arredores da capital. Aí, acompanhando o tradicional peixe frito, parece que se consumiam quantidades absurdas de salada de alface. Ora, este hábito tornava-se tão peculiar quanto pitoresco, aos olhos de quem vinha de fora da cidade. Na verdade, o consumo da alface era então pouco difundido pelo resto do país, pelo que a moda foi algo estranhada e até caricaturada.

O professor chamou-me a atenção para a obra de Almeida Garret, Viagens na Minha Terra. Aí, o autor faz uma referência à tal alcunha lisboeta, que aponta para esse sentido, de certa forma pejorativo, do nome “alfacinha”. Com efeito, a determinada altura do capítulo VII, quando Garret vai descrevendo ao leitor as suas viagens por uma Europa luxuosa, acaba esquecendo-a por completo, quando recorda a sua chegada ao bem português “café do Cartaxo”. Aí, passa a dirigir-se aos leitores lisboetas, acusando o seu sedentarismo, a falta de curiosidade pelo que está para além da capital. Vamos ouvi-lo:

Fazem ideia do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, não saem, se não vêem mundo esta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre o Chiado, a rua do Oiro e o teatro de S. Carlos, como hão de alargar a esfera de seus conhecimentos, desenvolver o espírito, chegar à altura do século? Coroai-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos à dama nova, ide que não prestais para nada, meus queridos lisboetas… Viajar?... Qual viajar! Até a Cova da Piedade, quando muito, em dia que lá haja cavalinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço, todas as ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare. Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum.”

O professor, disfarçando o seu cansaço e sempre sem se mostrar enfadado, não arredou pé enquanto eu não dei a conversa por terminada. Guardarei na memória essa educação, afabilidade e delicadeza extremos, que tanto rareia entre os nossos homens de saber profundo. Bem-haja e Deus o tenha.

Sábado, Dezembro 23, 2006

De onde vem o “Almonda”?



Se há uma área interessante na análise histórica ou antropológica de uma terra, é a Toponímia, ou seja, o estudo da origem dos nomes próprios de lugares ou unidades paisagísticas. O nome de uma localidade, de um lago, de uma estrada, de um vale, de um rio, pode, por vezes, constituir a única pista que nos resta para a compreensão do seu passado. Ora, a região de Torres Novas é um destes casos, em que, não abundando os elementos documentais, nos limita muitas vezes a um simples nome ou a uma expressão designativa. Aqui, como no resto do país, somos confrontados com uma grande profusão de nomes, uns são-nos familiares, mas outros nem tanto. Este facto deve-se a um percurso, complexo e demorado, empreendido pela língua daqueles que se foram radicando no território que hoje é Portugal. A presença de populações ancestrais como os romanos, visigodos ou muçulmanos, foi tecendo, com o seu contributo, aquilo a que hoje se chama de Língua Portuguesa. Esta apresenta-se, em si mesma, como testemunha privilegiada desse percurso, uma fonte difícil mas concreta, que não deve ser descurada. Ora, Almonda, o nome pelo qual conhecemos o rio que serpenteia a cidade, bem como o presente jornal, concentra uma riqueza informativa que importa decifrar. É esse raciocínio que aqui proponho hoje.

Na sua obra Mosaicos Torrejanos, Artur Gonçalves abordava esta questão segundo duas perspectivas diferentes. A primeira, aquela tida como “mais aceitável”, segundo o autor, sugere uma construção estritamente latinizada, onde de “Almonda” se descobre o “Alius-Munda”. Uma alegada parecença deste rio com o Mondego (antigamente conhecido por Munda ou Monda) teria levado a um “empréstimo” do nome, passando o rio torrejano a designar-se também por “Munda”. Mas, existindo já um “Munda”, o de Coimbra, os romanos teriam adicionado o “Alius”, significando “outro”. Teríamos assim o “Aliusmunda” (ou o “Outro-Mondego”), de onde, por degeneração, resultaria o “Almonda”. A outra perspectiva apresentada por Artur Gonçalves é a de Pinho Leal, segundo o qual o nome do rio Almonda derivara do árabe Almodde (ou “Almude”, uma antiga medida para cereais), passando assim de Almodde para Almonda.

A perspectiva que pretendo sugerir terá um pouco destas duas, no entanto apontando um sentido diferente. De facto, parece clara uma participação da língua árabe no nome do rio. Se partirmos a palavra em dois, teremos duas palavras distintas, “Al” e “Monda”. Ora, analisando os traços mais comuns do árabe, encontramos repetidamente as palavras começadas por “Al”, como Algarve, Alviela, Alenquer, Alijó, alpendre, alface, etc., etc. Sabendo nós que “Al”, em árabe, não é mais que o nosso artigo definido “o” ou “a”, compreenderemos que, “Almonda”, na verdade, corresponderá simplesmente a “o monda”, o que afasta assim a improvável origem romana no “Alius” acima referido. Na verdade, os muçulmanos marcaram uma presença prolongada nesta região da Península Ibérica, pelo que, não será de admirar a sua intervenção também na transformação do nome do rio (assim como aconteceu com outros nomes, presentes da região). Resta-nos, assim, procurar o significado de “monda”. Analisando o léxico arábico, não encontramos nenhuma palavra que se assemelhe a esta, contudo, talvez não seja no árabe que deveremos fazer essa busca, mas antes, e agora sim, no latim, cá introduzido pelos romanos.

Se extrapolarmos a partir de “Monda”, poderemos encontrar no latim palavras como Mundus (limpo), ou Mundare/Mundo (limpar), Mundator (limpador), Munde (limpamente) e Munditia (limpeza), sendo que, o conceito latino empregue a esta família de palavras, tem equivalência no conceito de “purificação”, conforme o contexto em que é aplicado. Ora, todas estas palavras estarão na origem da expressão “Monda”, ainda actual, e que qualquer dicionário de Português explicará tratar-se não só do acto de arrancar as ervas nocivas às sementeiras, mas também de limpar ou purificar, como forma de expurgar de tudo o que é prejudicial. Ora, este conceito aplica-se na perfeição à natureza de um rio, especialmente se atentarmos nas características do Almonda. Este nasce dos canais cársicos subterrâneos, vindos da serra, ou seja, das entranhas puras da terra-mãe, o que, na senda de um imaginário pagão hispano-romano, lhe confere um carácter purificador, límpido, fertilizador e pleno de vida, que limpa e revitaliza as margens por onde corre.

Chegados a este ponto, temos já compreendida a origem do “Al” e do “Monda”. Falta explicar o porquê da combinação de um termo árabe com um termo latino na construção do nome do rio. No séc. IV d.C. findava o predomínio romano na Península Ibérica, dando lugar ao domínio visigodo durante os quatro séculos seguintes. A língua das populações locais era, assim, o produto de séculos de aculturação romana, onde o latim foi, de facto, sempre predominante. Mas, com o séc. VIII d.C. dá-se o início de uma longa ocupação de cinco séculos, desta vez preconizada pelos muçulmanos, vindos do Norte de África para a Ibéria. É aí que se dá um novo processo de aculturação das populações locais, verificando-se então o predomínio do árabe. Teríamos, assim, as populações cristãs, latinas, a viver sobre o domínio político e económico dos invasores muçulmanos, o que, no decorrer desses 5 séculos de ocupação, terá originado um forte impacto sobre a cultura e a língua locais. A esses cristãos que viviam sob o domínio muçulmano, damos o nome de Moçárabes. Ora, é junto destas populações moçárabes que haveremos de encontrar a origem do nome do Almonda.

Gente que falava o latim mas que convivia diariamente com a cultura arábica, foi absorvendo algumas características dessa língua, acabando por criar, ou recriar, todo um léxico que se consolidou e perdurou até aos nossos dias. Daí a já referida introdução do artigo definido árabe “al” (o/a), em nomes de origem latina. Disso são exemplo palavras como Alviela (que tendo origem no latim “venella”, precedido do artigo “Al”, significa “a veia” ou “o canal de água”), ou Alporão (que tendo origem no latim “planu”, precedido do artigo “al”, significa “o plano” ou “a planície”). Assim, al-monda poderá tão somente constituir um topónimo moçárabe, que, integrando o artigo definido árabe “al”, acrescenta uma das palavras latinas acima descritas (monda), com o significado simples e claro de “ a purificação” ou “o purificador”, ou ainda, numa observação menos poética do caso, “aquele que limpa”. Assim, o rio terá provavelmente sido nomeado pelas anteriores populações romanas, ainda pagãs, nome que, com a chegada dos muçulmanos, ter-se-á adaptado ao dialecto destes.

Portanto, tendo, como propunha Pinho Leal, uma influência árabe (“al”) e apesar de ser um termo com origem no latim (“monda”), reforço a ideia de que o Almonda não deverá o seu nome ao rio Mondego, quando mais não seja, em face da total ausência de similitude em dois rios de natureza tão díspar. Mais provável será que, o próprio nome Mondego, a ter origem romana, signifique exactamente o mesmo que o Almonda, usando desse conceito de limpeza e purificação, que traz a vida e a renovação por onde passa. Se for esse o motivo de comparação, então os rios serão de facto parecidos.

Sexta-feira, Dezembro 08, 2006

Artigo de Opinião - Este ano, um Pai Natal torrejano.



A questão é simples, isto não está fácil! Os preços aumentam, o orçamento diminui e, na mesma proporção, cresce aquele sentimento absurdo de que há um forte investimento a fazer…porque é Natal! Não é que seja mau receber presentes, ou especialmente ver a cara de quem recebe os nossos… Mas torna-se profundamente pernicioso este imenso esforço financeiro que se faz hoje em busca da prenda ideal. É que, geralmente, a “prenda ideal” comporta custos que vão muito além de uma gestão prudente dos nossos meios, e o problema assume proporções complicadas quando a prenda ideal se multiplica por umas quantas. Queremos dar uma lembrança a toda a gente, mas nem sempre é fácil encontrar algo suficientemente agradável a um preço comedido.

Pois, como em tempo de contenção todos procuramos alternativas que nos permitam manter a tradição, gostaria de partilhar convosco a minha ideia para este Natal. No passado dia 10 compareci à apresentação do “Mercado dos Sabores”, na alcaidaria do castelo. Uma iniciativa que visou a divulgação dos produtos tipicamente torrejanos, bem como uma abordagem sobre a importância da preservação dos métodos tradicionais de produção, que encerram um saber e um sabor únicos. Contando com a presença do famoso Chefe Silva, enalteceram-se o mel, o vinho, as ervas aromáticas, os licores, os doces, e, nas palavras do próprio Chefe, aquele que é o melhor de todos os azeites, o torrejano pois então! Mas, de facto, o enaltecimento daquilo que já sabemos ser bom, não foi o mais importante. A preservação da produção tradicional colide, não poucas vezes, com as metodologias e condicionantes que nos são externamente impostas, dificultando uma venda organizada destes produtos e debilitando assim a continuidade desses processos. Surgindo como essencial a promoção de uma legislação que salvaguarde também este tipo de património cultural, importa, antes de mais, reabilitar e valorizar estes conhecimentos, garantido que haja uma informação que passe e deixe marca entre os consumidores, de maneira a aumentar a procura.

Ora, neste pequeno mercado, encontrei pessoas que, para além de exporem para venda produtos raros, específicos e de uma extrema qualidade, fazem questão de encontrar fórmulas originais de apresentação dos mesmos, transformando o que poderia ser uma mera embalagem, numa espécie de bibelot de absoluto requinte, capaz de envergonhar as prateleiras de qualquer hipermercado. Os preços…tendo em conta o conjunto, são tudo menos excessivos, convidando ao investimento. Os caros leitores concebem outra oferta tão cheia de bom gosto como um delgado e colorido frasco de licor com o rótulo de “Torres Novas”? Ou um pote de mel ou de figos em calda de Torres Novas? Ou uma pequena cesta de vime torrejana a abarrotar de frutos secos torrejanos? Ou um pequeno pote da olaria torrejana com inscrições à nossa escolha e cheio de doce de frutos…torrejanos? Ou um pequeno saquinho bordado, e com a mensagem que quisermos, cheio de ervas aromáticas da nossa Serra? Ou uma bonita caixa de madeira com frascos de azeite torrejano? E o caro leitor sabe quanto gastaria com este tipo de lembranças? Decerto muito menos do que talvez pensa gastar este ano…!

O bom gosto passa essencialmente pelo amor que colocamos nas coisas e pelo facto da as criarmos a pensar em alguém. Daí que, este Natal, em que os tostões não abundam, seja talvez uma boa oportunidade para reanimar o lado mais puro desta tradição, descobrindo que o bom gosto, afinal, se descobre justamente na humildade da dedicação com que os nossos artesãos recriam e transformam a natureza. E eles, ao que tenho visto, estão abertos a sugestões e encomendas com originalidade. Neste Natal, aqui este “Pai-Natal” será definitivamente torrejano.


Para mais informações: Associação Nacional dos Produtores de Frutos Secos e Passados (em frente ao café Império); a loja de artesanato (nas traseiras do edifício do novo mercado); o CRIT (Centro de Reabilitação e Integração Torrejano) ou a Mercearia Nelito.

Sábado, Novembro 25, 2006

Júlio Dinis – um perscrutador de almas



No passado dia 14 de Novembro, terça-feira, celebraram-se 167 anos do nascimento de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que vulgarmente conhecemos como Júlio Dinis. Quis recordá-lo por ser o meu autor preferido e cujo génio insiste em permanecer quase que oculto sob o génio de Eça ou de Camilo. De facto, Júlio Dinis tem pouco destaque quando toca a celebrar a literatura portuguesa… Apesar da sua inquestionável importância, parece que a extrema leveza e naturalidade com que escreveu, nos deixa um subconsciente repleto de sensações e sentimentos que dispensam uma leitura frequente ou sequer a celebração da sua obra, ainda que paire sobre nós. A originalidade e a limpidez da sua escrita é tal que dispensa seguidores, é completa na sua unicidade, abrindo e fechando um ciclo próprio que, entretanto, vai sendo catalogado como “de transição” (entre o romantismo e o realismo). Mas recuemos…

Joaquim Gomes Coelho nascia a 14 de Novembro de 1839, na antiga Rua do Reguinho, no Porto. Filho de José Gomes Coelho, um médico-cirurgião de Ovar, e de Ana Constança Potter Pereira, de ascendência anglo-irlandesa, o pequeno Joaquim contava apenas 6 anos quando perdeu a mãe, vítima de tuberculose. Uma enfermidade que cedo haveria de perseguir a sua família e a ele próprio. O seu percurso escolar foi o habitual para um jovem membro da vitoriosa burguesia do pós-guerra civil. Lembremos que poucos anos antes se combatiam por todo o país as forças liberais, fiéis a D. Pedro e ao progressismo burguês, com as forças absolutistas, fiéis a D. Miguel e ao tradicionalismo do clero e da nobreza. Face à vitória dos primeiros, a família do pequeno Joaquim floresce no seu esplendor progressista, vincada pelo espírito científico positivista que ele próprio haveria de explorar no seu percurso académico. Tendo frequentado a escola primária de Miragaia, concluirá aos 14 anos o curso preparatório do liceu. Matricula-se então na Escola Politécnica do Porto de onde se transferiria logo depois para a Escola Médico-Cirúrgica na mesma cidade. Completando em 1861 o curso de medicina com alta classificação, é logo no ano a seguir convidado para o corpo docente desse mesmo estabelecimento de ensino, como demonstrador e lente substituto.

Joaquim contava então 23 anos e sofria já há 6 da doença que o consumiria, como à sua mãe e a outros seus dois irmãos 7 anos antes, a tuberculose. A luta que travou contra a debilidade persistente e galopante foi uma constante na sua curta existência. Vendo-se obrigado a interromper a carreira académica, optaria por abandonar a cidade para buscar na província ares mais salutares para a sua condição. Ruma então a Ovar, terra de seu pai, ao encontro da tia Rosa Zagalo Gomes Coelho, com a qual habitará por algum tempo. Debalde, não dando a doença mostras de recuo, parte para outras tentativas, buscando nova cura de ares na ilha da Madeira, onde esteve por duas vezes, bem como noutros pontos do país. Mas a sua sorte não haveria de mudar, acabando mesmo por sucumbir aos 32 anos, no Porto, cidade onde nascera.
Ora, até ao momento da ida forçada para a província, tinha já encetado a sua veia de poeta e romancista, datando de 1856 (ano em que sofreria os primeiros sintomas da tuberculose) as suas duas primeiras peças de teatro, “Bolo Quente” e “O Casamento de Condessa de Vila Maior”. Dois anos depois escrevia a sua primeira novela, “Justiça de Sua Majestade” (depois incluída na obra “Serões da Província”), contudo, apenas em 1860 se estrearia com o pseudónimo Júlio Dinis, quando publica uma série de poemas na revista portuense “A Grinalda”, referência do romantismo ao tempo. Os anos de 62 e 63 marcariam, a par do agravamento do seu estado de saúde, a produção e publicação das suas primeiras narrativas, “Os Novelos da Tia Filomena” e o “Espólio do Senhor Cipriano”, mas, desta feita, com novo pseudónimo, Diana de Aveleda, com o qual assinava algumas crónicas no “Diário do Porto”. A sua ida para Ovar, em 1863, marca um ponto de incremento na sua produção literária, escrevendo ou alinhavando romances e novelas que ia publicando através de folhetins no “Jornal do Porto”, como foi o caso de “As Pupilas do Senhor Reitor” (obra que seria apenas publicada completa em 67, depois de se ter descoberto a identidade do autor). No ano de 68 publicavam-se “A Morgadinha dos Canaviais” e “Uma Família Inglesa” e, em 1869, Joaquim parte para a Madeira, onde espera encontrar melhoras. É aí que publica “Serões da Província”, em 1870, seguindo-se então uma rápida contagem decrescente para a sua existência. Retorna definitivamente ao Porto em 71, onde inicia a revisão das provas para a publicação dos “Fidalgos da Casa Mourisca”, mas a morte abrevia-lhe a missão e abafa-lhe o génio, aos 32 anos, como anteriormente referido.

“Os Fidalgos da Casa Mourisca”, vista como a obra-prima de Júlio Dinis, publicada postumamente, em 1872, concentra em si todas experiências vividas pelo autor no contacto diário com a província. Júlio Dinis, mais que um médico, mais que um académico, foi um perscrutador na sensibilidade humana, um espectador atento da Vida em toda a sua dimensão, em Natureza, onde incluía o Homem e a partir da qual lhe avaliava o carácter. É toda essa obra o laboratório onde Júlio Dinis refina a sua percepção da essência do ser-se humano, combinando o perfil psicológico de pessoas reais que conhecera, e acabando vertendo-a como uma torrente de sentimentos sobre as personagens do seu derradeiro conto. Quem tenha lido “Os Fidalgos da Casa Mourisca” compreende o que quero dizer. Não há quem não encontre alguém ou a si próprio nas personagens que Dinis aí constrói. De resto, quem queira compreender o estado de espírito que fendia o Portugal da primeira metade de oitocentos, tem de ler esta obra. O autor revela não só um contacto próximo do espaço e das gentes do campo, presença constante na sua obra plena de reflexões descritivas, como um espírito carregado de optimismo e de uma Fé quase cega na bondade e na capacidade de perdoar e de amar dos homens. Para si não há homens maus e esse sentimento ele concretiza-o na inevitável remissão de todas as personagens que cria. A ira, a vingança, o rancor, a inveja, o orgulho, nunca levam de vencida o seu inverso pela pena deste romântico, sendo o perdão, a humildade e a reconciliação os valores mais altos que permanecem na mente do leitor após o fecho do livro. Era esse o espírito de Joaquim, era essa a sua natureza individual e foi esse o apelo que nos deixou.
Encontra-se sepultado no cemitério privado da Ordem Terceira de S. Francisco, em Agramonte - Porto.

Sexta-feira, Novembro 03, 2006

Artigo de Opinião - A Hora de Acordar!



Aqui por perto, no passado dia 25 de Outubro, o Nabão invadia as casas ribeirinhas de Tomar, as suas famílias eram evacuadas e contabilizavam-se os prejuízos. Mas uma semana antes, o Entroncamento era assolado por um tornado que, encaminhando-se para a Barquinha, foi arrancando árvores, telhados, campas funerárias, arremessando objectos contra janelas e automóveis, derrubou uma grua e espalhou o pânico por 6 concelhos da região. Mas quem não tem reparado nos Verões sempre mais e mais quentes? Quem não tem reparado na inconstância de um tempo que tão depressa nos afoga em água como nos mata o gado à sede e à fome? Ainda assim, Portugal não está localizado numa daquelas zonas do globo em que as condições atmosféricas se apresentam com maior rigor, mantendo este clima ameno que nos permitiu uma espécie de calendarização meteorológica durante tanto tempo. Mas esse tempo já lá vai, claramente, e as evidências estão ao alcance da compreensão de qualquer um.



Por vezes, é quando as coisas nos tocam mais de perto que se abrem as consciências e a realidade se torna evidente aos olhos de todos. Mas será que foi desta? Tornados a rebentar com os cemitérios a norte do distrito de Santarém?!? Chuvadas que transformam ribeiros em rios e rios em torrentes de lama?! Verões acima dos 40º e que transformam os mesmos rios em pestilentas fossas de águas paradas?! Sempre se registaram anos de maior ou menor rigor climático, mas as duas últimas décadas apontam uma escalada constante na óbvia desordem do tempo.

Aqui há umas semanas atrás fui ao cinema ver o “filme” “Uma Verdade Inconveniente”, do realizador americano Davis Guggenheim. Trata-se de um documentário sobre os esforços que Al Gore (o candidato do Partido Democrata derrotado por George Bush nas eleições americanas de 2000) tem vindo a fazer ao longo de anos, afim de sensibilizar o Mundo para os perigos ambientais da conduta do Homem. A partir de uma série de gráficos, imagens, e apoiado no trabalho sistemático e actual dos mais consagrados cientistas do Mundo, Al Gore adverte para o facto de apenas dispormos de 10 anos para inverter a marcha suicida que hoje mantemos. Tudo se centra em torno da insistência na utilização de combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás), que, mais do que nunca, vai contribuindo para o aquecimento global e para o degelo das calotes glaciares dos pólos. Ora, este degelo, para além de aumentar progressivamente o nível do mar, altera a sua temperatura e corrompe o seu equilíbrio salínico. A partir daqui, as inundações, as ondas de calor, tempestades mais agressivas, tornados onde não existiam e a morte causada por todos estes factores combinados, encontram-se no horizonte de todo o Mundo, sem excepções.

Os 10 anos referidos por Al Gore reportam-se ao período em que uma radical inversão nas opções políticas e individuais de consumo, possa evitar o ponto de irreversibilidade neste processo de auto-destruição onde caminhamos. Assim, para além do forte desejo de que todos cheguem a ver este documentário, deixo algumas medidas lá sugeridas, acções simples do dia a dia que podem fazer a diferença:

1-Substituir as vulgares lâmpadas incandescentes pelas lâmpadas fluorescentes, consumindo menos 60% de energia. Poupa na conta mensal.

2-Manter os filtros dos aparelhos de ar condicionado limpos (a sua sujidade obriga ao aumento de esforço energético, gastando e custando mais.)

3-Optar por chuveiros de baixa pressão, consumindo menos água e menos energia no seu aquecimento.

4-Optar por banhos mornos em vez de quentes, assim como na lavagem da roupa, evitando as programações de elevadas temperaturas.

5-Ao comprar novos electrodomésticos, opte por aparelhos de baixo consumo, peça o conselho do vendedor.


6-Sempre que possível, abdique do uso das máquinas de lavar loiça ou de secar roupa. Ao utiliza-las, certifique-se que o faz quando estão devidamente cheias.

7-Desligue os aparelhos de som e TV na fonte. Quando ao desligar se mantém acesa a luz vermelha, o aparelho está em stand-by, não desligado, pelo que consome na mesma.

8-Fazer da reciclagem um acto natural diário, separando os diferentes tipos de lixo. Ao comprar, prefira produtos reciclados.

9-Procure isolar a sua casa, de forma a que esta mantenha a temperatura ambiente com o mínimo de fugas, que obrigam a um consumo energético extra para compensar essas fugas.

10-Plante árvores sempre que tal esteja ao seu alcance, na sua propriedade, quintal, etc. Uma árvore consome cerca de uma tonelada de Dióxido de Carbono durante a sua vida, para além disso, a sua sombra, junto da casa, ajuda a manter a temperatura, diminuindo gastos na refrigeração do lar.

11-Prefira a compra de produtos agrícolas frescos locais, não contribuindo para o consumo energético exigido pelo transporte e acondicionamento refrigerado desses produtos, em camiões e em lojas.

12-Evite andar de automóvel próprio, preferindo os transportes públicos, caminhando ou movendo-se em bicicleta, sempre que possível.

13-Mantenha o seu automóvel em condições, de maneira a que não sejam lançados fumos para a atmosfera para além do necessário.


Para mais informações, consultar o site - http://www.climatecrisis.net/

Sexta-feira, Outubro 13, 2006

Escola Prática de Cavalaria (III)



A abrupta revolução no funcionamento da nossa cavalaria, que referíamos na semana passada, acabaria fomentando um forte dinamismo na área da formação técnica dos quadros de oficiais e sargentos, que passam a frequentar cursos sucessivos (orientados por especialistas ingleses), que por sua vez estariam incumbidos de dar formação às restantes patentes.



Tendo em conta a constante actualização destes equipamentos e a rapidez com que se tornavam obsoletos, estendem-se novas relações e parecerias militares, afim de suprir a ausência de uma indústria de guerra nacional. Nesse sentido, a França e os Estados Unidos surgem como parceiros privilegiados na aquisição de equipamentos e especializações. A vinda dos carros de combate americanos “M 47”, em 1952, dão testemunho dessas relações, cabendo então à Escola a direcção de instrução no novo Centro de Instrução de Blindados.



Já então, a dinâmica e o espaço exigido por todo este processo obrigava a uma dispersão da escola por outras localidades e pólos de instrução e armazenamento (Entroncamento, Santa Margarida), que providenciassem o espaço e a mobilidade necessária de efectivos e equipamentos. A estruturação da NATO, da qual Portugal foi membro fundador, obriga-nos a cumprir metas e a observar uma estratégia comum, o que leva à reestruturação da própria Escola Prática de Cavalaria, que, em 1957, acabaria sendo transferida de Torres Novas para Santarém, onde conheceria grande incremento.

Sexta-feira, Setembro 29, 2006

Escola Prática de Cavalaria (II)



Recordávamos, na semana anterior, o desfasamento notório entre o processo evolutivo da cavalaria portuguesa e o das suas congéneres europeias. Enquanto, no período que medeia as duas grandes guerras, países como Alemanha, França ou Inglaterra vão trocando a cavalaria tradicional, ligada ao cavalo e ao manuseamento da espada, pelo carro blindado e as armas automáticas, Portugal permanece quase totalmente alheio ao ímpeto da corrida às armas, que então se verificava, e que haveria de resultar na catástrofe da II Guerra Mundial.



Não obstante, o ano de 1943 (a data de ambas as revistas cujas fotos aqui se apresentam) acabaria por trazer um ponto de viragem nesta situação. Na verdade, o posicionamento então tomado pelo lado dos Aliados, abdicando-se na neutralidade inicial, acabaria por beneficiar as forças armadas portuguesas, na medida em que as novas relações preferenciais, especialmente com Inglaterra, acabariam por resultar na aquisição de novo material bélico, bem como da respectiva instrução no seu manuseamento.



Constituem-se então os primeiros pelotões providos de metralhadoras anti-aéreas, canhões anti-carro, motos, camiões e viaturas “Bren”. Seria o início de uma era de sucessivos reforços, reformas e actualizações constantes. De ano para ano novos equipamentos dão entrada na Escola: auto-metralhadoras “Humber”, em 1944; auto-blindados “White”, em 1946; carros de combate “Valentine” e “Centauro”, em 1948.

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

Escola Prática de Cavalaria.



No próximo dia 24 deste mês de Setembro, comemorar-se-ia o 93º aniversário de José Carreira, 1º Sargento da Escola Prática de Cavalaria de Torres Novas, meu saudoso avô (na foto acima).

A efeméride pessoal servirá de pretexto para a divulgação de algum raro património fotográfico que ele nos deixou, fazendo-o acompanhar por uma breve resenha da História da Escola Prática.

Em duas revistas, editadas no auge da II Guerra Mundial, concentra-se uma série de fotografias, algumas das quais únicas, que ilustram duas reportagens então feitas sobre a Escola. A primeira, com o título “Uma tarde na escola de cavalaria de Torres Novas”, consta da Deutsche Reiterhefte - “revista da cavalaria alemã” - editada em Berlim, a 26 de Março de 1943 e onde se podem encontrar 9 fotografias (capa e contracapa incluídas) tiradas no decorrer de exercícios da cavalaria, levados a cabo em diferentes pontos da cidade. A segunda, trata-se de uma reportagem constante no 2º número de Abril, também do ano de 1943, da revista portuguesa Sinal. Aqui se encontram 10 fotografias também referentes a exercícios levados a cabo na cidade.

Tendo a Escola Prática de Cavalaria atingido um estatuto de referência a nível nacional (e não só), importa compreender a sua origem no seio das próprias forças armadas. Recuemos pois.

Poderemos talvez apontar o convulsivo período das invasões francesas, entre 1807 e 1814, como aquele que viria a evidenciar a necessidade de proceder à implementação de umas forças armadas propriamente ditas. É então que se procedem aos primeiros ensaios afim de criar focos de formação para infantaria e cavalaria. Trabalho penoso e por muito tempo sujeito aos desmandos das guerras entre liberais e absolutistas, sendo que apenas com o apaziguamento posterior se abre caminho a uma organização militar.

É então que pontualmente se criam pequenos e efémeros “depósitos de cavalaria” pelo país, centros de formação que procuram constituir quadros locais. Seria apenas na década de 70 que o forte incremento industrializador, aliado à urgência de ocupar militarmente as possessões coloniais (num tempo em que as várias potências europeias cobiçavam o ultramar português), que surge a necessidade de um considerável e decisivo reforço na reorganização militar do país. É então que surge a ideia de criar um verdadeiro pólo de instrução para as suas principais ordens, a infantaria e a cavalaria. No entanto, a ideia apenas se virá a concretizar cerca de uma década depois, criando-se então em Mafra a “Escola Prática de Infantaria e Cavalaria”, corria o ano de 1887.

Dado o impulso, e agravando-se a principal fonte motivadora para a proliferação militar, ou seja, a defesa das colónias, cedo o projecto de Mafra se revela insuficiente, quer pela falta de espaço, quer pela crescente necessidade de especialização. É então extinta a escola de Mafra, em 1890, para que nesse mesmo ano, a 26 de Abril, se decrete a criação de uma “Escola Prática de Cavalaria”, com sede em Vila Viçosa. Aí e ao longo de 12 anos floresce a cavalaria portuguesa. Daí e nesse tempo partem as expedições de Mouzinho de Albuquerque para Moçambique, logrando a manutenção da soberania portuguesa por essas terras longínquas. Enquanto isso, o país vive conturbações várias. É desse tempo o custoso processo do Ultimato Inglês, em que Inglaterra ameaça Portugal de guerra caso este não abrisse mão de certas possessões africanas. Também então o Estado declarava a bancarrota, face às exorbitantes dívidas acumuladas à banca nacional e europeia.

Seria no decorrer desses tempos difíceis que a 30 de Janeiro de 1902, Torres Novas recebe definitivamente a Escola Prática de Cavalaria, onde dada a maior proximidade dos centros de decisão do país, adquire maior relevância militar. Oito anos passados, dá-se a Revolução Republicana, mudam-se as chefias e criam-se novas fidelidades. A escola perde então a sua influência, para além do estatuto, vendo o seu nome reduzido a mera “Escola de Equitação” em 1912.

Cinco anos depois, 1917 marca a participação do corpo expedicionário português na 1ª Grande Guerra Mundial, que havia eclodido 3 anos antes. A cavalaria parte então de Torres Novas com funções diversas. Rumo à guerra europeia e mantendo também funções em África, este foi um período de grande exigência e dinamismo para a escola, na formação de quadros e no envio de militares, acabando assim por ver o seu prestigio devolvido. É sob o comando do então coronel Óscar Carmona que, em 1925, a escola recebe novo nome, mais adequado ao seu estatuto, a “Escola de Aplicação de Cavalaria”.

Ora, entre o fim da Iª e o início da IIª Guerra Mundial, enquanto a cavalaria das grandes potências europeias se reformava no essencial, trocando o cavalo pelo carro blindado e pelas armas automáticas, a escola (não obstante a chegada de alguns veículos blindados – sem o devido acompanhamento de instrução específica), permaneceu fiel ao modelo tradicional, mais fortemente ligada ao cavalo e ao manuseamento da espada, o que acabaria por, na prática, tornar obsoleta uma cavalaria que acabaria não tomando parte activa na IIª Grande Guerra. (continua)

Sexta-feira, Julho 28, 2006

Artigo de Opinião - Maravilhas da Participação Cívica -



No passado Domingo, dia 23, tive oportunidade de ir até Óbidos, onde se dava o encerramento do V Mercado Medieval. Desde 2002 que esta autarquia vem apostando neste evento, que, no seu quinto ano de organização, conta já com uns quantos milhares de visitantes que vêm de todos os lados, engarrafando os acessos e atestando os estacionamentos. Já havia visitado a Feira Medieval de Montemor-o-Novo, bem como a de Castro Marim, e, cada uma a seu jeito, justifica sem dúvida a fidelização de um público crescente, que marca presença anual.

Naturalmente que, no caso das autarquias promotoras, este evento tem de constar no programa orçamental antes mesmo de se pensar o programa cultural correspondente. Na verdade, os custos envolvidos obrigam a que se encare este tipo de evento como uma aposta estratégica concreta e objectiva quer na promoção da localidade e no fomento ao turismo, quer na dinamização do comércio e participação activa da comunidade local. À partida são só vantagens. Vem gente de fora que começa logo por encher os parquímetros, que paga depois bilhete para entrar no recinto, que enche os restaurantes, cafés e tabernas, que anima o comércio de artesanato local, que compra em todas as tasquinhas montadas pelos populares… E quanto mais for oferecido ao transeunte, mais dinheiro este por lá larga. Não sei até que ponto a autarquia reavê o seu investimento, tendo em conta as despesas logísticas para acomodar o mercado e mascarar a vila, as despesas de contratação dos grupos de animação especializados, e, quando mais não seja, o desmontar e as limpezas finais. No entanto, e tendo em conta que se trata de um investimento cultural e turístico, se a população e o comércio local ficarem a ganhar, então a autarquia cumpriu com a sua obrigação e esse é o seu melhor lucro.



Nenhuma descrição, por resumida que se tente, poderá dar uma verdadeira ideia da variedade de atracções que por lá se vê. De artesãos vários (marceneiros, ceramistas, latoeiros, ourives, boticários, tecelões, etc.), passando por cartomantes, escribas, comerciantes estrangeiros de produtos árabes, vendedores de inúmeros tipos de ervas para chá, frutos secos, doces, sangria, limonada, de tudo se vê pela vila fora, antes mesmo de se entrar no recinto do mercado, dentro do castelo. As várias casas de comércio, abertas durante todo o ano, associam-se ao espírito reinante mascarando o seu exterior, multiplicam-se os figurantes que se passeiam pela vila, vestidos a rigor com trajes da época, são nada mais nada menos que os habitantes de Óbidos aderindo à festa. Ao centro do largo da Igreja principal encontra-se um pequeno estábulo com animais de quinta (principal atracção para os mais pequenos), bem como uma pequena arena de areia onde se organizam jogos tradicionais e fazem pequenas peças de teatro. Em volta dominam os grupos e associações locais, dispondo as suas tascas de comes e bebes, bem como as bancas de venda de artesanato.



Quando se entra no castelo, depois de pagar 3 euros por pessoa, temos acesso a um mundo completamente transformado. Aí, para além das múltiplas e variadíssimas bancas de artesanato, bem como das casas de pasto onde se come carne retirada de uma grande peça a assar num espeto à nossa frente, encontramos vários grupos de percussão e gaitas de foles tocando incessantemente, bem como a atracção principal, ou seja, a actividade dos referidos grupos de animação contratados. Trazendo material próprio, estes profissionais do “Recuo” montam tendas de campanha medievais, montam estruturas de apoio para jogos e teatralizações que constem do programa a cumprir, fazem desfiles com músicos e instrumentos da época, com cavalos, com soldados, pajens, damas e nobres todos trajados a rigor, sem esquecer as encenações de doentes com peste, duelos, o jogo da Távola a cavalo, etc, etc, etc… Em dias de semana, as festas decorrem entre as 17 e as 24 horas, ao fim-de-semana entre as 12 e as 24 horas.



Vamos então falar de Torres Novas. A um torrejano que visite este tipo de evento, não será difícil começar a projectar algo do género no castelo da sua cidade. Imagina uma série de bancas que partem da Praça 5 de Outubro, subindo pela ladeira, em ambos os lados, em direcção ao castelo. Imagina o adro de Stª Maria com os muros ponteados por tochas, onde se façam jogos tradicionais de dia e teatro à noite, imagina as escadas do castelo cheias de gente que sobe e desce do seu interior. Lá dentro os cortejos, as tendas, os duelos, os cavalos, os malabaristas, os archotes nas muralhas, nas torres, alumiando a noite. No túnel, pouco iluminado, o acesso às traseiras do castelo, onde mais bancas de comércio medieval se podem encontrar, as videntes, os “leprosos”, os frades, uma série de forcas montadas com bonecos pendurados… Não é nada difícil imaginar um castelo vivo em Torres Novas.

Não está em causa se é um recinto mais ou menos agradável, ou se a sua envolvência é mais ou menos propícia. Na verdade, o castelo de Torres Novas tem todas as condições para se tornar um perfeito anfitrião e da sua envolvência não se dirá menos. O que está de facto em causa é o lado humano de tal evento. Até que ponto os torrejanos estariam dispostos a enfiar uns farrapos e ir gozar um verdadeiro Carnaval? Até que ponto as associações locais estariam dispostas a marcar presença e a submeter-se ao espírito do evento? Até que ponto os funcionários da Câmara estariam dispostos a ter uma participação activa, independentemente de integrarem ou não o departamento cultural? Até que ponto os artesãos da terra estariam dispostos a aplicar a sua arte ao tema e a fazer demonstrações durante dois ou três dias perante os transeuntes? Até que ponto os comerciantes interiorizariam o espírito do evento e adaptariam os seus estabelecimentos? Até que ponto os estabelecimentos de ensino participariam nesta festa? Numa pequena localidade como Óbidos, a participação cívica tem feito alguns pequenos milagres…



Não tenho dúvidas de que este tipo de organização não se completa com uma tentativa apenas. Para além de carecer de uma certa intencionalidade estratégica, que se converta em financiamento e num determinado esforço de organização, o seu aperfeiçoamento vem da persistência e da experiência adquirida, dos contactos recolhidos, dos orçamentos conhecidos e das impressões auscultadas de um ano para o outro. Tudo, por forma a criar mais um evento, mais uma atracção, mais uma razão para viver a cultura e a própria cidade. Acima de tudo, uma forma de resgatar o castelo da sua imensa solidão.

Sexta-feira, Julho 07, 2006

- A partida de Vasco da Gama -



No próximo dia 8 de Julho assinalar-se-ão 509 anos da partida de Vasco da Gama e sua armada rumo à Índia. Um capítulo da nossa História pleno de pormenores, alguns dos quais aqui evocaremos, procurando visualizar esse momento repetido, onde a coragem se confunde com a lágrima e o sentido do dever com a incerteza de um retorno.


Vasco da Gama provém de uma família nobre. Seu pai, Estêvão da Gama havia prestado relevantes serviços ao reino, não só combatendo no Norte de África, mas muito especialmente em actividades de espionagem no seio da antiga Anafé (Casablanca-Marrocos). Aí, disfarçado de vendedor de figos, buscava informações sobre a real capacidade defensiva da cidade, e o seu sucesso foi tal que D. João II logo se prontificou a recompensar tal argúcia e bravura, nomeando-o alcaide de Sines. Terá sido provavelmente aí que nasceu o jovem Vasco, por volta de 1468/69, o segundo de quatro irmãos. O seu local de nascimento encontra-se envolto em alguma polémica, havendo quem lhe aponte Évora ou Santarém, respectivamente os locais de nascimento dos pais, como sua cidade natal. Seja como for, denota-se uma clara afectuosidade de sua parte em relação a Sines. Os esforços que mais tarde, no regresso da sua primeira viagem à Índia, Vasco da Gama levará a cabo de maneira a recuperar a alcaidaria de seu pai, onde quereria fixar a sua família, denotam esse apreço à então vila de Sines. Em fins do séc. XV, a vila tratava-se de uma pequena povoação piscatória, que não chegava aos 200 habitantes, mas que, no entanto, se distinguia pela posição estratégica que ocupava no contacto com o mar, cabendo mesmo ao seu alcaide o título de “Alcaide do mar”. Assim, terá sido nesse lugar que, já antes de se tornar alcaide, Estêvão da Gama terá exercido a prática da navegação, envolvendo provavelmente o filho na sua actividade. Conhecendo-se muito pouco da vida de Vasco da Gama, anteriormente a 1496, é esta preferência e este apego à sua terra de família que nos permite compreender a sua vocação e bases científicas. Uma prática náutica vivida desde a adolescência, no decorrer da qual adquiriu as necessárias noções de Matemática, Cosmografia, Astronomia, bem como o manuseamento de instrumentos náuticos como a bússola ou o astrolábio.



Vasco da Gama era fidalgo da casa de real, por isso conheceu e lidou desde muito cedo com D. Manuel I. Ora, em 1495 dá-se a morte de D. João II, falecendo sem que deixasse um herdeiro legítimo que ocupasse o trono. É, por isso, o seu primo D. Manuel que lhe sucede, retomando muitas das políticas e projectos desenvolvidos por D. João. Entre eles, encontrava-se a concretização da chegada à Índia por mar, projecto acalentado e cuidadosamente preparado por D. João II, que acabava sem tempo para o realizar. Pois essa é uma empresa à qual D. Manuel dará imediato seguimento, convocando Vasco da Gama para preparar a expedição logo a partir de 1496, cabendo-lhe ainda a sua liderança. Estando então em Montemor-o-Novo, D. Manuel manda-o chamar, para que se apresentasse com seus capitães em audiência pública. Aí, diante de alguns notáveis do reino, D. Manuel passou à leitura das suas razões e objectivos, elogiando e depositando a sua confiança em Vasco da Gama. Posto isto, e estando ajoelhado, apresentam-lhe uma bandeira de seda com uma cruz ao meio, das da Ordem de Cristo (da qual D. Manuel era administrador), perante a qual Vasco da Gama se compromete a atingir o seu objectivo, desfraldando-a perante todos os povos que avistasse, defendendo-a com a vida e trazendo-a de volta no seu regresso vitorioso. Posto isto, foi-lhe entregue a bandeira, dizendo-lhe D. Manuel que decidisse o que levar, e encarregando seus oficiais de providenciarem tudo quando fosse requerido por Vasco da Gama, incluindo os mestres e pilotos que entendesse.

A par do apetrechamento dos navios, que eram três (S. Gabriel, S. Rafael e S. Miguel), Vasco da Gama pediu aos seus marinheiros que procurassem aprender ofícios enquanto não embarcassem, pagando-lhes para tal um excedente do soldo base. Assim se ganharam carpinteiros, cordoeiros, calafates, ferreiros e torneiros que garantiriam a manutenção das embarcações no decorrer da viagem. Na véspera da partida, estando já os navios prontos e ancorados no Restelo, procederam os capitães a uma vigília na Igreja de Nossa Srª da Vocação de Belém (que aí o Infante D. Henrique havia mandado erguer. Hoje, o Mosteiro dos Jerónimos), onde receberam os sacramentos.

A partida decorreria então a 8 de Julho, um Sábado consagrado a Nossa Senhora, pelo que, aliando a natureza votiva deste templo ao propósito de se ver partir a armada, muita gente acorreu ao Restelo. Após a realização de missa solene, prosseguiu-se uma grande procissão que deveria acompanhar os mareantes até junto dos batéis. Assim, de tochas na mão, caminhando Vasco da Gama com os seus à frente, junto com os sacerdotes, sucedia-lhes a imensa população que ia repetindo a ladainha à frente cantada. Chegados à beira rio, todos se ajoelham e silenciam. O sacerdote faz a confissão geral e absolve os mareantes, que podiam perecer na viagem. Entrando nos batéis espalhados pela praia, cerca de 150 homens rumam às pesadas embarcações ancoradas no Tejo, por elas se distribuindo. Seguem-se os Adeus, as lágrimas, o contentamento de uns, a apreensão de outros. Entre quem parte e quem vê partir multiplicam-se as reacções. O sentimento de perda e fatalismo mistura-se com exortações de sucesso e glória. Enquanto se reconhecem os rostos prolongam-se as emoções, à medida que aumentava a distância. Consta que D. Manuel os seguiu ainda no seu batel, dando-lhes palavras de alento e coragem. Com as velas plenamente soltas e à mercê do vento do Norte, os navios aceleram e el-Rei fica para trás, sempre a observa-los até desaparecerem no horizonte.

Sexta-feira, Junho 30, 2006

- Lembrar a Rainha Santa -



Neste 4 de Julho, a Igreja assinalará o dia em que faleceu Dª Isabel de Aragão, a Rainha Santa. Nenhuma outra é tão lembrada e acarinhada pelo povo, entre o qual se completou como pessoa e cumpriu enquanto rainha. Vamos recorda-la pois, 670 anos decorridos da sua morte.

“Rainha Santa Isabel” foi o nome escolhido para baptizar o novo hospital de Torres Novas, à semelhança de inúmeros outros casos no país. Uma homenagem que se quis prestar a esse vulto da História, na qual se destacou pelo exemplo de atenção, cuidado e amor aos demais, digamos que, um pouco à semelhança do que se espera de um hospital. Isabel, (que significa “promessa de Deus”) filha do rei de Aragão, D. Pedro III, nasce no ano de 1271. Descendente dos imperadores germânicos, por via materna, recebera o seu nome por deferência à sua tia-avó Isabel da Hungria, já então considerada santa pelo exemplo de caridade e abnegação que revelara ao longo da vida. Entregue ao seu tio Tiago I, fervoroso devoto, Isabel de Aragão será educada no rigor da oração aliada à auto-disciplina, revelando desde cedo um especial empenho e vocação para a Fé, na senda do exemplo da tia húngara.

Contava apenas 12 anos quando recebeu o pedido de casamento da parte de 3 príncipes, entre eles, o nosso D. Dinis. Ao português os reis de Aragão haveriam de consagrar a mão da filha, dada a proximidade e as boas relações desejadas entre os reinos. Casados por procuração a 11 de Fevereiro de 1282, apenas 4 meses depois ela atravessaria a fronteira, por Trancoso, afim de celebrar o acontecimento. Trancoso seria então incluído no dote oferecido por D. Dinis à rainha, assinalando o seu local de entrada no reino. Se se previa um percurso de santidade para Isabel, a vivência junto do rei de Portugal haveria de constituir plena oportunidade para essa consagração. Na verdade, D. Dinis cedo se revela um homem violento, infiel e de má vontade no seu casamento. É conhecida a numerosa prole desse rei, que, mantendo diversas relações extra-conjugais, acabava produzindo uma descendência ilícita que trazia para a Corte. Aqui se destaca o comportamento da rainha, que, apesar de humilhada, terá mantido o respeito e a bondade para com D. Dinis, acolhendo, amando e educando os filhos ilegítimos do marido, como se seus fossem.



À luz deste comportamento o rei oscilava o seu, assim, ora numa profunda admiração, ora dando atenção a intrigas na Corte, ia respeitando ou mal tratando Dª Isabel. Ainda assim, D. Dinis respeitava a vivência devota da rainha, que se desdobrava em desvelos entre a orientação da residência e da família real e a atenção aos necessitados. A leitura e a meditação espiritual alternava com a assistência à família, mas, sobretudo, com as obras de caridade que produzia com outras damas da Corte. Confeccionando roupas para pobres, visitando enfermos e idosos, patrocinando a construção de albergues ou um hospital para os mais necessitados, escolas, um lar para meretrizes convertidas, outro para órfãos, para além de conventos e de todo um trabalho junto das ordens religiosas.

Em poucas palavras se poderá contar o sobejamente conhecido “milagre das rosas”, a ela atribuído. Consta que uma das suas obras de caridade consistia na distribuição assídua de pão pelos mais pobres. Sendo o ano de 1333 um ano de carência e maior fome, ter-se-á o rei oposto a este tipo de prática, que constituiria grande despesa para a sua Casa. Isabel terá então vendido algumas das suas jóias para poder comprar trigo, que lhe permitisse manter o hábito. Ora, num desses momentos de distribuição o rei terá aparecido, indignado, reagindo a rainha com a ocultação dos pães que trazia consigo no regaço, procurando evitar a censura do marido. Percebendo o seu gesto apressado, D. Dinis terá perguntado – Que tendes em vosso regaço senhora? – Ao que Isabel teria respondido – São rosas senhor…! – Rosas em Janeiro?! Deixai que as veja então! – E soltando as vestes, eram de facto rosas que caíam ao chão. Trata-se de um conto popular que perdurou sempre, mas que alguns apontam ter sido uma colagem de um episódio ocorrido com Isabel da Hungria, sua tia e não com a nossa rainha.

Seja como for, não precisaria de alguma vez ter transformado pão em rosas para que recebesse justamente uma tal admiração. Isabel de Aragão teve uma preponderância decisiva em vários momentos de luta eminente no reino. Dera dois filhos a D. Dinis, Constância, futura rainha de Castela, e Afonso, futuro rei de Portugal. Será este último, que, movido pelo ciúme que lhe causava a preferência que D. Dinis dedicava a um dos seus filhos bastardos (D. Afonso Sanches), moveria uma campanha militar contra o rei, pretendendo que este abdicasse em si o trono. Isabel intervém, procura demover o filho de tais intentos e concilia-lo com o pai. Ainda assim, chega a ser acusada de se unir ao infante, o que lhe vale a desconfiança do marido e a ordem de expulsão para a província. Acabando por lhe ser reconhecida a inocência, Isabel retorna e consegue então amenizar um pouco as relações entre o marido e o filho. Consta que, estando ambos os exércitos preparados para combater, na zona de Alvalade, Lisboa, a rainha ter-se-á aproximado de ambos, ajoelhando-se em pleno campo de batalha e rogando para que se entendessem.

À paz assinada no decorrer desse episódio, em 1325, seguiu-se a morte do rei, nesse mesmo ano. Isabel parte então em peregrinação a Santiago, onde, entregando a sua coroa ao arcebispo, obtém permissão para vestir o hábito das clarissas. A partir de então, Isabel recolhe ao convento franciscano de Stª Clara, em Coimbra. Dedicará o seu tempo ao aprofundamento da Fé, lendo sobre os Santos, desenvolvendo outras obras e saindo em peregrinação. Num derradeiro esforço de pacificação, Isabel sai ao encontro do seu filho, que havia declarado guerra ao rei de Castela, seu primo. Conseguindo uma vez mais garantir a paz, Isabel, já com 65 anos, não aguenta as exigências da caminhada e acaba por falecer, a 4 de Julho de 1336. É por vontade sua sepultada em Stª Clara. Em 1516 é beatificada pelo Papa Leão X e cerca de um século depois, Urbano VIII procede à sua canonização.


Túmulo gótico de Dª Isabel de Aragão. Autoria de mestre Pêro, 1336.

Quinta-feira, Junho 22, 2006

- Sebastião, o “menino-rei” -



A 2 de Janeiro de 1554 morria João de Portugal, o último filho de D. João III e último possível herdeiro da Coroa Portuguesa. Quando Castela já esperava vir dominar Portugal, unindo os dois reinos ibéricos, eis que nasce D. Sebastião, o filho póstumo que vem ao Mundo 18 dias após a morte do príncipe como… o “Desejado”.

A dinastia de Avis, iniciada com D. João I, o tal que venceu os espanhóis em Aljubarrota, foi pautada por gerações de casamentos entre a mesma família, tanto que D. Sebastião apenas tinha 4 dos 8 bisavós que normalmente qualquer pessoa tem, e ainda assim, todos eles descendentes directos do mencionado D. João I. Ora, para além de graves casos de demência, as novas gerações traziam uma fragilidade física que se reflecte, por exemplo, na morte célere dos 8 filhos de D. João III, deixando o reino à beira da união ibérica. Com a morte de João, o último e o mais novo dos filhos do rei de Portugal, resta ao reino a esperança de que o seu filho, Sebastião, cresce lúcido e forte, afim de dar continuidade à dinastia. Pois, é com apenas 3 anos de idade que, face à morte de D. João III, seu avô, o pequeno e frágil príncipe sobe ao trono e sucede na linha dos reis de Portugal.



Enquanto foi menor, a regência foi assegurada pela sua avó, a viúva de D. João III, e depois pelo tio-avô, o Cardeal D. Henrique, sendo que no decorrer desses 11 anos se continua o processo de expansão a Sul e Oriente. O príncipe é educado em austeridade pelos jesuítas, crescendo com grande fervor religioso, contudo, rodeado de todas as atenções e mordomias, o que lhe desenvolveria um espírito teimoso e caprichoso, aliado a uma forte dose do misticismo e até do messianismo que lhe incutia todo o reino, em relação à sua pessoa e à sua missão enquanto rei. Sebastião acreditava que lhe competia cumprir uma nova grande cruzada contra os muçulmanos do Norte de África, restituindo a glória à sua dinastia. Vê ainda nesse empreendimento uma oportunidade para o comércio, bem como uma área de intervenção para a nobreza do reino, ávida por novos combates e glórias.

Não é difícil imaginar as pressões e tentativas de influência, vindas de todos os quadrantes da sociedade portuguesa, a que o jovem príncipe terá sido continuamente exposto. Assim, ao tomar para si o controle do reino, aos 14 anos, D. Sebastião começa imediatamente a planear a sua campanha em África. É curioso observar que o então rei de Espanha, D. Filipe II (futuro I de Portugal) impõe o adiamento do casamento de sua filha com o príncipe, para depois da campanha. Ora, a oportunidade certa para o avanço desta campanha, surge com a instabilidade ocorrida entre os muçulmanos. Al-Malik, expulsa o seu sobrinho Moulay Mohamed de Marrocos em 1576, tomando-lhe o poder. O líder deposto vem então pedir o auxílio a D. Sebastião para retomar o poder (depois de tal lhe ser negado pelo rei de Espanha, que já havia feito pacto com Al-Malik), prometendo a praça de Arzila em troca, ao que o jovem rei acede imediatamente.

Começa então a tentativa de reunir tropas para a campanha, vindo mercenários da Alemanha, da Flandres e Itália com armas e munições, juntar-se aos lavradores e mesteirais portugueses arregimentados à força e a alguns fidalgos prontos a comandar as hostes. Em suma, constituiu-se um exército de cerca de 15 mil homens, indisciplinado, inexperiente, mal organizado e pouco motivado para a batalha. Com eles parte de Lisboa D. Sebastião, no dia 25 de Junho de 1578, a data que agora se assinala, rumo a Alcácer Quibir. Parando em Tanger, onde o aguardava Moulay Mohamed, seu aliado, desembarca em Arzila, de onde pretende seguir a pé até ao local da batalha. O jovem não dá ouvidos aos militares mais experimentados, que o aconselham a que siga nos navios, paralelamente à costa, não só para poupar o exército mas também para poder ter forma segura de poder retirar, em caso de derrota eminente. Chegando a Alcácer Quibir, depois de muito caminhar sob calor intenso, cansado e com fome, o exército português encontra o de Al-Malik, muito superior em número e extremamente motivado. É a 4 de Agosto que se dá a refrega. Envolvido em meia-lua, face à desproporção numérica, o exército português é então dizimado, terminando tudo rapidamente com inúmeras mortes e aprisionados os sobreviventes. Esta batalha, conhecida pela “Batalha dos Três Reis”, ficou famosa pelo facto de nela terem perecido os 3 líderes envolvidos. Moulay Mohamed morre afogado na ribeira Mocazim, Al-Malik morre subitamente no início da batalha e D. Sebastião terá sido morto em combate, desaparecendo.


Quadro alusivo à batalha.

É aqui que começa aquele que se quis como um dos maiores mistérios da História de Portugal. Sebastião foi morto? Sobreviveu e fugiu, retirando-se para um mosteiro até ao fim da vida? O “Sebastianismo”, como movimento misticista, começou aí, face à ocupação castelhana que se seguiu ao desaire de Alcácer Quibir. Os portugueses foram alimentando a esperança de ver a qualquer momento ressurgir o jovem rei, libertando o país do domínio espanhol e restaurando a dinastia de Avis. Essa crença manteve-se e generalizou-se nas palavras do poeta Bandarra, partilhada pelo próprio Padre António Vieira e, através dos tempos, chegando a Fernando Pessoa, já sob a forma de um patriotismo místico e messiânico, com a sua “Mensagem”.

Certo, é que existem documentos no Vaticano onde os papas Clemente VIII e Paulo V atestam que, diante de si, se encontrara o verdadeiro D. Sebastião, reivindicando a sua Coroa, sentenciando eles que D. Filipe III de Espanha (o então II de Portugal) lhe devolvesse o reino, o que este nunca quis cumprir, pedindo sucessivas revisões do processo. É também certo que, não tendo nenhum soldado ou nobre português visto ou resgatado o corpo do rei, acaba por ser o próprio rei de Espanha, que agora reivindicava o trono de Portugal para si, a apresentar um corpo vindo não se sabe de onde, que alegava ser o de Sebastião, afim de ser trasladado para os Jerónimos, em Belém. Há quem sugira que Filipe II, contrariado com o inesperado nascimento de Sebastião, quando se preparava para ser coroado rei de Portugal, lhe prepara uma armadilha que o demoveria do trono para sempre. Há quem descreia da sua morte. Há ainda quem o aguarde…

Sábado, Junho 17, 2006

- Santo António de Lisboa ou Pádua? -



"A paciência é o baluarte da alma, ela a fortifica e defende de toda perturbação." Eis uma frase atribuída ao Santo que agora se celebra. Vamos procurar rever o percurso e obra do homem que a Igreja mais depressa santificou.


Fernando Martins de Bulhões, é o nome que recebe à nascença, pensa-se que em Agosto que 1195. A esse tempo vivia-se o ímpeto guerreiro das cruzadas, vindo a aristocracia de toda a Europa com o fim de combater os muçulmanos a Sul. Estes, por sua vez, proclamavam a Jihad contra os infiéis cristãos, medindo forças também na Península Ibérica, com os reis de Portugal e Castela. É neste contexto que nasce o pequeno Fernando, numa Lisboa ainda com pouco tempo de domínio cristão, mas com uma estrutura clerical em rápido desenvolvimento. Nascendo numa família de ascendência nobre, Fernando vive comodamente no bairro da Sé, com os pais e uma irmã, Maria, até aos 15 anos, durante os quais frequenta a escola da Sé. É, por isso, cedo que decide prosseguir os estudos no meio religioso, integrando os Cónegos Regrantes de Stº Agostinho, no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa. Em 1211 e contando cerca de 16 anos, Fernando ruma a Coimbra, ao mosteiro de Stª Cruz, em busca da maior biblioteca eclesiástica então existente no país. Completamente absorvido na leitura, entrega-se ao estudo das muitas obras que lê e conhece como poucos. Assim, 8 anos depois, Fernando era ordenado sacerdote.


Mosteiro de Stª Cruz de Coimbra.

Contemporâneo de Fernando Martins de Bulhões, outro religioso teria abandonado a casa abastada dos pais para se dedicar à meditação e à vivência monacal. Falamos de Francisco de Assis, um puritano que busca no exemplo de Cristo e dos primitivos cristãos, um ideal de pobreza e abnegação esquecido, promovendo a reaproximação da Natureza e dos homens. Esta nova reflexão sobre a vivência dos Evangelhos acaba por rapidamente atrair novos seguidores, que se multiplicam e partem rumo a outros países. Ora, foi já como sacerdote que Fernando toma pela primeira vez contacto com membros desta comunidade. Recebendo um dia alguns destes frades no mosteiro de Coimbra, agrada-se do seu modo simples e alegre de viver a Fé. Contudo, poucos meses depois desta visita, chegam a Coimbra as relíquias de cinco franciscanos, degolados nesse mesmo ano de 1220, no decorrer da sua missão em Marrocos. Fernando impressiona-se imensamente perante os cadáveres e com o martírio desses homens simples, logo resolvendo tomar o hábito franciscano.


Stº António recebendo os franciscanos.

Contando então cerca de 25 anos, Fernando integra esta Ordem, e, alterando o seu nome de baptismo para António, muda-se para o ermitério de Stº Antão dos Olivais, perto de Coimbra. Numa completa entrega ao seu espírito de missão, Frei António pede para partir quanto antes rumo a Marrocos. Pretende continuar a missão daqueles mártires que havia observado, na evangelização dos muçulmanos. Contudo, o projecto não lhe corre de feição e, chegando a Marrocos, em 1221, logo adoece com gravidade e vê-se obrigado a regressar a Portugal. Mas nem a viagem de regresso corre como desejado e, sofrendo uma violenta tempestade, a embarcação é desviada para o interior do Mediterrâneo, acabando por desembarcar na Sicília. Aí, Frei António é recebido no seio da comunidade franciscana, acabando mesmo por participar no “Capítulo das Esteiras”, uma grande reunião com cerca de 5 mil frades, que então ocorria em Assis, e tendo oportunidade de conhecer o próprio fundador da ordem, S. Francisco de Assis. Findo o encontro, Frei António passa então para o eremitério de Monte Paolo, onde permanece ao longo de 15 meses, empregando o seu tempo na meditação e nos trabalhos domésticos da comunidade. É desta forma que toda a sua sabedoria permanece desconhecida dos monges, que assinalam, contudo, a humildade constante daquele estrangeiro.


Convento de S. Francisco, em Assis.

Em 1222, António participa numa cerimónia de ordenação de frades, na cidade de Forli, sendo convidado para produzir a conferência espiritual. Aí, a sua dicção e o domínio das Escrituras que demonstrou ao discursar foi tal que pasmou toda a audiência. Não estavam preparados para que daquele monge discreto e modesto saísse tamanho dom para a pregação. Assim, ao longo dos 3 anos seguintes, Frei António percorrerá a Itália como pregador e mestre de Teologia, chegando a ser convocado pelo próprio Francisco de Assis para ensinar em Bolonha, Montpelier ou Toulouse. Com a morte de S. Francisco, em 1226, Frei António muda-se para a cidade italiana de Pádua, onde passa a produzir os sermões dominicais. Como resultado, a afluência às suas missas aumenta, mas aumenta de tal maneira que, em breve, terá de discursar em campo aberto, pois que nenhum templo comportava o imenso público que o procurava ouvir. A sua celebridade aumenta ao ponto de ser santificado, ainda em vida, pelo povo, que disputava por um simples pedaço do seu hábito como relíquia. São-lhe encomendados sermões pelo bispo de Óstia, o futuro Papa Alexandre IV, para serem lidos nas principais festas religiosas, documentos que escreve em 1229 e que constituem as principais fontes do Santo que hoje nos chegam.


Fachada da Igreja de Stº António, em Pádua.

Em 1231 deu-se a consagração da sua santidade, quando, ao fazer o discurso da Quaresma, em Pádua, é assistido por uma verdadeira e crescente multidão, facto que tem sido apontado como uma espécie de segunda fundação cristã da cidade face ao número de conversões que produziu. Contudo, é também nesse ano, em inícios de Junho (13 de Junho), que o frade adoece e sucumbe nas imediações de Pádua, proclamando-se a “morte do Santo” pela cidade. Certo, é que foi canonizado antes que se completasse um ano da sua morte, a 30 de Maio de 1232, o que nem com S. Francisco de Assis acontecera. O sepulcro, conforme sua vontade, foi erigido em Pádua, onde ao longo do tempo foi sendo alvo de grande oração e peregrinação, na Igreja de Santo António. Por outro lado, a Igreja de Stº António de Lisboa, foi erguida sobre a sua casa, também alvo de intensa peregrinação. O dia 13 de Junho é, pois, a data de celebração do santo em Lisboa e Pádua, as cidades que o viram nascer e morrer.

Sexta-feira, Junho 09, 2006

- Camões, poeta das 7 partidas -



O 10 de Junho é apontado como data da morte de Luís Vás de Camões. Não havendo certezas em relação a tal, pior certamente seria não haver data alguma que lhe assinalasse a passagem e a obra. Pois, 426 anos passados, vamos recorda-lo.

Foram muitos os portugueses que, na gesta dos Descobrimentos e do Império Português, partiram mundo fora “em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana”. Desterrados, condenados, aventureiros, uns sem raízes ou amarras no coração, outros comprometidos e sedentos do retorno, milhares de homens circulavam pelas carreiras que rumavam às Índias, à China e múltiplos entrepostos. Por entre peles crestadas pelo sol, ressequidas pelo sal, tufões e tempestades marítimas, batalhas sangrentas em pleno mar alto contra piratas e em rebeliões, todos traziam histórias e memórias que constituiriam o chamado “País de Marinheiros”. Contudo, nem todos saberiam relatar tão bem ou imortalizar de forma tão sublime a epopeia que constituía a vida individual de cada um. Luís Vás de Camões levaria essa vivência ao limite, da mesma maneira que o fará na expressão escrita da sua memória. Recuemos…

Pensa-se que terá nascido em Lisboa, por volta de 1524. Filho de uma família galega, Camões pertence a uma nobreza decadente e pobre que vai mudando de poiso sucessivamente, de Chaves para Coimbra e depois para Lisboa. Perdendo o pai, destacado em Goa, vê a mãe contrair novo casamento afim de obter sustento. Contudo, não deixa de ser educado, sendo acompanhado por jesuítas e dominicanos, após o que, rumando a Coimbra, faz o curso de Artes e frequenta o meio aristocrático. Aí, formará o seu espírito na literatura clássica greco-romana, aprofundando o latim e aprendendo italiano e castelhano. No entanto, o espírito livre e vertiginoso de Camões leva-o a um estilo de vida pouco recomendável. Circula entre vadios e amotinados, meretrizes e boémios, num romantismo depravado que lhe vai entorpecendo a razão. Contudo, pontua e alterna violentamente este abandono de si, com as alegadas famosas paixões platónicas que dedica às damas da Corte, com as quais tem contacto, e onde eleva o amor ao nível do transcendental e imaculado. Ainda assim, é ao seu lado boémio e conflituoso que o jovem dá largas, o que, em 1548, lhe vale um desterro de alguns meses para Constância, no Ribatejo. Aí, valem-lhe alguns amigos que lhe garantem guarida, até que, em 1549, resolve embarcar rumo a Ceuta, entre a milícia do Ultramar. Aí ficará por dois anos, no decorrer dos quais perderá o olho direito, num cerco feito pelos mouros.



Em 1552, já regressado a Lisboa, é no Largo do Rossio que se envolve numa rixa com um funcionário da Cavalariça Real que se digladiava com dois amigos seus. Camões fere gravemente o homem com uma adaga, após o que, é aprisionado. Nove meses depois e apenas por perdão da vítima, Camões é posto em liberdade, contudo, condicionado a partir para a Índia por 3 anos, ao serviço do reino. Em Setembro de 1553 chega a Goa. Aí, Camões participará em expedições militares, por terra e mar, cujo salário tenta aumentar com encomendas de versos e autos que lhe fazem, bem como com a escrita de cartas ditadas por soldados analfabetos, a enviar para o reino. Em 1556, terminado o seu serviço obrigatório, Camões é nomeado provedor-mor em Macau, cabendo-lhe a administração provisória dos bens de falecidos ou desaparecidos e sendo aí que começa a composição dos Lusíadas, numa gruta onde buscava inspiração e escrevia. Face às acusações que entretanto sofre de desvio de valores alheios, é forçado a voltar a Goa para responder judicialmente. É no regresso dessa viagem que naufraga ao largo do Camboja, tendo então por prioridade salvar os manuscritos que já se adensavam e trazia sempre consigo. Nadando até terra firme, consegue salvar o que havia já escrito dos Lusíadas.

Resgatado e levado para Goa, aí ficará à mercê da sua miséria e das dívidas que entretanto contrai, sendo rapidamente aprisionado. Mas sorri-lhe a sorte mais uma vez, ganhando, através da sua escrita, a simpatia e a protecção do Vice-Rei da Índia, o Conde de Redondo, que o liberta e introduz no meio aristocrático e intelectual da região. Em 1567, trava conhecimento com Pêro Barreto, capitão de Moçambique, que lhe oferece emprego e adianta o pagamento da passagem para lá. Mais uma dívida que Camões não salda e que, com outras entretanto contraídas, leva o capitão a prendê-lo. Uma vez solto, está de novo por sua conta, miserável e desamparado, mas prosseguindo a escrita. São os amigos que mais uma vez o acodem e, depois de lhe darem guarida, juntam dinheiro entre si, compram-lhe umas roupas, saldam-lhe as dívidas e ajudam-no a regressar a Portugal, terminando mais uma aventura e onde chega em 1570. Uma vez em Lisboa, Camões vai viver com a sua mãe na Mouraria, onde passa grandes privações. Acalenta como grande objectivo a publicação dos Lusíadas que antes concluíra, e para tal, pede auxílio ao Conde do Vimioso. Por intermédio deste, obtém permissão real para o seu projecto, que, em inícios de 1572 toma corpo e sai em 200 exemplares. Com esta publicação, D. Sebastião atribui-lhe uma pequena tença trienal de 15 mil reis, o que, em orçamento diário, era diminuto e insuficiente para seu sustento.



Em pleno ano de 1579, Lisboa é assolada pela peste e Luís Vás de Camões, já de si debilitado, é facilmente contagiado, passando o resto dos seus dias na cama, no ambiente húmido e infecto dos bairros populares de Lisboa. Numa derradeira carta, endereçada ao capitão D. Francisco de Almeida, faz referência ao desastre de Alcácer Quibir, de 1578, bem como à ruína financeira do reino, prevendo aí o fim da sua independência em favor dos castelhanos.

"Enfim acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de morrer nela, mas com ela".

O seu próprio funeral é pago por caridade e celebrado junto ao cemitério do Convento de Santana, em Lisboa.


Túmulo de Camões no Mosteiro dos Jerónimos.

Quinta-feira, Junho 01, 2006

-Quem foi o "Infante Santo"? -


Infante D. Fernando nos painéis de S. Vicente.

Da História das nações não rezam apenas glórias e seus heróis. Momentos há em que as nações se desprestigiam e os heróis falham. Portugal não foi excepção e o Infante D. Henrique também não.

É bastante comum encontrarmos referências a um tal “Infante Santo”. No nome de colégios, estabelecimentos comerciais, hospitais e clínicas, ruas e avenidas, trata-se de uma presença mais ou menos constante, cuja origem, contudo, se perde na sabedoria popular. Tempos houveram em que o seu nome foi elevado bem alto na tradição e no coração do povo. Esse nome era Fernando, filho de rei e santo pelo martírio. Era o irmão mais novo entre a chamada “Ínclita Geração”, ou seja, entre os filhos de D. João I, o Mestre de Avis, com a rainha Dª Filipa de Lencastre, em inícios do séc. XV. Entre tão notáveis irmãos, onde se incluíam o Infante D. Henrique, D. Pedro, duque de Coimbra ou o próprio D. Duarte, futuro rei, o jovem Fernando sobressai pela sua fragilidade, uma saúde débil que lhe vale a atenção e carinho redobrado. Contudo, o infante vinga e fortalecesse-se física e espiritualmente. Na verdade, o jovem cultivava uma forte religiosidade, ocupando-se essencialmente em obras e iniciativas piedosas. Muito cedo o seu pai o faz mestre da Ordem de Avis, procurando compensa-lo pelo facto de ser o último dos filhos e, como tal, aquele que menos beneficiaria em relação aos irmãos. Não obstante, Fernando não se contentava com estas honras, aspirando a maior prestígio e glória, à semelhança dos irmãos e projectando, para isso, partir ao serviço do Papa ou de outros reis europeus.

Estando nestes intentos, o jovem infante acaba, no entanto, por decidir ficar. Tomara conhecimento da mais recente empresa do seu irmão Henrique, que, então, preparava uma expedição ao Norte de África, à conquista de Tânger. Era uma boa oportunidade de se revelar e prestar importantes serviços ao reino, podendo fazê-lo ao lado do irmão e ao serviço de Portugal. Apesar das tentativas do, já então, rei D. Duarte, seu irmão, para o dissuadir de participar, o jovem acabou por levar a melhor, obtendo licença para partir. Assim, sob comando do Infante D. Henrique, a armada parte do porto de Lisboa, a 22 de Agosto de 1437 e levando a bordo o Infante Fernando. Sucede que a expedição não correu como o Infante D. Henrique planeara, e, uma vez em Tânger, as tropas portuguesas foram atacadas por tão grande número que, a alternativa a uma chacina geral seria mesmo a rendição incondicional. Foi o que D. Henrique fez, terminando o confronto.


O Infante D. Henrique.

É aí que se dá um momento singular na História militar portuguesa, embora pelo seu lado menos glorioso. O Infante D. Henrique, mestre da Ordem de Cristo, senhor de inúmeras riquezas, promotor e principal ideólogo da empresa dos Descobrimentos, ao tentar negociar a sua libertação, confronta-se com a exigência, por parte do governador de Tânger, da devolução da importante cidade de Ceuta, anteriormente conquistada pelos portugueses. Ora, não podendo garantir tal devolução sem que o propusesse ao seu rei e irmão, D Duarte, pede ao chefe mouro que o deixe partir e às suas tropas, deixando-lhe, como garantia de sua palavra, o seu próprio irmão, o Infante D. Fernando.

Parte então o Infante D. Henrique, junto com toda a sua armada rumo a Portugal em busca do rei. Mas, em Portugal, a situação foi recebida num misto de indignação e discórdia. Dava ideia que o ultraje de ter um príncipe português nas mãos dos "infiéis", de alguma maneira se minimizaria face à importância estratégica de Ceuta e ao interesse da sua permanência no domínio de Portugal. A verdade é que a situação que D. Henrique trazia às cortes não parecia ter resolução fácil, uma vez que as vozes se dividiam entre a cedência imediata aos mouros e, por outro lado, a recusa de cedência, procurando resgatar o infante de outra maneira. Sucede que, quando se preparava para dar ordem favorável à troca incondicional, D. Duarte morre, deixando o reino sem uma liderança forte, tendo em conta que o herdeiro, D. Afonso, era ainda uma criança. É assim que a situação de indecisão se arrasta indefinidamente. Tenta-se ainda o resgate do infante de forma secreta, contudo, descoberta a acção, tudo piora para D. Fernando.


Tanger

Verificando que Portugal não tinha qualquer intenção de cumprir com a sua parte do acordo, os mouros reflectem a sua fúria no cativo, intensificando, a partir daí, maus-tratos e desconsiderações de todo o tipo sobre Fernando. Encerrado numa torre e posto a ferros, o infante sofre fome, sede, agressões, humilhações de toda a sorte, é escravizado, forçado a pesados trabalhos agrícolas, a limpar cavalos e estrebarias, etc. Ainda assim, e aceitando tudo isto com pacífica resignação, o infante chega a escrever ao seu irmão, o rei D. Duarte, pedindo-lhe que não cedesse, pois que Ceuta era mais importante que a sua vida. Durante seis anos, este homem, filho de rei, permanece ao livre dispor do principal inimigo de Portugal, que lhe faz sentir na carne todas as humilhações e sofrimentos que a medida do ódio muçulmano então comportava. Assim, tendo passado uns derradeiros 15 meses encerrado num cárcere de Fez, isolado, escuro e sem qualquer contacto humano, o infante acaba por morrer, contando apenas 41 anos, a 5 de Junho de 1443. Muitas foram ainda as malfeitorias que os mouros fizeram ao cadáver, embalsamado e exposto em público, pendurado às avessas, nu, à porta da cidade para chacota popular. Seria apenas resgatado largos anos depois, já ao tempo das expedições africanas de D. Afonso V, seu sobrinho.

Para a História e para que conste também, fica a atitude do Infante D. Henrique, que tendo pronto trocado a sua liberdade pelo cativeiro do irmão, foi capaz de viver e permitir que o reino vivesse, apesar do martírio do infante e até que tudo esquecesse. Contudo, e tendo nunca esquecido tal martírio e tamanha abnegação, o povo, esse o elevou a santo e “Infante Santo” ficou, até hoje, 563 anos passados da sua triste morte, que agora se assinala.

Quarta-feira, Maio 24, 2006

- A “Invencível Armada” -



No Verão de 1588, dava-se a maior batalha naval alguma vez assistida desde a época clássica. Um conjunto de 130 navios de guerra entrava em águas inglesas, a mando de Filipe II de Espanha, com o objectivo de depor a “rainha herege” e restituir a coroa britânica à Igreja Católica. Assinalam-se, agora, 418 anos da sua partida desde o porto de Lisboa.

É discutível até que ponto Portugal se pode ou não integrar nesta expedição. Na verdade, haviam oito anos desde a união dos dois tronos ibéricos sob o comando do rei de Espanha. Desde 1580 que Portugal deixara de existir enquanto reino soberano e dono dos seus desígnios, agora entregues às mãos dos administradores e burocratas espanhóis. Assim, oficiais, marinheiros, mercadores, artesãos, etc., todos passam ao serviço de D. Filipe II de Espanha, o I de Portugal. Da mesma forma, também seus tratados e alianças são quebrados e vilipendiados, em benefício das novas fidelidades. Recuemos…

Unificada a Ibéria, pretende este rei alastrar os seus domínios e influência pela Europa e mundo conhecido. Estabelecidas alianças com outros reinos europeus e garantido o incondicional apoio do Papa, havia, antes de mais, que garantir o completo domínio das rotas marítimas e relações comerciais inerentes, sua principal fonte de riqueza. Contudo, subsistia nessa altura um importante entrave a esse plano, a pirataria inglesa. Ao Norte, a Inglaterra vinha, internamente, vivendo tempos muito conturbados. Um tempo em que se acendiam já fogueiras na rua, para queimar os apologistas do Protestantismo. Estes autos de fé e outras perseguições, foram apoiados e instigados por Roma, como forma de luta contra a deriva anti-católica que grassava na Inglaterra. Desde Henrique VIII que o reino estava de relações cortadas com o Vaticano, por questões religiosas e políticas, contudo, seriam as suas duas filhas a protagonizar o referido período de conturbação social na Inglaterra quinhentista. D. Maria I, católica, ao contrário de seu pai, reabilita as relações com o Papa, declarando-lhe fidelidade e perseguindo os defensores do protestantismo no seu reino. Contudo, este reinado não durará muito, encurtado por uma doença mortal que leva a rainha sem que deixasse descendência. Suceder-lhe-ia, assim, a irmã mais nova, Elisabete, filha de segundo casamento e protestante como seu pai. Este novo reinado reiniciará, assim, o corte nas relações com o Vaticano, bem como com todos os reinos fiéis ao Papa. Ora, entre esses reinos fiéis a Roma, encontrava-se a poderosa Espanha, dona dos mares e principal difusora do catolicismo no mundo.


Elisabete I de Inglaterra.

Então, e em conluio com o Papa, o rei de Espanha inicia um plano para substituir Elisabete I por Maria I da Escócia, católica e rebelada contra Inglaterra, mobilizando a aristocracia inglesa católica. O facto de, em 1587 e por ordem de Elisabete, Maria I e outros destacados católicos terem sido executados, leva a que o rei espanhol mobilize todos os católicos da Europa contra a “rainha herege”. Trata-se de uma sucessão de revezes que levam D. Filipe II a tomar esta decisão. Acumulando com a questão religiosa da permanente desobediência de Inglaterra ao Papa, a Espanha sofria então pesadas perdas ao longo das suas rotas comerciais no mar. Na verdade, Elisabete I dava cobertura à acção de piratas e corsários ingleses, que infestavam o Atlântico e o Pacífico, em busca de galeões espanhóis carregados de riquezas variadas, que pilhavam sucessivamente. A própria coroa inglesa reservava para si parte importante desses roubos, apesar de receber as críticas e apelos dos espanhóis contra esses actos.


Rei D. Filipe II de Espanha.

É então que o rei de Espanha decide atacar Inglaterra, tomar o reino e atribuir-lhe um monarca católico. Para tal, começa a reunir uma armada de fortes e pesados navios, chegando a um total de 130 unidades, entre 22 galeões e 108 navios mercantes, que rumam ao estuário do Tejo, ao largo de Lisboa. Aí, e a despeito da antiga aliança entre Portugal e Inglaterra, juntam-se as embarcações portuguesas, num total de 31, sendo que o próprio comandante da armada, o Duque de Medina Sidónia, se deslocaria no galeão português S. Martinho. Da mesma forma, mobiliza um total de cerca de 30 mil homens, prontos a integrar a, então chamada, “Invencível Armada”. A 28 de Maio (1588), levantam âncora os primeiros navios, partindo de Lisboa rumo ao Canal da Mancha, onde se haveriam de encontrar com a frota inglesa. A partir de 20 de Julho dão-se as primeiras refregas ao largo de Inglaterra. Os ingleses, detentores de uma frota com cerca de 100 unidades, menores que as espanholas e nem todas preparadas para combate, adoptam uma estratégia de prudência, mantendo-se à distância e procurando envolver a armada espanhola, que se dispunha em meia-lua. Lideradas pelo famoso corsário, Francis Drake, as embarcações inglesas surgem por detrás, mais velozes e ligeiras, atacando e retirando-se, numa estratégia que obriga os espanhóis a dispersar a armada, desorganizando-se.



Tendo os maiores galeões espanhóis de se dirigir ao porto de Calais, para arranjos, são surpreendidos por uma ideia do referido corsário inglês. Um inaudito episódio naval que arrumaria para sempre as aspirações espanholas ao domínio dos mares, e marcando, por outro lado, o início de uma ascensão da armada britânica que culminará nos séculos seguintes com a construção de um verdadeiro império. Sucede que, na calada da noite de 27 de Julho, encontrando-se esses pesados navios alinhados no cais, é ordenado o lançamento de oito “bulotes” em direcção aos mesmos. Essas pequenas embarcações, apenas contendo o seu piloto, estavam atestadas de explosivos e todo o tipo de combustíveis, que, levadas velozmente até ao centro do cais, chocam entre os navios espanhóis, explodindo com tudo em redor. É tão grande o alarido e a mortandade, que, aos espanhóis, resta uma confusa debandada para Sul, num total de 53 navios que Lisboa acolhe, alguns dias depois.

Sexta-feira, Maio 12, 2006

- O sonho desfeito -



Vários foram os momentos na História das relações peninsulares, em que Portugal quase foi espanhol e que a Espanha quase foi portuguesa. É certo que “nuestros irmanos” tomaram sempre a dianteira neste aspecto, chegando a remeter-nos a uma dominação de 60 anos, contudo, há um momento na História em que o oposto quase aconteceu, um sonho que el-Rei D. João II acalentava, mas que se desfez um dia, numa cavalgada que tira a vida ao príncipe herdeiro, o jovem Afonso de Portugal. Recuemos...

D. João II, ou “o Príncipe Perfeito”, como ficou conhecido, procede a um reinado extremamente severo e organizado. Um homem de ideias claras, empreendedor e obstinado, que, coroado rei, passa a ajustar o governo do reino ao seu carácter, quando muitos preferiam o contrário. Esses muitos, seriam naturalmente os da nobreza, uma aristocracia habituada a influenciar o rei e o seu governo em favor dos seus interesses individuais. Ora, D. João II não era homem para serventias, tinha um forte ímpeto centralizador e autoritário, que desprezava aproximações arrogantes e concelhos interesseiros. Tal haveria de lhe valer alguns amuos e conspirações, que chegaram ao ponto da planificação de um atentado, falhada e devidamente vingada por mãos próprias. É este rei que reanima a empresa dos descobrimentos, uma vez que seu pai, D. Afonso V, se tinha virado para as conquistas de África, ao bom estilo dos interesses da nobreza, mais vocacionada para as honrarias da guerra do que para os negócios aburguesados das descobertas, que desprezavam. D. João retira poderes e influência às grandes famílias aristocratas, nomeadamente aos duques de Bragança ou Viseu, concentrando apenas em si a direcção do reino e das suas opções. No seu reinado Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa Esperança, Álvaro de Caminha inicia a colonização de S. Tomé e Príncipe, Pêro da Covilhã ruma à Etiópia em busca do Prestes João… Não vamos aqui aprofundar os avanços cartográficos e científicos das escolas portuguesas de navegação, as políticas secretas de Estado face aos avanços no domínio da geografia mundial, bem como a estratégia do Tratado de Tordesilhas ou a recusa de apoio aos devaneios de Colombo. Pretende-se aqui, evocando o nascimento do príncipe Afonso, seu filho, a 18 de Maio de 1475, assinalar o outro grande projecto do “Príncipe Perfeito”, que ficaria por conclui numa manhã trágica à beira rio.


D. João II

Filho único de D. João II com Dª Leonor de Viseu, D. Afonso era muito querido do rei, devendo-se-lhe o nome da ilha mais pequena do arquipélago de S. Tomé e Príncipe, justamente “Príncipe”. Para este filho, D. João II preparava o mais glorioso dos reinados. Se, por um lado, lhe haveria de deixar um reino dono do mar e de todo o seu potencial, por outro, havia sabiamente conduzido uma diplomacia com os reis de Castela, de maneira a casar o seu filho com a filha mais velha dos castelhanos. Mas que interesse teria ele nisso? Ora, Isabel de Aragão, a dita princesa, era a filha mais velha dos reis católicos de Castela e Aragão, reis que tinham um único filho homem, passível de herdar o trono. Contudo, esse filho, Juan, era de saúde muito débil e cujo futuro pouco prometia. Sabendo-o, D. João II quer casar a única herdeira possível do trono castelhano com o seu filho, que, não tendo irmãos (que pudessem casar com a princesa castelhana e assumir com ela o trono de Castela e Aragão), acabaria herdando sozinho os dois tronos, unificando-os sob a tutela do rei de Portugal. O casamento dá-se, contando o príncipe apenas 15 anos e a princesa 20, sendo que tudo se preparava para o cumprimento dos planos de D. João II.

Menos de um ano depois, os reis de Castela procuram dissolver o casamento. Vêem a conjuntura avançar inevitavelmente para o agravamento da saúde do seu herdeiro sem que deixasse descendência, o que levaria a que o filho do rei de Portugal herdasse as duas coroas. Contudo, as relações preferenciais que tinha D. João II com o Papa, não levaram as pretensões castelhanas a bom termo, dando-lhes a causa como aparentemente perdida. Acontece então que, a 13 de Julho de 1491, passeando o príncipe Afonso de Portugal a cavalo pelas margens da Ribeira de Santarém, cai e morre, alegadamente da queda. São misteriosas as circunstâncias dessa morte, na medida em que houve apenas uma testemunha a presenciar o “acidente”, o aio de D. Afonso, que, por sinal, terá partido abruptamente para Castela no próprio dia da morte do príncipe. Não é difícil supor que os reis castelhanos, não tendo outra maneira de evitar uma união ibérica às mãos de Portugal, tenham conspirado a morte do príncipe herdeiro português, dando cobertura ao aio, posto a soldo para cometer o assassínio. Não estando nada disto provado, poderemos apenas duvidar das circunstâncias estranhas do acidente e verificar quem beneficiou desta morte.



Em desespero, o rei ainda tentou que D. Jorge de Lencastre, seu filho bastardo, pudesse herdar o trono, fazendo-o mestre das ordens de Avis e Santiago, e concedendo-lhe o ducado de Coimbra (cujo filho, D. Jaime, seria futuro donatário de Torres Novas). Contudo, interesses alheios ao rei, incluindo os da própria rainha, haveriam de conseguir a proibição do Papa para tal, acabando por ser um irmão da rainha a herdar o trono, por testamento de D. João. Seria o então Duque de Beja, D. Manuel, irmão da rainha, cunhado e primo do rei, o futuro “Venturoso”, D. Manuel I.

Sexta-feira, Abril 28, 2006

- “Morro bem. Salvem a Pátria! ” - (Sidónio Pais / 1872-1918)



Qual é o jornal, telejornal, colóquio universitário ou simples conversa de café, onde não se passe sistematicamente um atestado de incompetência ou vilanagem aos nossos políticos? Longe vão os tempos em que se rezava, diariamente, pela saúde e sabedoria de quem orientava o espaço comum, em que se depositava uma esperança e confiança genuínas, nos líderes tidos como providenciais. Com o desenrolar da História, a sociedade foi sendo educada para a informação, tornando-se mais exigente e vigilante, educada para a formação, tornando-se mais culta e capaz. A política perde espaço no coração popular e os novos heróis nascem de outras obras.

A 1 de Maio de 1872 nascia um dos últimos políticos heróis que o povo português acarinhou. O “pai dos pobres”, ou “aquele que amou o povo”, “protector das crianças”, o “Mártir” ou o “Grande Morto”, Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais tornou-se num fenómeno relâmpago que, em apenas um ano e seis dias, consegue reunir os mais antagónicos apoios, liderar um golpe de Estado, congregar o apoio de toda a população, reformar o regime, reprimir rebeliões, escapar a um atentado e ser assassinado num outro.

Nascido em Caminha, a 1 de Maio de 1872, órfão de pai e irmão de 5, Sidónio divide a sua formação entre o Exército e a Universidade, onde acaba por se tornar catedrático como lente de Matemática, em Coimbra. Chega a vice-reitor dessa universidade no próprio ano da revolução de 1910. Tendo a sua actividade política começado entre grupos de conspiração republicana, apenas daria um contributo verdadeiramente activo na sequência da implantação da República. Sidónio movia-se facilmente nesse meio, próximo do futuro presidente Manuel de Arriaga, recebe um claro voto de confiança deste grupo ao ser convidado para integrar a Maçonaria coimbrã, em 1911.



Em 1912 é enviado como embaixador para Berlim. Aí permanecerá por 4 anos, no decorrer dos quais o seu pensamento e visão política se transforma, degenerando da sua prévia formação republicana. Com o advento da I Guerra Mundial e com o posicionamento português ao lado dos Aliados, Sidónio regressa a Lisboa, em 1916, onde é feito major. Na pasta, trazia uma nota alemã de declaração de guerra a Portugal. Não está contente com o rumo dado às relações externas portuguesas. Sidónio crê firmemente que, finda a guerra, a vitória será alemã e logo, considera que Portugal está no lado errado das trincheiras. Aprendera a admirar a eficácia do sistema presidencialista alemão, a disciplina daquele povo e de suas instituições. É isso que sonha para Portugal, e, no envio de tropas portuguesas para a frente de guerra vê o desbaratar de vidas por uma causa em que já não se revê.


Frente de batalha na I Guerra Mundial

Nos 10 meses que se seguem, Sidónio prepara um golpe militar que visa a destituição do Governo e a imposição de uma nova ordem. Não lhe foi difícil fazê-lo, na verdade, desde a Direita mais conservadora às esquerdas mais radicais, os apoios multiplicavam-se em torno do seu carisma. Reuniu monárquicos e socialistas, militares e clérigos, patrões e proletários, e na tarde de 5 de Dezembro de 1917, inicia um movimento que se conclui em 3 dias com o derrube do governo e a instituição de uma Junta Militar. “Dar estabilidade e prestígio à República e engrandecer e honrar o país”, é o ponto-chave do seu programa de Governo, que apresenta no dia 12 de Dezembro, para além da instituição do regime presidencialista. Começa então uma série de viagens por todo o país e, de Norte a Sul, Sidónio é aclamado por multidões em histeria. Note-se que 1918 foi um ano particularmente dramático, aliando-se à instabilidade económica (resultante da guerra) uma forte epidemia e mortandade, a população pedia ordem, trabalho, comida, justiça e nada disto encontrava com os sucessivos governos dos partidos instalados no poder, os quais Sidónio apelidava de “demagogos”.


O contacto com a população também através de desfiles.

A acção social por ele promovida logrou um apoio ainda maior da população, instituindo a “sopa dos pobres”, visitando hospitais e orfanatos, etc. A sua política de proximidade criou um verdadeiro coro de apoio aquele que Fernando Pessoa imortalizaria como o “Presidente-Rei”. Contudo, a sua tendência ditatorial, bebida na disciplina da hierarquia militar, cedo lhe valeu grandes inimizades. A proximidade que veio a estabelecer com os sectores mais conservadores e monárquicos, afastou o apoio socialista e sindical, que já então mobilizava grandes falanges de proletários. Por outro lado, o ostracismo a que votou os tradicionais partidos republicanos, valeu-lhe a oposição da Maçonaria que o havia acolhido anos antes, contando manipula-lo.

Dando-se por concluída a acção do seu governo provisório e convocando-se eleições, é a 28 de Abril de 1918 que Sidónio Pais será eleito Presidente da República. De Maio a Dezembro desse ano, sucedem-se os focos de rebelião e de contra ofensivas governamentais que aumentam a instabilidade do novo regime. O restabelecimento da censura prévia, a prisão política de dezenas de conspiradores, a proibição de manifestações sindicais, etc., move contra Sidónio todo um imenso leque de interesses económicos, sociais e políticos que ele procurou contrariar frontalmente. O regime assentava num só homem e morto o homem, acabava-se com a sua obra. Não obstante, permaneceu sempre ovacionado e querido pelo povo, que lhe reconhecia a delicadeza no trato, a honestidade no olhar e a força na acção.

Na noite de 14 de Dezembro, ele está decidido a embarcar no comboio rumo ao Porto, onde o aguardam tumultos populares. Todos lhe pedem para que fique, garantem-lhe não ser segura a viagem e que o aguardam os conspiradores. Sidónio responde-lhes: “Ou eles, ou eu!” e ruma ao Rossio. É então que, por entre um grande aparato policial e uma imensa multidão de aplausos e vivas, uma arma fura o cordão policial, e quando o major transpõe a entrada do grande átrio da estação, são disparados 2 tiros que o deitam por terra. Disseram, os que o agarraram, que antes de falecer suspirara a frase: “Morro, mas morro bem. Salvem a Pátria”.


Átrio da Estação do Rossio, o local do assassinato.

Sendo ou não verdade, o mito ficou. Muito para além do dito e do seu significado, ficou pela atitude e pela imagem, entretanto apagada da memória colectiva. Hoje, 134 anos depois do seu nascimento, Sidónio Pais é pouco mais que uma avenida junto à rotunda do Marquês de Pombal. É, pois, justo que lhe assinalemos a efeméride.

Sexta-feira, Abril 21, 2006

- Enfim Livres! -



Entre as páginas gloriosas da nossa História, algumas há que, quando esquecidas, deixam um triste e profundo vazio. Tal, restringe e diminui a eventual compreensão de um espírito ou de uma comunhão nacional, responsável pelo suceder da dita História. Assim, e porque este é um exemplo dessa negligência, evocamos hoje a memória do Conde D. Henrique, progenitor da nacionalidade, defunto a 24 de Abril de 1112. Recuemos.

Encontramo-nos em fins do século XI, período de intensas convulsões por toda a Península Ibérica. No Centro e Sul da península, o domínio muçulmano que se fazia ainda sentir, encontrava-se esquartejado em pequenos reinos independentes que se digladiavam entre si, os chamados “reinos Taifas”. Essa separação, fruto do colapso do califado omíada, bem como da ambição independentista dos líderes regionais muçulmanos, contribuiria grandemente para a vulnerabilidade desses territórios. Ora, entre esses pequenos reinos ou Taifas, aqueles que faziam fronteira com o Norte peninsular, acabavam sofrendo as incursões cristãs, que aproveitavam a falta de coesão dos muçulmanos para alargar os seus domínios. O maior protagonista destes movimentos de expansão cristã era D. Afonso VI, rei de Leão. O seu ímpeto guerreiro leva-o até à cidade de Toledo, importante capital islâmica situada no coração da península, que conquista em 1085. A par desta cidade, outras, como Santarém e Lisboa, ambas pertencentes à taifa de Badajoz, acabariam na posse dos cristãos. A proximidade destes à taifa de Sevilha, levaria a que o rei desta cidade pedisse auxílio militar aos Almorávidas, povo também muçulmano, dominante no Norte de África e que, em 1086, atravessava o Estreito de Gibraltar em busca dos cristãos.


Possivel aspecto de D. Henrique, partindo rumo à Península Ibérica.

Neste processo de reconquista cristã, o rei de Leão contaria com o auxílio de guerreiros vindos de outros pontos da Europa, que não da Península Ibérica. D. Henrique de Borgonha será um deles. Descendente directo dos reis de França e membro do ducado francês da Borgonha, Henrique era o mais novo entre seus irmãos, não podendo por isso adquirir títulos ou fortuna por herança. O ducado da Borgonha caberia ao seu irmão mais velho Hugo, pelo que, Henrique opta por partir como cruzado para Sul. Sem o estatuto de varonia estes filhos segundos teriam de buscar prestígio e riqueza por meio de acções militares, onde se pudessem destacar por serviços prestados a algum rei, que os compensasse depois com títulos e fortuna. Foi o que sucedeu com D. Henrique. Colocando-se ao serviço de D. Afonso VI de Leão, juntamente com seu primo Raimundo, logo Henrique se destacará pela sua bravura, no combate aos muçulmanos. Com o seu auxílio, o rei leonês conquistará todo o território da Galiza, descendo por Coimbra, até Santarém e Lisboa.


O Conde D. Henrique

A força e o prestígio alcançados por D. Afonso VI, através de sucessivas vitórias, valeram-lhe a reunificação e reorganização dos domínios cristãos da península. Convinha, contudo, repartir esses territórios por diferentes chefias, procurando fortalece-los contra a resposta muçulmana protagonizada pelos mencionados Almorávidas. Assim, em 1091, a toda a região da Galiza e territórios ocidentais recém-conquistados (Coimbra, Santarém, Lisboa), caberia a chefia de D. Raimundo, primo de Henrique e recém-casado com a filha de Afonso VI, Dª Urraca. Contudo, este não conseguiria manter as conquistas mais a Sul, perdendo toda a linha do Tejo para os Almorávidas. É então que D. Afonso VI decide reforçar ainda mais a sua estratégia de defesa, dividindo a área de chefia de D. Raimundo. D. Afonso VI pretende então recompensar os serviços prestados por D. Henrique, concedendo-lhe em 1093 a mão de Dª Teresa, sua filha ilegítima, bem como o Condado Portucalense. Desta forma, é-lhe atribuído o controle militar e administrativo da zona mais exposta aos “mouros”, ou seja, a zona que equivale ao actual Norte de Portugal, ficando D. Raimundo com a área da actual Galiza.


D. Henrique com a esposa Dª Teresa

A sagacidade do jovem conde é imediatamente perceptível na forma como organiza os seus domínios, com vista a uma progressiva expansão e autonomia dos mesmos. Começa por procurar ganhar poder junto das cortes, integrando-se entre as mais poderosas famílias da nobreza, concedendo-lhes amplos privilégios no condado e integrando-as na sua própria corte. Por outro lado, estabelece a prioridade de povoar e valorizar o seu território, criando dificuldades às eventuais ofensivas de Sul. Cria então novas vilas em locais estratégicos, e concede foral a outras, organizando-lhes as actividades e definindo regras de convivência, o que atraía e fixava populações. Guimarães é um exemplo de localidade por ele fundada. Idealizara-a como pólo urbano de atracção mercantil, usando da concessão de privilégios para atrair francos, seus compatriotas, gente de perfil burguês, mercadores e comerciantes que desenvolveriam riqueza no condado. É aí que fixa residência, criando seus próprios paços, onde instala a família e a sua corte. Por fim, desenvolve uma relação de grande cumplicidade com o meio eclesiástico, dispondo-se pessoalmente a lutar pelo prestígio do bispado de Braga, que chega, então, a ultrapassar Santiago de Compostela.


Castelo de Guimarães

O seu prestígio permitir-lhe-ia auto-intitular-se “Conde e Senhor de todo o Portugal”, e a discutir com Dª Urraca a sucessão do trono de Leão, após a morte de D. Afonso VI. É então que acaba por falecer, a 24 de Abril de 1112, quando, na cidade de Astorga (Espanha), acabara de fazer a paz com a dita princesa, rumando o corpo à Sé de Braga. Falecido o conde, ficaria a viúva, Dª Teresa, no governo do condado, enquanto durasse a menoridade do único filho sobrevivente do casal, D. Afonso Henriques, futuro Rei de Portugal. Enfim livres, iniciavam uma profícua Casa Real, tutelar de um desígnio, semente de uma epopeia, musa dessa irmandade que é ainda Portugal.

Sexta-feira, Abril 14, 2006

- A mais triste Páscoa -


Relato contemporâneo do pogrom de 1507, em Lisboa.

Ao longo dos primeiros anos de 2000, sucedem-se, por muitas terras de Portugal, as comemorações dos 500 anos da entrega de Foral novo pelo rei D. Manuel I. Torres Novas não é excepção, assinalando esse momento memorável em 2010. Contudo, nesse mesmo período, não se assistiam apenas às epopeias marítimas, ou aos proveitos comerciais, nem só de profundas reformas e de certa prosperidade viviam as nossas gentes, tornando-se necessário lembrar momentos menos felizes e que convêm reter. O ano de 1506, ano em que seria finalmente ratificado o Tratado de Tordesilhas pelo Papa, foi um ano especialmente difícil para uma população que, logo em Janeiro, começara a sentir os efeitos de uma forte peste, que chegara a matar cerca de 130 pessoas por dia. Tratava-se de um período de profunda seca, vinda já do Verão anterior, factor que, aliado à falta de higiene inerente aos tempos ou à abundância de lixo que grassava pelas cidades, viria a potenciar os efeitos da dita peste. Contudo, a mentalidade da época haveria de lidar com estes factores naturais de uma forma muito própria, e tendo seres humanos como únicas vítimas: A matança de judeus no “Pogrom de Lisboa”, a 19 de Abril de 1506. Recuemos então.

Entre 1450 e 1480, vive-se em Portugal um tempo de especial estabilidade entre as autoridades cristãs e a comunidade judaica residente. Os judeus constituíam, então, referência no domínio da medicina, advocacia, geografia, economia e finanças, chegando mesmo a ocupar o cargo de ministro de Estado. Contudo, a crescente perseguição de que eram alvo em Castela, acusados de heresia e deicídio, levaria a que muitos buscassem em Portugal a paz e segurança necessários ao desenvolvimento da sua actividade. Ora, essa actividade era sobretudo financeira, exercendo-a no decorrer do desenvolvimento comercial, propiciado por um tráfego marítimo em rápida ascensão. Contudo, já nas Cortes de 1472 se haviam mostrado preocupações pela monopolização que os judeus faziam da área comercial e financeira do reino, o que constituía um sintoma precoce do que seguiria. Este mal-estar e clima de desconfiança, inveja e insegurança de parte a parte, que se vivia já, fora fortemente intensificado no ano de 1484 e em diante, quando maiores contingentes de judeus chegam a Portugal, fugidos da Inquisição espanhola, gente desenraizada, sem casa ou trabalho, e que vem aumentar a instabilidade já existente. A integração destes imigrantes, auxiliados pelas comunidades judaicas já instaladas, acaba por aumentar a concorrência aos mesteirais e mercadores portugueses, que, tendo-os por hereges, desenvolvem um ódio crescente que se alimenta, não só de razões económicas, mas também religiosas. Ao tempo, D. João II procura refrear os ânimos, evitando uniões concertadas contra os judeus, mas punindo a divulgação do judaísmo.

A escalada deste ódio tomaria proporções consideráveis quando, a 31 de Março de 1492, os reis católicos de Castela, pretendendo a unificação religiosa, expulsam por decreto todos os judeus não convertidos. Cerca de 90 000 judeus terão, então, entrado em Portugal, com a conivência de D. João II, que terá recebido dinheiro dos seus representantes, bem como técnicos judeus especializados na metalurgia e outras artes bélicas (afim de custear a alimentar a guerra com o Islão), em troca da permissão para fixação destas comunidades no reino. A tolerância do rei para com os judeus, que se devia essencialmente aos proveitos financeiros que a Coroa deles tirava (como mercadores ricos que eram), sofre um grande abalo quando, após a morte de D. João II em 1495, o seu primo e sucessor D. Manuel pretende negociar casamento com Dª Isabel, princesa de Castela.


D. Manuel I

Só que esta impõe como condição a expulsão de todos os hereges de Portugal antes da sua chegada, ao que o novo rei acede através do Decreto de 5 de Dezembro de 1496. Contudo, D. Manuel sabia que a expulsão dos judeus implicaria a perda da imensa riqueza, intelectual e financeira que estes encerravam. Procura então adiar e adaptar aos seus interesses o compromisso que fizera com a princesa. Assim, a partir de 1497, dá início a um processo de aliciamento à conversão, concedendo vastos privilégios, chegando mesmo a ordenar campanhas de conversão forçada aos resistentes, que chegavam a ser arrastados até às pias baptismais.


Decreto da conversão geral, por D. Manuel I em 1497.

Esta situação atingiria o auge em 1506, mais propriamente no dia 19 de Abril. Como anteriormente referido, este ano de terrível seca propiciava e agravava uma peste que espalhava a mortandade pelo reino. A mentalidade da época, fortemente condicionada pelos padrões religiosos de então, buscava no Divino as razões de tais castigos e a sua remissão. Multiplicavam-se as missas e procissões, com centenas de populares, o que fomentava ainda mais o contágio. Num desses ajuntamentos, na Igreja de S. Domingos, junto ao Rossio de Lisboa, tendo alguns clamado ter visto uma chama brilhante saída do crucifixo do altar, logo se tomou a visão por milagre e pronuncio do tão desejado perdão divino. Por azar seu, um judeu convertido lembrou-se de comentar o que, provavelmente, não passaria do reflexo solar no crucifixo, e de sugerir que “era melhor que fosse um milagre de água e não de fogo, pois, com a seca, é de água que precisamos!”. Ora os cristãos, tomando isto por zombaria, caem sobre o pobre, matando-o e queimando-o logo ali, junto à igreja. O seu irmão, que ali veio interceder pelo moribundo, também acabaria de igual sorte. Ficaria conhecido por “Pogrom de Lisboa” ou a “Matança da Pascoela”, os três dias que se seguiram. Tomada pela fúria e logo incitada pelos frades dominicanos, move-se a população por Lisboa fora, em busca de outros judeus, crendo que, matando-os, livraria o reino do pecado da heresia destes falsos cristãos, que mantinham o culto judaico, apesar do baptismo cristão. Ao longo desses dias, e sem que o rei pudesse controlar a populaça em fúria, foram invadidos, pilhados e incendiados os lares judaicos, as suas famílias perseguidas, mulheres violadas, grávidas com fetos arrancados, crianças mortas com requintes de malvadez, etc. Todos mortos, atirados pelas janelas e queimados em fogueiras improvisadas nas ruas. Chegam-nos descrições de judeus e até de portugueses, como o próprio Damião de Góis, da imensa violência, do cheiro intenso a carne humana queimada, dos gritos, das fugas, do ódio daqueles 3 dias. Quando tudo terminava, à falta de gente para matar, contavam-se cerca de 4000 vítimas mortais… e um reino certamente menos redimido.

Sexta-feira, Abril 07, 2006

- O grito do Ipiranga: "Independência ou Morte!" -



No seguimento de outros artigos já aqui apresentados sobre o vasto e apaixonante tema do Império Português de Oitocentos, vamos recordar o momento da independência da colónia brasileira e, resumidamente, encontrar-lhe algumas causas e consequências. Assinalam-se neste 7 de Abril, 175 anos que D. Pedro, príncipe herdeiro do trono português e Imperador do Brasil, abdicou dos seus direitos à coroa brasileira em favor de seu filho Pedro, futuro D. Pedro II do Brasil. A este pretexto, vejamos como tudo terá começado.

Já antes aqui lembramos o terror das invasões francesas, de 1807, bem como o reinado azarado e pouco energético de D. João VI, ora, o processo de independência do Brasil decorre de tudo isto. A proximidade dos exércitos franceses da capital do reino português obriga o rei a abandonar o país, a 29 de Novembro de 1807, embarcando rumo ao Brasil com toda a sua Corte e garantindo desta forma a independência do reino, uma vez que lhe transferia a capital para local distante. Aí, na cidade do Rio de Janeiro, instala-se uma Corte que floresce rapidamente. O ritmo político, económico e cultural da colónia que agora era metrópole, sofre um intenso incremento, constituindo-se como uma autêntica capital, em breve plenamente dotada das estruturas próprias desse estatuto. A par desse incremento, surge uma elite intelectual que se considera inteiramente brasileira e muito pouco portuguesa, uma gente culta, educada junto da Corte e que, ao longo dos 14 anos que esta por lá se radicou, sente o rei e sua família como seus, naturalmente seus, a despeito de Portugal. Lembremos que, enquanto isto, Portugal vivia convulsões sucessivas. Após o duro processo de combate às 3 invasões napoleónicas, surge o ensejo de expulsar os aliados ingleses que, obtida a vitória sobre os franceses, aqui continuavam quase que numa posição de permanente chefia e livre usufruto do reino, o que desesperava já quer a população, quer os altos quadros portugueses. Finalmente dá-se a tão desejada desmobilização dos aliados que voltam para Inglaterra. Esse factor abriria caminho às pretensões de portugueses que constituíam uma crescente facção de inspiração liberal, formada politicamente à luz das ideias da Revolução Francesa, e que pretendia o rápido regresso do rei e a instauração de uma Monarquia Constitucional no reino. Esse modelo de governo consistia na abolição do poder absoluto do rei, bem como das Cortes tradicionais, substituindo-o por uma Carta Constitucional estabelecedora de leis que o rei deveria jurar respeitar e defender, mas executadas por um parlamento independente. Ora, estes homens alargam esse movimento, acabando por instaura-lo através de revolução, a “Revolução Liberal” de 24 de Agosto de 1820, com origem no Porto.

Todos exigiam o regresso do rei. Portugal recusava-se a ser colónia do Brasil e, se uns exigiam que aquele viesse jurar a Constituição, outros exigiam que viesse por fim à dita revolução. A 3 de Julho de 1821 o rei entra na barra do Tejo, regressa forçado a Lisboa onde o espera um país virado do avesso. Traz consigo a família, embora tenha deixado na regência do Brasil o seu filho Pedro, herdeiro do trono português. Já antes havia pedido que viesse este a Lisboa negociar com os revoltosos, contudo, o príncipe recusar-se-ia relutante, já fortemente influenciado pelos partidários de uma rápida independência do Brasil. Na verdade, D. Pedro formou-se enquanto homem e príncipe ao longo de 13 anos, no seio dessa elite política brasileira, onde colhia cumplicidades e fidelidades que não lhe lembravam saudades de Portugal, ao mesmo tempo que formava um espírito fortemente liberal.


Partida da Família Real para Lisboa

É então que, sob influência de um parlamento lisboeta pouco amigo da elite política brasileira, o rei decide retirar ao Brasil os privilégios que lhe havia concedido aquando do exílio da Família Real, relegando-o novamente a mera colónia, após 13 anos de capital. Naturalmente que esta atitude muito irritou as gentes do outro lado do Atlântico, que não aceitavam esta descriminação. Mais do que nunca estava ao rubro o ensejo independentista no Brasil, ao qual o príncipe dava viva voz. Acrescendo, este apoia deliberadamente a revolta dos constitucionalistas no Porto, pelo que, face à rebeldia perante as ordens e posições do rei, este ordena-lhe que volte imediatamente a Portugal, ao que o príncipe responde com o célebre “Eu fico!”. Ora, a 7 de Setembro de 1822, chega ao Brasil missiva de D. João VI, retirando a regência do Brasil a D. Pedro e ordenando o seu regresso a Portugal uma vez mais. É nesse mesmo dia que, estando na zona de S. Paulo, junto ao Rio Ipiranga, a indignação do príncipe atinge o auge, e quando todos lhe aguardam uma reacção à carta do pai, este grita em plenos pulmões: “Independência ou Morte!”, perdendo-se para sempre as terras do Brasil. É, com total apoio dos brasileiros, proclamado Imperador a 12 de Outubro seguinte e coroado solenemente a 1 de Dezembro desse mesmo ano.


O "Grito do Ipiranga".

Conforme esperado, D. Pedro transformaria o Brasil numa monarquia constitucional, contudo, menos esperado, será o rápido decréscimo do imenso carisma com que iniciara o seu reinado. A ambição da Assembleia Constituinte brasileira toma proporções quase republicanas, apontando os poderes de dissolução da Câmara e de moderação como faculdades absolutistas atribuídas pela Carta ao Imperador. Como este não quisesse abdicar de ser a autoridade máxima no governo imperial, mantém a sua posição e vê a sua popularidade descer ao ponto de, a 7 de Abril de 1831, ser forçado a abdicar a favor do seu filho Pedro, que, com apenas 6 anos, ficará destinado a assumir a coroa imperial como D. Pedro II.

Por seu lado, D. Pedro retorna a Portugal, em busca do trono que traíra e do qual abdicara. Para tal, serve-se de apoios estrangeiros e das ambições dos liberais, que então alimentavam pequenos focos de guerrilha contra os partidários de D. Miguel, seu irmão, agora legítimo herdeiro do trono, segundo a Lei em vigor, apesar do seu despotismo e violência. Mas essa é outra história.

Sexta-feira, Março 31, 2006

Artigo de Opinião: - 560: Comprar Nacional -



Ao adquirir algum produto, seja ele qual for, todos nós reparámos já num pequeno rectângulo branco, preenchido por um conjunto de listas negras na vertical e de grossura variável. É aquilo a que se chama o “Código de Barras”. Mas quem diria que essa banal e desinteressante componente de uma qualquer embalagem, pode constituir uma arma contra a estagnação da nossa economia, contra a morte da agricultura e da indústria nacional às mãos da importação e contra o desemprego? É verdade, é mesmo verdade. Tão simples quanto isto, ao escolher um determinado produto, verifique o respectivo “código de barras”. Geralmente, esse código é constituído por 13 dígitos (que estão colocados por baixo das barras negras), ora, caso os primeiros 3 dígitos formem um “560”, há uma grande probabilidade desse produto ser de fabrico português, logo, com mão-de-obra portuguesa.



Mas porquê este apelo? Ultimamente, todos temos visto e ouvido falar nos telejornais de um encerramento quase diário de fábricas e empresas que perecem em benefício da produção estrangeira. Com elas ficam no desemprego as famílias portuguesas, pais e mães, gente com prestações a pagar, gente que organiza uma vida em torno de um grupo, ao qual dedicam o seu tempo e esforço, e que, de repente desaparece. Naturalmente estas pessoas vão engrossar os centros de emprego pelo país fora, bem como as concessões de subsídio. Pessoas que raramente dispõem de outro tipo de formação, pelo que se torna quase impossível encontrar trabalho com a rapidez necessária. Tudo isto, claro, sem esquecer a enorme frustração e desespero em que caem estas famílias.


Campanha feita pelo grupo Auchan, apelando ao consumo de produtos nacionais.




É certo, poderão dizer-me que isso é fruto da concorrência estrangeira, que a economia de mercado é assim mesmo, que são os novos tempos, que as empresas pouco podem fazer senão partir em busca de mão-de-obra mais barata e igualmente ou mais qualificada, etc, etc… Outros ainda, dirão que isto é fruto da nossa Constituição e das nossas leis, que garantem direitos aos trabalhadores que não se coadunam com os lucros necessários para se poder fazer concorrência à produção estrangeira, mais barata. Ora, como nós, simples trabalhadores e consumidores, não possuímos fábricas nem somos chamados para legislar coisa nenhuma, resta-nos fazer o quê?



Bom, duvido que ir a hipermercados espanhóis ou alemães à procura de produtos mais baratos, estejamos a fazer algo de positivo nesse sentido… Ao comprarmos roupa, calçado ou todo o tipo de bugigangas “Made in China”, estamos a contribuir para o emprego nacional? Não me parece. Talvez nos pareça barato quando, por um pacote de bolachas, pagamos 0.45€ em vez de 1.20€, sem dúvida. Contudo, é provável que depois de uns anos a comprar as primeiras, acabemos por ver os impostos aumentados para pagar o subsídio de desemprego aos operários portugueses despedidos, por terem fechado as fábricas de bolachas mais caras. Enquanto isso, a fábrica das bolachas mais baratas, implantada no estrangeiro e empregando estrangeiros, enriquece e baixa ainda mais os preços (mas claro, só baixa nos locais onde ainda têm concorrência. Onde tem o monopólio até os pode aumentar). Dir-me-ão - Mas eu nem sou operário da fábrica de bolachas!! Que me importa?!” – Mas faça o seguinte, transporte o exemplo das bolachas para o vestuário, para o calçado, a carne, a pesca, metalurgia, lacticínios, electrodomésticos, automóveis, etc, etc… Talvez já o englobe a si, pois a concorrência está a estender-se a todos os sectores. Ainda me poderá dizer – Mas eu não sou operário de coisa nenhuma! Sou comerciante. – Pois acredite o caro leitor, que não há serviço absolutamente nenhum que sobreviva à ausência de poder de compra, e o sector dos serviços não se sustenta a si próprio, especialmente quando apenas os presta dentro do país de origem, como é o nosso caso. De resto, o famoso turismo estará sempre totalmente condicionado pela conjuntura internacional, logo não lhe podemos consagrar o pais. Portugal é um país pobre e, como tal, não se pode dar ao luxo de abdicar de uma agricultura e indústria que lhe alimente e sustente os serviços, ou seja, o comércio, a banca, as seguradoras ou a própria administração pública.



Vivemos hoje num mundo onde a actuação de cada indivíduo como consumidor é quase tão importante como a sua acção enquanto produtor de riqueza, ou seja, pelo trabalho que executa. Assim sendo, da mesma maneira que exigimos e nos é exigida eficiência e aprumo no trabalho que executamos, também devemos ser exigentes na racionalização e sensibilidade do consumo que praticamos. Ora, isto passa por uma cuidada reflexão sobre as consequências das nossas opções. Devemos pensar que os preços baixos dos produtos chineses ou do leste europeu têm origem na exploração desses trabalhadores, mal pagos, sem horários, sem férias, com uma protecção social precária e geralmente com trabalho infantil. Devemos pensar que os direitos dos nossos trabalhadores é que são justos e correctos, logo se os preços são mais altos é porque esse é o preço desses direitos, que são de manter. Somos democratas ou não?! É que esses países não são! Devemos pensar que ao comprarmos esses produtos estrangeiros estamos a por o nosso dinheiro fora do país. Logo, a culpa das falências não é de quem produz, de quem vende, ou do Estado que é permissivo, mas tão só do consumidor que não mede as consequências das suas opções. A prática e apelo ao consumo nacional torna-se uma possível arma ao dispor de cada um, uma opção, um contributo pessoal. Tendo em conta que a preferência pelo produto e pela produção nacional reverte para a estabilidade e independência económica de Portugal (onde é que ela já vai…!), bem como para a sobrevivência das nossas famílias, aqui fica o apelo:



Códigos de Barra iniciados em “560”, apontam para uma produção nacional, com a excepção dos produtos de peso variável (como as carnes ou os queijos), não começando por “560” mas por 26, 27, 28 ou 29. Em todo caso, verificar ainda a possível existência de uma elipse rodeando as letras “PT”, “P” ou “PORTUGAL”. É um gesto fácil e que faz a diferença. Para mais informações: http://560.adamastor.org/

Sexta-feira, Março 24, 2006

- A obra de D. Sancho I -


Estátua de João Cutileiro. Erigida à entrada do castelo, duante as comemorações dos 900 anos do Foral, concedido a Torres Novas por D. Sancho I.


Quem passa junto à actual porta principal do castelo de Torres Novas, depara-se com um busto lavrado em pedra, em representação de um rei. Foi a forma como a cidade torrejana decidiu homenagear o soberano que lhe terá concedido um verdadeiro corpo jurídico, ou seja, o Foral. Referimo-nos naturalmente a D. Sancho I, o segundo rei da monarquia portuguesa. Assinalam-se, neste 26 de Março, os 795 anos da sua morte. Vamos por isso procurar conhece-lo melhor.



Em 1154, ano em que nascia D. Sancho, o seu pai Afonso Henriques lidava em diversas frentes de luta. Por um lado as batalhas a sul com os muçulmanos, preparando-se novo assalto a Alcácer do Sal, por outro, o esforço de povoamento em zonas estratégicas de fronteira. Ainda os esforços diplomáticos constantes com os outros reis da Península Ibérica, procurando-se garantir a paz entre cristãos, bem como a já longa batalha junto do Papa, para que Portugal fosse reconhecido como reino independente. Em suma, eram tempos de total instabilidade e alerta. É nesse sentimento que cresce D. Sancho, sendo que cedo se acostuma a liderar as hostes e a acompanhar os passos do pai. Com apenas 15 anos já superintende alguns aspectos de governação do reino, aos 16 é armado cavaleiro pelo pai, e 2 anos depois, o rei associa D. Sancho no governo do reino, nomeadamente na gerência da defesa de Évora, de onde os cristãos assistiam ao repovoamento de Beja pelos muçulmanos. Aos 24 anos, lidera sozinho uma expedição a Sevilha, poderosa praça islâmica, causando grandes danos nos seus arredores. Dois anos depois, em 1180, o infante sobre a sua primeira grande derrota. Aconteceu perto de Ciudad Rodrigo, na Batalha de Arganal, frente ao exército do reino de Leão. 1184 seria um ano particularmente difícil para Portugal. Na verdade, a linha de defesa do Tejo, que se encontrava-se ainda pouco estabilizada, sofreria as poderosas incursões de Yusuf I, o califa almóada vindo do Norte de África, no decorrer das quais Torres Novas é devastada.



O ano seguinte, 1185, seria o ano da sua coroação, em Coimbra. Já com uns longos 45 anos de reinado, morre D. Afonso Henriques, tendo batalhado sempre até essa hora. Mas o novo rei seguir-lhe-ia os passos, prosseguindo o reforço da defesa fronteiriça e planeando novas ofensivas a Sul. Passou à História como “o Povoador”, o que remete para a sua principal acção governativa, ou seja, o esforço na consolidação de posições alcançadas pelos portugueses. Para tal, procede ao povoamento intensivo de variadas localidades, criando condições atractivas para que tal sucedesse. Por um lado, inicia um processo de doações, remetendo muitas vilas à protecção das ordens militares, que se tornavam donatárias e defensoras das suas gentes. Por outro, concedeu cartas de foral a muitas terras, criando aí um sistema de privilégios, que originava a ordem e estabilidade propícias à radicação de populações e consequente desenvolvimento defensivo dessas localidades. Noutras vilas, reorganizou a sua estrutura defensiva, devolvendo a segurança aos habitantes. Por fim, fundou novas vilas, suprindo a necessidade de se povoarem regiões com importância estratégica.


Vista interior do Castelo de Torres Novas.

Torres Novas conta-se entre as vilas que, depois de destruídas pelas incursões muçulmanas de 1190, terão recebido especial atenção por parte do jovem rei. Assim, após dar ordem de reconstrução das muralhas da fortaleza, terá criado a carta de privilégios de Torres Novas, estabelecendo-lhe como que um código jurídico, com a função de gerir a vida social e económica da povoação, ou seja, o Foral. Para quem não tenha a noção de como era o quotidiano medieval, não surge tão clara a verdadeira importância deste documento. A sociedade medieval cristã, constituía-se, como é sabido, por 3 estratos essenciais, o povo, o clero e a nobreza. Ora, era costume que as povoações se organizassem e florescessem em torno da protecção de um senhorio, fosse ele da nobreza ou do clero. Poderia ser um mosteiro ou convento, na dependência do qual viviam e trabalhavam os camponeses, ou, por outro lado, poderia ser um pequeno castelo senhorial, onde habitava um fidalgo guerreiro, que controlava as suas propriedades e fazia valer os seus direitos. E que direitos seriam esses? O senhor, dono das terras, junto do qual se estabeleciam as populações, firmava como que uma relação de interdependência com estas, ele dar-lhes-ia protecção e segurança, eles trabalhariam as suas terras, alimentando-se delas mas pagando-lhe com uma percentagem dessa produção. É mais ou menos a isto que se chama de “feudalismo”. O que sucedia, é que nem sempre esta relação de interdependência se estabelecia ou cumpria da forma mais justa, verificando-se muitas vezes situações de abuso de poder e de exploração das gentes, por parte do seu senhor. Ora, ao povo, que pouco podia, restava-lhe apelar ao rei, o que por vezes resultava mesmo em admoestação feita ao senhor. Mas como isto era extremamente raro, compreende-se a verdadeira importância de que se revestia a concessão de foral a uma povoação. Primeiro, elevava essa povoação e sua gente a um estatuto completamente distinto, uma vez que era alvo da atenção do rei e que passava a estar na dependência jurídica deste. Por outro, o facto de ter uma “legislação” própria contribuía grandemente para a salvaguarda dos abusos senhoriais, que assim, infringindo os foros, estariam em falta para com o próprio monarca. Por fim, ordenava o quotidiano dessas vilas, contribuindo para a paz e estabilidade social.


Imagem do castelo de Torres Novas.

É essencialmente esta a grande importância que D. Sancho teria para Torres Novas, prestando-lhe um serviço, de cujo agradecimento, o seu busto erigido em pedra é apenas um símbolo. De 1190 em diante, a vila de Torres Novas constitui-se como município de pleno direito, sem dúvida o verdadeiro incremento que faria dela uma das capitais da Estremadura medieval. A 26 de Março de 1211 morreria, após 26 anos de um reinado farto em guerras e disposições de todo o tipo, deixando um tesouro abundante e um país organizado politica, administrativa e economicamente. Encontra-se no mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, ao lado do túmulo do pai.


Imagem do foral concedido por D. Sancho I a Penedono.

Sexta-feira, Março 17, 2006

- D. João VI: Um rei incompreendido -


D.João VI

No passado dia 10 de Março assinalaram-se os 180 anos da morte deste rei, um homem verdadeiramente fintado pelo destino que, no fim de contas, foi sempre mal amado e pouco compreendido pela História. Façamos-lhe justiça pois.

Filho da rainha Dª Maria I, D. João era o segundo na linha de sucessão ao trono, não lhe competindo, portanto, a si, preparar-se para reinar. Esse seria o desígnio do seu irmão mais velho José, Príncipe da Beira. Acontece que, em 1788, o príncipe herdeiro morre de varíola, o que eleva João à primogenitura, então com 21 anos. D. João, até aí indiferente às questões de governo e dos afazeres do reino, era um bon vivant, habituado a entregar-se aos prazeres da caça e da “carne”, percorrendo os montados e conventos do reino em busca de distracção. Ser coroado era a última coisa que esperava ou sequer desejaria, não obstante, apenas 4 anos após a morte do irmão, o mal preparado D. João vê-se obrigado a assumir a regência. Na verdade, a deterioração mental da rainha, sua mãe, haveria de a incapacitar por completo no governo do reino, pelo que a partir de 1 de Fevereiro de 1792, D. João está por sua conta.


"Protecção de Junot a Lisboa" - ou Junot submete Lisboa, aqui figurada por uma mulher.

Em 1801, Napoleão, o líder da recém instaurada República Francesa, exige que Portugal feche os portos aos ingleses (chegando mesmo a instigar os espanhóis a invadir-nos, o que culmina com a tomada de Olivença). Isso implicaria uma afronta directa aos nossos aliados de sempre, pelo que, apesar de dizer que sim a Napoleão, D. João nunca chega a cumprir o acordo. Cansado de esperar, em 1807 Napoleão intima Portugal: Ou fecham os portos aos ingleses ou são invadidos! Pois, a 17 de Novembro desse ano, Portugal é invadido. Estando os exércitos de Napoleão já próximos de Lisboa, a 29 de Novembro, D. João, após combinação com os ingleses, dá ordem para que toda a corte embarque rumo ao Brasil, “(…)querendo evitar as funestas consequências que se podem seguir de uma defesa, que seria mais nociva que proveitosa, servindo só de derramar sangue em prejuízo da humanidade”, segundo as suas palavras num decreto de 26 desse mês. É assim que se dá uma das operações mais insólitas na História europeia, sendo que, um reino europeu transfere a sua própria capital para um outro continente. Esta medida tem sido referenciada por muitos, ao longo da História, como um atestado de cobardia ao príncipe português, contudo, atente-se nas palavras de Napoleão no seu “Memorial de Santa Helena”, quando no exílio: “… a Inglaterra pôde, a partir daí, continuar a guerra; foram-lhe abertas as portas da América do Sul; organizou um exército na Península (…) Foi o que me perdeu”. Palavras para quê, quando é o próprio Napoleão a reconhecer nesta derrota a causa da sua derrocada?


Imagens da corte no Brasil.

Foi no Brasil que D. João passou os 14 anos seguintes, no decorrer dos quais, se assistiria ao florescimento dessas terras, transformando-se o Rio de Janeiro numa verdadeira metrópole económica e cultural. Enquanto isso, Portugal vivia dias de convulsão. Expulsos os franceses e afastados os aliados ingleses (que começavam já a abusar da liberdade em território português), as forças vivas da nação exigiam o retorno do rei à verdadeira capital histórica do reino, não se conformando com esta lateralidade. Por outro lado, o pensamento liberal inspirado na República Francesa começava a alastrar entre nós, verificando-se as primeiras exigências. E foram de tal ordem que, em 1820, se impõem por revolução. Isto obriga o rei a regressar a Portugal, deixando o filho mais velho, D. Pedro, no governo do Brasil. Chegado a Portugal, D. João VI é obrigado a jurar a Constituição, abdicando do poder absoluto.
Novos problemas se iniciavam assim para o rei. Por um lado, vendo-se de novo relegado a simples colónia, o Brasil proclamaria a independência, por intermédio do príncipe herdeiro D. Pedro, em 1822.


Proclamação da independência do Brasil por D. Pedro e sua coroação.

Por outro, o filho D. Miguel, apanhando-se em Portugal sem o irmão, resolve usurpar-lhe a sucessão ao trono, iniciando uma guerra civil. Na verdade, uma vez que o irmão resolvera encabeçar a revolta independentista do Brasil, fazendo-se proclamar imperador e traindo o rei, seu pai, D. Miguel não tinha qualquer razão para aguardar que D. Pedro se lembrasse de vir reclamar o trono de Portugal.


Dª Carlota Joaquina de Bourbon.

Por fim, D. João VI continuava a ter a seu lado o maior inimigo que a vida lhe reservaria, ou seja, sua esposa Dª Carlota Joaquina de Bourbon. Com ela havia casado em 1785, contando 18 anos e ela apenas 10. Filha do rei de Espanha, D. Carlos IV, passara a vida a tentar substituir-se ao marido no comando do reino. Tomara já partido por Espanha aquando das invasões instigadas por Napoleão. Também no Brasil havia tentado assumir a regência, juntamente com as possessões espanholas na América. Por fim, haveria de ser a principal instigadora do partido do seu filho predilecto, D. Miguel, um acérrimo absolutista, como ela própria. Segundo as más-línguas de então, dos nove filhos que teve com o rei, apenas 5 seriam verdadeiramente deste, sendo o resto fruto das suas aventuras sexuais. Segundo as palavras da esposa de Junot, ainda quando embaixador francês em Portugal, o pai de D. Miguel, “(…) segundo alguns, é um moço de cavalariça da rainha, segundo outros, um médico de Lisboa. Mas o indubitável é que não é filho de D. João VI”.

Posto isto, D. João VI morre inesperadamente a 10 de Março de 1826, na sequência de uma forte indisposição, ocorrida após o jantar de 4 desse mês. Análises químicas efectuadas recentemente às vísceras do rei, ainda conservadas, comprovam um envenenamento à base de arsénico, cuja dose quadruplicava a suficiente para o matar. Como não pode deixar de ser, a rainha é a grande suspeita desse assassínio, abrindo assim caminho à coroação do filho Miguel.


D. Miguel

D. João VI ficaria na História como um homem fraco, pacato, sem iniciativa, um glutão inveterado, sem normas básicas de higiene ou asseio. São famosas as suas descrições, vagueando pelos corredores do palácio com frangos assados inteiros nos bolsos das casacas engorduradas, sujas e gastas que se recusava a trocar… Ainda assim, preferível será lembrá-lo como um homem bom, com uma sorte má.

Sexta-feira, Março 10, 2006

- Quem é Maomé? -



No passado artigo que aqui deixei com o título “O passo em frente…à beira do precipício”, onde abordava o crescente conflito entre o “Ocidente” e o “Mundo Islâmico”, fiz uma afirmação que indignou alguns leitores, contactando-me depois por e-mail, o que agradeço. A dita afirmação era a de “que Deus e Alá são uma e a mesma divindade, apesar de com nomes diferentes”, sendo que os caros leitores consideraram ser uma comparação “confusa” e “despropositada”. Por vezes, o desconhecimento do outro leva-nos à sua rejeição, preferindo-se salientar as diferenças, em vez de procurar as semelhanças. Pois, creio que a paz se encontra na atitude oposta e foi isso que procurei deixar como mensagem final nessa frase. Não obstante, e como tudo tem a sua história, não ficará por explicar o porquê de “Deus” e Alá” serem “(…)uma e a mesma divindade(…)”. Recuemos então…

As famosas contendas entre “Mouros” e Cristãos, ocorridas já ao tempo da existência de Portugal, são, em última instância, o resultado de uma bipolarização religiosa extremamente bem organizada e estabelecida, respectivamente os lados cristão e muçulmano do mundo. Contudo, para compreendermos a origem dessa fortíssima frente islâmica, teremos de recuar ao século VI, viajando até ao longínquo Médio Oriente onde, por essa altura, se viviam as vésperas de uma autêntica convulsão espiritual e religiosa. A 20 de Abril de 570 nascia Muhammad, no seio da tribo Coraixita (Quraysh, “tubarão”), na movimentada cidade de Meca. Muhammad, ou Maomé, nasce órfão de pai, acabando por também perder a mãe aos 6 anos. Dois anos depois perde o avô paterno, seu tutor na orfandade. Passa então aos cuidados do tio paterno Abu Talib, que o cria como seu filho. Na adolescência Maomé foi pastor, tendo por vezes acompanhado o tio no comércio das caravanas de camelos, atingindo locais distantes como a Síria. Desta forma tornou-se uma pessoa viajada, conhecendo costumes e tradições religiosas de terras estrangeiras. Quanto à religião, naquele tempo o Médio Oriente era dominado por um paganismo algo difuso. Herdando das antigas tradições sumérias e egípcias, mas também já influenciados pelas divindades bizantinas, de origem romana, entregavam-se ao culto de diversas divindades masculinas e femininas, a que recorriam conforme as necessidades. Tinham a cidade de Meca como centro religioso, onde, por essa razão, era proibido guerrear, tendo todos o direito de ir em peregrinação com segurança. Meca tornar-se-ia, assim, um importante centro comercial na região, beneficiando da confluência de peregrinos e comerciantes.



Não concordando com esta profusão de deuses, surge em Meca uma facção religiosa de inspiração judaico-cristã, que defende um Deus único. Auto-intitulavam-se Hunafá, ou os “Crentes no Deus único de Abraão”. Acreditavam na mensagem profética de Jesus, Moisés, David, Jacob, Isaac, Ismael e Abraão, nos quais viam homens especialmente perfeitos, escolhidos por Deus como profetas, embora não divinos. Contudo, o facto de nunca a Bíblia ter sido traduzida para árabe, constituiria uma barreira que muito reduziu as hipóteses de evangelização desses povos. Postos à margem de um movimento cristão que se expandia a Norte e em latim, aguardavam o surgimento de um profeta árabe, que lhes transmitisse a mensagem divina e lhes desse as suas próprias escrituras sagradas. Maomé, que entretanto havia casado com uma viúva abastada, tornando-se num respeitável e prestigiado comerciante, era um seguidor hunafá, aguardando também ele por esse profeta. Tinha o hábito de fazer retiros espirituais nos arredores da cidade, bem ao estilo dos monges ascetas cristãos, que se isolavam de qualquer contacto humano para simples contemplação e oração. Uma gruta chamada Hira, era o local por si escolhido para esse isolamento e onde, pelo ano de 611, estando em oração, terá recebido a visita do arcanjo Gabriel, o mesmo que havia anunciado a Maria o nascimento de Jesus. O arcanjo terá então lido a Maomé as escrituras que este deveria memorizar e recitar. Maomé deveria difundir a mensagem, corrigindo as alegadas deturpações que os cristãos haviam feito à mensagem de Cristo. Para os muçulmanos, Maomé seria o mais recente e último profeta do Deus de Abraão, o portador da “mensagem actualizada”.

A forte oposição feita à crescente popularidade de Maomé, obriga-o a fugir de Meca, em 622, refugiando-se em Medina por 8 anos. Essa data constituiria o “ano zero” do calendário islâmico, denominada a Hégira, o equivalente ao nascimento de Jesus no calendário cristão. Em Medina, a influência e prestígio de Maomé aumentam de tal maneira que se torna num chefe político-militar, para além de religioso. Em 630 regressa a Meca vitorioso, implantando aí o centro de um Estado teocrático, que alastra em todas as direcções e atinge a dimensão conhecida.



Tudo isto muito resumido, permite-nos verificar que o Islamismo provém: 1º Da influência religiosa exercida pelo Cristianismo em expansão a Ocidente; 2º Da referência directa nos primeiros profetas bíblicos; 3º Da intercessão de uma entidade cristã, o arcanjo Gabriel; e, em último caso, tem a principal origem na simples ausência da tradução da Bíblia, uma mensagem a que um punhado de homens estava decidido a aceder. Hoje, e desde sempre, os muçulmanos acusam os cristãos de politeísmo, não lhes perdoando o conceito da “Santa Trindade”, ou seja, a divisão do Deus Único em 3 entidades. Condenam-nos também pela deificação de Jesus, que consideram ser homem, escolhido por Deus como portador da Verdade, mas não uma divindade ou parte dessa divindade. Da mesma forma rejeitam a criação de santos e ídolos de todo o tipo, cujo culto chega a suplantar o do próprio Deus. São estas, entre outras, as alegadas deturpações cristãs que o Islão se compromete a corrigir, crendo-se mandatado por Deus para tal. Em última análise, o Islão tem origem no cristianismo, com o mesmo Deus, ao qual chamam Allah, mas com uma mensagem que crêem mais actualizada e fiel à vontade desse Deus, que é também o nosso. Tudo o mais é poder e política, sendo apenas essa a origem de séculos e séculos de confrontos entre irmãos.

Sexta-feira, Março 03, 2006

Artigo de Opinião: -As piscinas Fernando Cunha - Higiene: um hábito histórico -


Piscinas Fernando Cunha (Torres Novas)

No início, a meio, ou no fim de um dia de trabalho, a possibilidade de nos deslocarmos a um sítio onde nos podemos despir, dar umas braçadas, tomar um duche de água quente e seguir caminho, é um bendito privilégio. Não me refiro a um período de ócio, tão pouco de desporto como trabalho de esforço físico. Trata-se de um acto de simples relaxamento, que garante o melhor desempenho das restantes actividades do dia e chega mesmo a criar dependência pela predisposição que origina. O simples despir das roupas na perspectiva de molhar o corpo, a cara, numa água mais quente ou mais fria, e onde se praticarão movimentos fora do habitual na presença de outros, torna-se numa iniciativa de certa forma ousada, tendo em conta o nosso natural habitat e um quotidiano que nos automatiza e adormece os sentidos. Origina como que um sentimento inicial de agressão, que se dilui rapidamente na adaptação mental que fazemos ao novo meio, o aquático. Feito o exercício e saindo com o duche tomado, cria-se um sentimento de dever cumprido e de limpeza, que condiciona positivamente o resto do dia. Mas o que interessa aqui verdadeiramente destacar, é o efeito benéfico na perturbação daquilo que o nosso cérebro incute como “o habitual”, predispondo o espírito para outras situações inovadoras, agressivas, ou simplesmente diferentes, que o dia a dia nos convida ou obriga a experimentar. A predisposição para a mudança e para a adaptação é um bem nos dias que correm, pelo que há que a exercitar. Neste contexto, as piscinas municipais Fernando Cunha surgem como um verdadeiro serviço que se presta à saúde, bem-estar e ânimo da população.

Este sentimento ou predisposição de que vos falo não é nada que tenhamos inventado agora, postos os novos conceitos de higiene e avanços tecnológicos. Desde há muito o Homem compreendeu os efeitos terapêuticos que o “banho social” tem na melhoria do seu desempenho pessoal e profissional. Para não recuar mais, temos na civilização romana a apoteose da máxima grega “mente sã em copo são”, nomeadamente no desenvolvimento e proliferação dessas infra-estruturas públicas que eram os banhos. Conhecido e desenvolvido já o termalismo medicinal, os romanos acrescentam ao banho nas piscinas de água fria, a técnica do banho a vapor, ou sauna, de origem grega. Após uma exposição, mais ou menos longa ao vapor (produzido por diferentes técnicas, como a de verter água fria em pedras a altas temperaturas), os poros abrem-se, induzindo à transpiração e consequente libertação de impurezas. Aí, e durante esse tempo, tratavam-se de negócios, discutia-se política, firmavam-se acordos, em suma, criava-se um verdadeiro momento de confraternização social e até de trabalho. Então, findo um certo espaço de tempo, fazia-se uma rápida incursão até ao compartimento ao lado, onde se mergulhava numa piscina de água bem fria, que fechava violentamente os poros abertos, concluindo o processo de limpeza. Com o passar do tempo, estas técnicas foram-se aperfeiçoando e tornando mais complexas. Surgem as salas de raspagem, onde com um estilete se retirava a pele velha, raspando todo o corpo antes do banho. As salas de massagem, onde se aplicavam óleos e essências depois do banho. Surge a separação rigorosa entre banhos de água fria, tépida e quente, bem como os vestiários, uma antecâmara onde tudo começava e terminava.


Imagens dos banhos romanos

Este acto social e de bem-estar físico torna-se num hábito de tal maneira abrangente que, rapidamente, prolifera por todo o espaço imperial. Todas as cidades queriam ter os seus banhos e os cidadãos mais abastados faziam construir em suas casas, os seus banhos privativos. Naturalmente que o faziam com requinte, forrando o espaço com mosaicos repletos de ilustrações, e enriquecendo-o com belas estátuas e fontes. As ruínas de Vila Cardílio, em Torres Novas, dão disso um bom testemunho, mostrando ainda, para além de ricos mosaicos, as arcadas do Hipocausto, sob as quais se fazia fogo e fazia circular o ar quente, que aquecia a água do tanque correspondente.


Termas romanas de Montbui, em Espanha. Construídas no séc.I a.C.

Com o fim da civilização romana e do seu domínio, estes actos culturais perdem o lugar, cedendo-o então aos hábitos menos delicados dos povos do Norte, que não vêem com bons olhos a exposição colectiva dos corpos semi-nus. No entanto, algumas milhas a Sudeste, um povo crescente e empreendedor procura absorver os ensinamentos culturais do que sobrava do Império Romano de Constantinopla, ou seja, o povo muçulmano. As movimentações comerciais e militares dos muçulmanos valeram-lhes uma vasta herança cultural e científica, adquirida especialmente entre os sábios romanos. Dessa herança constava a higienização do corpo através do banho, bem como o seu carácter de confraternização social que os muçulmanos elevam a um acto religioso. É então no seguimento das incursões militares muçulmanas pela Península Ibérica, que os “Banhos”, ou os hammams, retornam às nossas cidades. Situadas normalmente perto da mesquita, estas infra-estruturas assumiam um lugar central na organização da cidade islâmica, onde se reunia a população. Naturalmente que a frequência destes espaços estava sujeita à separação entre sexos, bem como de religiões diferentes, sendo que cristãos ou judeus, frequentavam os banhos em dias estipulados e sendo apenas assistidos por funcionários com a mesma religião. Com o advento da Reconquista, a presença cristã e católica proíbe uma vez mais aquilo que considerava ser uma promiscuidade e falta de moral e o espaço dos banhos é então reutilizado como cárcere ou simplesmente destruído.


Banhos árabes de Alcazar, construídos no séc. XI.

Pulando 8 séculos e voltando às piscinas municipais Fernando Cunha, fica uma possível inspiração no longo historial do uso dos banhos, para que se redescubram todas as potencialidades de um acto de higiene física e mental útil e que se quer também de alguma confraternização. As novas piscinas municipais são um sério sintoma de qualidade de vida em Torres Novas e cada vez mais gente o está a descobrir.

Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

- Ficar “Cheché” neste Entrudo -




Aproxima-se a Quaresma e, para contentamento de muitos, o seu Entrudo. Um período de festa, de folia, dos tradicionais abusos e no entanto, a tradição já não é o que era… A concepção de que o Carnaval são os desfiles das escolas de samba brasileiras, transformou o nosso Entrudo numa triste tentativa de plagiar um espírito que não é o nosso. Chega-se ao ponto de contratar vedetas das novelas e da música brasileira para dar um gosto a Rio de Janeiro aos nossos cortejos. Assim, entre desfiles à chuva e um público mortiço e embasbacado que pouco ou nada vibra com aquilo, lá se vai adulterando e esquecendo uma tradição tão europeia. Recuemos.

Importa, antes de mais, destrinçar esta confusão entre “Carnavais” e “Entrudos”. “Entrudo” é a palavra certa, mais antiga e popular e que se perde para um “Carnaval” com menos conteúdo. “Entrudo” é um desenvolvimento da expressão latina “Entroitos”, ou seja, “entrada”. Mas entrada onde? Entrada na “Quaresma”. “Quaresma” também oriunda do latim “Quadraginta”, “Quadragésima”, “Quarentena”, ou seja quarenta dias. Quarenta dias de preparação para a Páscoa, estabelecidos pela Igreja, durante os quais se deverão fazer sacrifícios para purificação do corpo e da alma. Assim, o jejum e a abstinência da carne (não se deverá comer carne nem estabelecer contacto sexual) são imperativos nesta quarentena. Desta forma, e na perspectiva de 40 dias de abstinências, o Entrudo transforma-se num momento de exageros, de abuso de tudo aquilo que será proibido nos dias subsequentes. Ora, enquanto “Entrudo” era a expressão utilizada junto das camadas mais populares, “Carnaval” surge como novidade nos meios citadinos, uma palavra importada da tradição festiva e cosmopolita italiana, que se torna numa expressão chique nas festas organizadas nos salões da capital portuguesa. “Carnaval”, ou seja, “Carne Vale”, que na expressão italiana significa o “Adeus à Carne”.

Como se pode ver, a tradição nacional conserva um sentido muito próprio para esta quadra específica, a entrada (Entrudo) num período de profundo significado religioso. Como tal, temos as nossas próprias tradições populares e manifestações festivas. A tradição europeia cola-se a determinadas manifestações pagãs, profundamente enraizadas na população, e que, nos primórdios da Igreja, esta acabou por integrar no seu próprio calendário, à semelhança de tantas outras festividades pagãs já existentes, como forma de prevalecer culturalmente. Assim, sobreviveram até hoje certos hábitos e rituais festivos, onde impera o bizarro e o profano, como os demónios e espíritos mascarados que saem a pregar partidas e a assustar os vizinhos e transeuntes. Ouvem-se tambores e cajados a bater nas portas, em baldes e janelas, produzindo tanto barulho quanto possível.

Mas, se na província a tradição remonta a muitos séculos de existência, na cidade, o bizarro assume formas e conteúdos de origem e significado diferentes. Como se refere no título deste artigo, vamos falar dos “Chechés”. Para ninguém será estranha a expressão “Estás a ficar Cheché!”, como quem diz, a ficar tontinho. Ora, o que tem a haver um tontinho com um “Cheché”? Recuemos novamente.

Nos inícios do séc. XIX, a vitória da causa liberal sobre o absolutismo, a introdução da Constituição e do Parlamento e a criação de uma nova classe dirigente, resulta numa profunda reforma rumo ao progresso tecnológico. A introdução do comboio gera uma revolução económica e social de tal ordem, ao ponto de fazer emergir uma classe social, por sinal ainda muito fraca em Portugal, a burguesia. O incremento económico gerado pela linha-férrea e pelo desenvolvimento industrial, resultou no rápido enriquecimento de muitas famílias de proprietários e novos empresários, que adoptaram um novo estilo de vida, o “estilo burguês”. Culturalmente, este estilo expressa-se pelo “Romantismo”, na literatura, na pintura, no vestuário, no lazer, etc. O “dinheiro novo”, nas mãos de famílias cultas e de gostos refinados, origina um modo de vida ostensivo, onde a aparência e um rigoroso código de conduta social eram cultivados por homens e mulheres. Ora, apesar de algumas famílias terem enriquecido, a grande maioria da população permanecia pobre ou remediada, servindo as ditas famílias das mais variadas maneiras. Assim, enquanto o “Carnaval” burguês era vivido com a classe e o requinte das festas inspiradas no Carnaval italiano, o “Entrudo” popular era vivido com o deboche e por vezes a brutalidade de quem procura, num momento, libertar tensões e revoltas de todo um ano. Assim, na cidade, o “Entrudo” era normalmente vivido de forma caricatural, e, naquele dia, a população era livre de dizer o que pensava dos seus senhores. Surge assim o personagem “Cheché”. O “Cheché” era um mascarado, vestindo um antigo traje senhorial do séc. XVIII (anterior à Revolução Liberal). Numa mão trazia uma grande faca, na outra, trazia uma vara comprida, na ponta da qual estava preso um par de chifres. Assim andavam os “Chechés”, aos pares ou em grupo, com grandes barrigas e muito bem vestidos. Vagueavam pelas ruas da cidade à procura dos senhores burgueses que se passeavam pela rua. Quando os encontravam, pavoneando-se pelas largas avenidas, saltavam e gritavam em seu redor, assustando-os com os facalhões, lançando impropérios e grosserias de toda a espécie. Usavam de linguagem obscena em público, chocando a fina sensibilidade burguesa que muito se ofendia com o vexame imposto. Por fim, o “Cheché” colocaria a grande vara por detrás do senhor, ficando os chifres a descoberto por cima de sua cabeça. A ofensa era bem clara, na verdade, muitos destes senhores já de idade avançada, faziam-se acompanhar de mulheres muito mais jovens, pelo que o povo sugeria desta forma a infidelidade dessas mulheres. O “Cheché” não passava de uma paródia mascarada, escondida, àqueles que o povo considerava serem os verdadeiros chechés, ou seja, os grandes burgueses, velhos, gordos, das pernas arqueadas e falsas aparências, que neste dia de folia eram grosseiramente denunciadas. Assim, o dito “estás a ficar cheché” não é mais que uma reminiscência popular destes antigos foliões, qual celebração da histeria e insanidade humana. Um feliz Carnaval a todos.

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

Artigo de Opinião: -O passo em frente…à beira do precipício -



Para quem ande atento a jornais e telejornais, não é estranho o ambiente tenso que se vive actualmente entre o “mundo islâmico” e o “mundo judaico-cristão”, o chamado “Ocidente”. Entre todas as quezílias políticas que se têm vivido recentemente com o Irão, surge uma meia dúzia de caricaturas publicadas num pequeno jornal dinamarquês que, de repente, faz estalar o verniz nas relações entre um mundo dividido. Os muçulmanos, radicais ou não, terroristas ou não, saem à rua e em fúria por todo o mundo islâmico. Islâmico e não só, pois já na Alemanha e Inglaterra se fizeram manifestações com vários milhares de imigrantes muçulmanos. Não estou a querer trazer para aqui a questão ridícula de se as caricaturas deviam ou não ter sido publicadas, uma vez que é absolutamente óbvio o desrespeito e a chacota dos seus autores para com a Fé de muita gente, o que não está certo. O problema é que a suposta “liberdade” das democracias ocidentais permite-se as mais aberrantes iniciativas, a despeito da sensibilidade dos próprios cidadãos e, claro, com total desprezo pela de outros povos e civilizações.

Tudo começou com o ataque de 2001 ao World Trade Center, em Nova Yorque, pelo menos para nós, ocidentais. Na verdade, a “guerra” começou há muito tempo para os muçulmanos, talvez desde a forma abusiva como se forçou a criação do estado de Israel, no pós-guerra, em 47 do século passado. A ofensa que constituiu, para todo o mundo islâmico, a expropriação daquela vasta região da Palestina em benefício dos judeus, deu início a uma verdadeira Jihad (“guerra santa”) contra o agressor, ou seja, nós, o mundo ocidental. A presença desdenhosa dos militares e observadores ocidentais, desde a Guerra do Golfo, bem como o constante e incondicional apoio dado a Israel, vem alimentando um ódio crescente, canalizado pelos líderes radicais islâmicos para a população e, em especial, para os jovens. Estes crescem numa relativa pobreza, mas sempre vendo como se vive no outro lado do mundo. O desgosto por não terem acesso à tecnologia, ao conforto, ao lazer e a todo o tipo de liberdades de que a nossa propaganda lhes fala, através das parabólicas, converte-se numa reacção sob a forma de ódio, de condenação moral e do mais completo desprezo pelos nossos valores e modo de vida. Daí à formação paramilitar e a um treino voluntário para o suicídio, é curta a distância.

O passo seguinte foi a reacção ao ataque às torres gémeas. Os Estados Unidos da América iniciaram aquilo a que os líderes islâmicos chamaram de “nova cruzada”. A invasão ao Afeganistão foi o primeiro passo, em busca dos tais “talibans” e do seu líder Bin Laden. Devastada a terra afegã e desconhecido ainda o paradeiro do Sr. Laden, viraram-se para o Iraque. Pintou-se um papão no regime de Saddam Hussein e inventaram-se armas de destruição maciça para justificar a invasão desse pais, aos olhos da opinião pública ocidental. Terminada a acção militar ficou o resto por fazer, e de um povo protegido da manipulação dos grandes líderes religiosos (porque Saddam não ia em conversas de fervor religioso), ficou um povo sem ditador, mas também sem trabalho ou segurança, que agora apenas encontra orientação nesses mesmo líderes, que apontam o dedo ao Ocidente como causa para a sua desgraça.

Eis que, de repente, vindo (aparentemente) do nada, um tal Mahmud Ahmadinejad vem afrontar todo o Ocidente. Olhando directamente para as câmaras diz que “Israel deve ser riscado do mapa”, que “o Holocausto nazi é um mito” ou que “vai dar inicio ao plano de fazer prevalecer o Islão em todo o mundo”. Trata-se do recém-eleito presidente do Irão, país dominado pelo radicalismo islâmico e que acabou recentemente de expulsar os observadores internacionais de energia atómica. Admite preparar-se para enriquecer urânio, afim de produzir energia nuclear, mas quando questionado, rejeita que apenas certos países ocidentais tenham direito a possuir armamento nuclear. Tem, como é óbvio, o apoio de todos os países do Médio Oriente, dos seus notáveis (ainda que encoberto), mas muito especialmente da sua imensa população, guiada cegamente pelos líderes religiosos e espirituais. Esta sua atitude de afronta directa ao Ocidente é tida como coragem, como verdadeira liderança, como divina providência talvez. Não tarda que este homem se transforme num autêntico caudillo para todo o mundo islâmico, que o seguirá na direcção que apontar.

É neste contexto internacional que surgem as recentes caricaturas dinamarquesas ao profeta islâmico Maomé, num momento de sensibilidade e expectativa geral em relação a vários aspectos políticos, como sendo a questão do enriquecimento de urânio pelo Irão e a reacção do Ocidente, a situação clínica de Ariel Sharon e o que sucederá no conflito israelo-palestiniano com a vitória eleitoral do Hamas…

Uma interpretação bélica do al-Corão é cada vez mais facilitada e incitada em todo o mundo islâmico e, muito especialmente, entre os muçulmanos imigrados no Ocidente, que geram em si um sentimento de descriminação que não sofrem. No entanto, essa predisposição não é mais real que o deboche e a total ausência de valores que grassa entre nós e que resulta em aberrações como as ditas caricaturas, por certo condenáveis. Nada é mais perigoso que o confronto directo entre culturas, o choque de civilizações. Tendo em conta que Deus e Alá são uma e a mesma divindade, apesar de com nomes diferentes, que derrota será para todos se for necessária uma 3 Guerra Mundial para que tal se torne evidente, e os homens se saibam respeitar e amar entre si.

Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

- O Regicídio -



Já por 15 dias D. Carlos havia adiado o regresso da família a Lisboa. Entristecia-o a simples ideia de deixar os campos de Vila Viçosa, onde todos os anos ia passar o Inverno. Aqui, a natureza, o contacto com os camponeses, a paz, a caça, a pintura, mas, para lá do Tejo, uma capital em sucessivas convulsões revolucionárias, tragada pelas intrigas parlamentares de políticos pouco sérios, onde a população estava por conta própria ou arregimentada pelas hostes republicanas. A rainha Dª Amélia e o príncipe herdeiro pediam-lhe que prolongasse a estadia. Lisboa não era segura para que regressassem. Tinham notícia das manifestações e explosões tecidas pelos terroristas. Na capital, aguardava-os o príncipe mais novo, D. Manuel. Vendo de perto o que a família ouvia ao longe, chega, a 28 de Janeiro, a escrever ao Presidente do Concelho, João Franco, a saber se era segura a vinda dos pais e do irmão naquele momento, ao que este lhe responde “não haver nada a recear”.

As constantes lutas entre os interesses dos partidos, do “sistema” de então, tinham desgastado o país a tal ponto que o rei decidira nomear o Presidente do Concelho pessoalmente, ao qual conferia poderes ditatoriais. Essa nomeação recai sobre João Franco, e cedo a sua acção governativa leva a que, para além dos partidos e grupos republicanos, também o espectro partidário leal à Monarquia se indigne e revolte com o rei. É então que se dá a proliferação de reuniões, manifestações e conjuras de toda a ordem, ao que a ditadura responde com as perseguições e prisões dos respectivos lideres. É neste contexto que D. Carlos se vê obrigado a regressar de Vila Viçosa com a família. A sua ausência poderia custar mais do que devia. Havia descansado, havia reflectido, e estava decidido a tomar conta dos acontecimentos de uma vez por todas. Admitia ter dado plenos poderes a Franco como medida de excepção e necessariamente temporária, o qual pretendia acompanhar na acção governativa até que se estabelecesse a ordem política e partidária.



A 1 de Fevereiro de 1908, no final de um dia solarengo, acumulava-se um grupo numeroso junto ao cais do Terreiro do Paço. À frente, alguns oficiais de uniforme, homens de fato escuro e chapéu alto, algumas damas de corte e eclesiásticos. Mais atrás, encontravam-se as carruagens estacionadas, alguns automóveis e um pelotão de cavalaria. Em destaque, dois homens de chapéu alto trocam palavras - Estás seguro de que tudo vai correr bem? – O outro sossega-o. D. Manuel não esconde a preocupação que mantém desde há dias. Mesmo junto à água, o Infante D. Afonso aguarda o desembarque do irmão Carlos. Todos estão apreensivos. A insistência do rei em regressar a Lisboa agrava-se, quando este exige ser transportado em cortejo, num coche (landau) descoberto até ao Palácio das Necessidades. D. Carlos quer mostrar que confia no seu povo, mas todos temem pela segurança da Família Real. Ao longe já se vê o vapor aproximando-se do cais. Tudo está preparado e pouco antes das 5 da tarde, estende-se o passadiço do navio já encostado. Ante os olhares ansiosos sai primeiro D. Carlos, austero, em uniforme. Segue-se-lhe a rainha, em traje de viagem e ar apreensivo. Por fim, D. Luís Filipe, sorridente. – Estás seguro de que tudo vai correr bem? – pergunta o rei ao chefe da polícia ali presente. Perante a resposta e após os cumprimentos familiares e vénias convencionais, sobem os quatro para o coche, os reis no banco traseiro, os príncipes de costas para a estrada. Inicia-se o cortejo, lento, entre vivas e saudações.



É então que, aquando da passagem pela rua do Arsenal, se ouve um primeiro tiro, um sinal de aviso que desencadearia o processo. Seguiu-se a movimentação de um segundo atirador. Este, mais próximo, salta de entre a multidão para o coche e desfere um tiro mortal na nuca de D. Carlos com um revolver. É então que o primeiro atirador volta a disparar. Empoleirado numa árvore, onde aguardava a aproximação do cortejo, escondia sobre o capote alentejano uma carabina de dois canos, com a qual disparou sobre o príncipe herdeiro, ferindo-o gravemente. Entretanto, D. Manuel baixa-se no fundo do coche sendo ainda ferido num braço, enquanto a rainha procura atacar o assassino do seu marido, ainda junto deles, com um ramo de flores recebido no desembarque. Os cavalos tentam fugir numa reacção violenta e todos se abatem sobre a Família Real procurando-a defender. Uma fracção de segundos…a polícia nada pôde, os militares também não. Os assassinos foram logo ali agarrados e mortos a tiro, o que dificultou a averiguação da conjura. O coche entra então nas instalações do Arsenal, onde os médicos ainda procuraram salvar os feridos. Tendo o príncipe herdeiro aí chegado com vida, não haveria de resistir aos ferimentos sofridos. O Presidente do Concelho, que circulava atrás, foi imediatamente informado da morte do rei e do príncipe herdeiro. De repente, tudo era diferente. Uns escassos 2 anos levariam à conclusão do plano neste dia iniciado. A República seria proclamada a 5 de Outubro de 1910, ante a partida do rei D. Manuel para o seu permanente exílio em Inglaterra, a partir de uma praia na Ericeira.

Assinalando este importante marco na História nacional, a Real Associação de Lisboa realiza todos os anos, neste dia, um cortejo que, partindo do Terreiro do Paço pelas 17 horas, ruma em marcha lenta até à igreja de S. Vicente de Fora onde, pelas 19 horas, realiza missa com a presença dos duques de Bragança. Este ano não é excepção, acrescendo, no entanto, a inauguração de uma placa no local do regicídio, assinalando o acontecimento 98 anos depois. O evento decorrerá pelas 17 horas, e contará com representação da Câmara Municipal de Lisboa, co-financiadora do projecto.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

Artigo de Opinião: -Seis tiros no Ensino Superior -




Bem sei que o título escolhido é algo desconcertante. Mas não se pense que venho defender que se ande por aí aos tiros. Nada disso. Não obstante, outras coisas há que tombam, mesmo sem tiros à séria. Falo do estado a que chegou o nosso Ensino Superior e daquilo que identifico como uma das mais fortes causas para essa situação: a desorientação dos jovens e a responsabilidade do Estado na intensificação desse fenómeno.

Se recuarmos talvez umas duas décadas, lembraremos que a maturidade de um jovem que concluísse o ensino secundário pelos 17-18 anos, lhe permitiria uma boa noção do projecto de vida mais indicado a seguir, nomeadamente a nível profissional. A formação académica, quando ambicionada, era então encarada como um desígnio, um compromisso pessoal, ao qual se dedicava esforço e recursos de todo o tipo. Foi um tempo em que, apesar da pouca variedade das licenciaturas disponíveis, se guardava um lugar digno para quantos concluíam os seus estudos, inserindo os quadros superiores na vida activa. Em suma, as universidades eram frequentadas por homens e mulheres conscientes das suas obrigações e, acima de tudo, do seu projecto de vida. Hoje, tudo se adulterou. Algures no tempo se veio a convencionar o célebre preconceito de que “agora, quem não tem canudo não é ninguém!”. Esta ideia vingou entre a classe média, a tal que se vem limitando a seguir os padrões de uma “maioria” disforme e anónima. Assim, os nossos jovens recebem um padrão social a cumprir, ditado por “eles”, e um adolescente que rejeite a ideia de ingressar no Ensino Superior, torna-se numa espécie de “falhado, sem ambição”, muitas vezes aos olhos dos próprios pais.

Já para não desenvolver muito a questão da carência de técnicos, que conduz a uma empregabilidade muito superior entre os chamados “quadros intermédios”, a par dos salários praticados, refira-se que a desorientação a que os jovens estão hoje expostos quando terminam o Secundário, é muitas vezes causa de futuras frustrações e de uma tremenda despesa para o Estado. Explicando: Ao aproximar-se o 12º ano, surge para muitos a angústia de escolher um curso universitário. Não porque queiram ser isto ou aquilo, ou porque desde pequenos tenham sonhado ser algo, mas simplesmente porque, hoje, entrar na universidade, é sinal de aprovação, de sucesso. Os pais babam-se porque o filho vai ser “Doutor” e o jovem descansa porque ultrapassa mais esta provação social. Claro que há aqueles que sempre sonharam ser médicos, ou veterinários, ou enfermeiros, ou fisioterapeutas, mas esses, são os tais que tiveram tantas vezes de sacrificar a adolescência em prol dos livros, em busca das médias ridículas a que o Estado os obriga, para outras tantas vezes acabarem à porta do sonho por uma ou duas décimas (porque é melhor importar estrangeiros formados do que investir na formação).

O processo é este: ao chegar a época de candidatura, todos os jovens pretendentes à Universidade têm de preencher um formulário, no qual poderão colocar 6 pares de Universidade/Curso. O candidato tem 6 possíveis escolhas para ingressar num curso e num determinado estabelecimento de ensino público, que vai preenchendo por ordem de preferência. Depois, conforme a média com que concorre, a sua entrada fica dependente do número de vagas disponíveis, bem como das notas com que concorrem os outros. Quem tem as notas mais altas, entra primeiro. Ora, esta regra a mim não me constrange, pois a triagem é um processo natural quando se busca a eficiência. Já por outro lado, 6 hipóteses para se entrar numa Universidade, parece-me um factor que diminui forçosamente a eficiência do Ensino Superior. Seis diferentes hipóteses equivalem a seis diferentes projectos de vida a que se pode candidatar um jovem de 18 anos. Estará ele em condições de compreender o que está em causa? As consequências são óbvias.

Veja-se este exemplo: Imagine um jovem que quer ser jornalista. Coloca essa como primeira opção no formulário. Mas depois vai colocando outras opções a seguir, e por ordem de preferência, até chegar à sexta que é, por exemplo, Antropologia. O leitor acredita que a sexta opção poderá constituir um projecto de vida alternativo a alguém que quer ser jornalista? Acredita que, caso apenas possua nota para entrar na sexta opção, este jovem se vai sentir suficientemente incentivado para fazer uma licenciatura de 4 anos com aproveitamento? Que depois de concluída a formação, terá alento para procurar trabalho nessa difícil área? Eu não. E, no entanto, o Estado compromete-se a investir neste curso. Não acredito porque observei de perto muitos jovens desalentados, que entraram na sua última ou penúltima opção e que depois, foram tendo notas medíocres, chumbando vários anos e alguns até deixando os cursos incompletos. Ora, quando pensamos que não se abrem mais vagas em medicina porque ficam dispendiosas ao Estado, quando pensamos que não há mais apoios para os estudantes-trabalhadores (esses provavelmente mais certos do que ninguém da sua opção) ou que não se investe na qualidade das infra-estruturas de ensino…fica-nos um certo sabor a desorientação em todo este sector. Hoje em dia, prevalece a ideia de que “ninguém pode ficar de fora”, ainda que se entre num curso não eleito como projecto pessoal. O grande objectivo é entrar na Universidade, cumprir um desígnio e ser aceite, o resto logo se vê. Mas esse “logo”, sai caro aos contribuintes, uma vez que se investe no estudante ao longo do seu percurso, com ou sem aproveitamento. Estes “6 tiros no Ensino Superior” concretizam-se em milhares de processos de candidatura por ano, que de facto visam uma continuidade de estudos, mas como uma espécie de prolongamento do Ensino Secundário e não tendo em vista a vida profissional activa. Estes jovens fazem os seus cursos (quantas vezes profundamente teóricos) sem um qualquer entrosamento com a via profissionalizante dessas matérias, terminando-os normalmente sem quaisquer perspectivas de trabalho na sua área de formação. Este é o drama dos milhares de licenciados no desemprego, quando ao mesmo tempo se constata uma carência de licenciados, em comparação com outros países da Europa.

O Ensino Superior tem de ser definido. Ou é assumido como Centro de Formação Escolar e pólo de desenvolvimento intelectual, ao qual todos têm direito de aceder em igualdade de circunstâncias (à semelhança do Secundário), ou então deve ser assumido como um Centro de Especialização com vista ao mercado de trabalho e às reais necessidades do país, limitando-se a abertura de licenciaturas, restringindo a abertura de vagas ou mesmo cursos sem mercado de trabalho. Parece-me não ser possível fazer um país à medida das universidades, especialmente quando estas se tornam num reduto corporativo de docentes, que procura manter-se e expandir-se, apesar da esterilidade da sua acção e do drama dos seus resultados.

Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

- Pedro “o Cru” -




Como dizia, uma outra razão terá conduzido a este desfecho. Teremos de recuar um pouco mais ainda para compreende-la. D. Dinis, pai de Afonso IV e, portanto, avô de Pedro, a certa altura ter-se-á afastado de sua esposa, a rainha Isabel (Santa Isabel), tendo então mantido relações extra-conjugais. De uma dessas relações terá nascido Afonso Sanches, um jovem de forte carácter que D. Dinis muito estimava. Esse apreço elevaria Afonso Sanches a mordomo-mor, um dos cargos mais elevados de então.

Esta atenção prestada pelo rei ao filho bastardo, provoca um ciúme desmedido no herdeiro da Coroa, o jovem Afonso, único filho de D. Dinis com Dª Isabel. Temendo a preferência do pai pelo seu meio-irmão, Afonso reúne forças por todo o país e inicia uma revolta contra D. Dinis, procurando força-lo a abdicar do trono em seu favor. À cabeça das forças de D. Dinis, estava o seu bastardo Afonso Sanches. O ímpeto do infante acaba por vencer as forças do rei, e antes que pudesse capturar o seu meio-irmão, este foge e refugia-se em Castela, deixando Afonso IV ávido por vingança.

Em Castela, Afonso Sanches casa-se com a herdeira da casa de Albuquerque, junto da qual, alguns anos mais tarde, adopta a pequena Inês Peres de Castro. Inês era filha adoptiva de Afonso Sanches e D. Afonso IV sabia-o. As razões para que a odiasse eram, pois, de peso, filha adoptiva do seu maior inimigo, irmã dos Castro, que tentavam convencer o seu filho Pedro a trocar o trono português pelo castelhano, por fim, mãe de 3 crianças que disputariam o trono ao seu legítimo neto, D. Fernando. A vingança foi consumada da forma conhecida.

Ao saber da morte de Inês, D. Pedro voltou-se em armas contra o pai e indo até ao Norte do país, liderou saques e motins por terras do rei. Só meses depois, e por acção da rainha Beatriz, sua mãe, o infante se compromete a não mais procurar vingar a morte de Inês e, por seu lado, Afonso IV se compromete a esquecer e a perdoar as destruições causadas pelo infante, seu filho. Só que, menos de 2 anos decorridos, morre D. Afonso IV, não sem antes mandar avisar os seus 3 cúmplices que saíssem para Castela antes que o filho fosse coroado. Com efeito, assim que se dá a coroação, inicia-se uma autêntica caça ao homem por toda a Península Ibérica. Chega-se a fazer um trato com o rei de Castela, no qual se promove uma troca de prisioneiros. D. Pedro entregaria ao rei de Castela castelhanos exilados em Portugal e aquele rei entregaria a D. Pedro portugueses exilados em Castela. Entre eles, naturalmente D. Pedro queria que constassem os carrascos de Inês, foram eles Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco. Tendo este último conseguido fugir, foram os outros dois presentes a D. Pedro.

Como nos relata o cronista Fernão Lopes, o rei estava em Santarém, e aí foram por ele interrogados os dois capturados. D. Pedro quis deles saber quais os envolvidos na conspiração contra Dª Inês, bem como das motivações e das ordens dadas por seu pai. Como nenhum lhe dissesse nada, el-rei ter-se-á enfadado e aplicado um tabefe sobre Pêro Coelho que logo com el-rei se revoltou, insultando-o. D. Pedro mandou-os matar ali mesmo, na sua presença e com métodos deveras chocantes. Ordenando que fossem amarrados, a um quis que se lhe arrancasse o coração pelo peito, a outro, pelas costas. Tal terá decorrido frente a el-rei, enquanto almoçava, o que constituiu certamente um dos episódios que mais terá contribuído para um dos cognomes com que ficou lembrado, Pedro “o Cru”.

Segue-se, tempos depois, o juramento público e solene de D. Pedro, em como havia contraído matrimónio com Inês em segredo. Para tal apresentou testemunhas, cujas declarações não convenceram a totalidade do reino. Ainda assim, D. Pedro fez com que fosse consagrada rainha de todos os portugueses, sendo célebre a pompa na trasladação do cadáver de Coimbra para Alcobaça, e digna de verdadeira majestade a meticulosa lavra do seu túmulo.

Desse amor, resta-nos hoje um pungente passeio pela Quinta das Lágrimas, lembrando o local onde Inês fora morta, ou a contemplação atenta desses dois jazigos góticos, “tela” de um autêntico vendaval de sentimentos. E Alcobaça fica tão perto…! Fica o convite. Uma rosa por Inês, uma rosa por Pedro.

Sexta-feira, Janeiro 06, 2006

- O “Colo de Garça” -





“ (…)O caso triste e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha”.



Camões dá o mote para o tema desta semana: O trágico destino de Pedro e Inês. Neste 7 de Janeiro, assinalam-se os 651 anos da morte de Inês de Castro, um dos assassinatos mais polémicos de toda a História de Portugal e que, pelas suas circunstâncias, deixou profundas marcas em toda uma sociedade que com tal se chocou muito. Inês ficou para sempre na mitologia e no sentimento nacional, face às lendas que acentuaram o carácter dramático da sua vida e morte. Ainda assim, há que compreender os factos por detrás da tradição e o que levou a este triste desfecho. Recuemos pois.

Entre 1340 e 1348, Portugal foi um país estabilizado e em desenvolvimento. D. Afonso IV, pai de D. Pedro, havia sanado os conflitos com Castela e eliminado a última demanda sarracena sobre território português. Era, pois, tempo de reestruturação nas instituições, de desenvolvimento económico-social, de reformulação de leis e formulação de outras. Era essa a prioridade do rei, manter a todo o custo uma paz que lhe possibilitasse o governo. Já no outro lado da fronteira o caso era outro. O rei castelhano, Afonso XI, andava de costas voltadas para a sua nobreza, ignorando-a e contrariando-lhe os interesses. Contudo, esta nobreza era demasiadamente poderosa e influente para se sujeitar à vontade real, começando cedo a conjurar uma nova dinastia. Está bom de ver que o nosso Afonso IV logo declina tomar qualquer partido nestas querelas vizinhas, a paz havia-lhe custado demasiado para ser assim desbaratada. Imagine-se então o desgosto de ter no próprio filho, seu herdeiro, o principal elemento português a pôr em causa este esforço, comprometendo a paz e estabilidade conquistadas. Foi o que sucedeu.



Casado em 1340 com Dª Constança, filha de um nobre castelhano, o infante D. Pedro apaixona-se loucamente por Dª Inês Peres de Castro, amiga e dama de companhia da princesa, o “colo de garça”, como era conhecida nos salões pela sua graça e beleza. O infante é correspondido, o que dá inicio a um amor intenso e a uma relação proibida. Apesar das relações extra-conjugais se enquadrarem na moral da época, algo terá levado à ordem de afastamento de Inês, ao ponto de acabar por ser expulsa do país, por ordem do próprio rei. Nos 5 anos seguintes, esta relação vive de encontros secretos e de uma ausência sofrida, até que, em 1345, Dª Constança morre ao dar à luz o seu único filho, o infante D. Fernando, futuro rei de Portugal. Então, D. Pedro não perde tempo e logo corre a trazer Inês para perto de si. Assim se reiniciava uma relação que se estenderia por 10 anos, da qual nasceram 4 filhos e que terminaria tragicamente com a morte de Inês. Interessa lembrar que, ao tempo, Inês era muito pouco querida entre nós, na verdade, desde o povo à nobreza, temia-se pela vida e pela futura coroação do infante Fernando, face ao amor cego que o príncipe dedicava à “espanhola” e aos filhos tidos com esta.

Ora, esta conjuntura concorreria para que o rei, Afonso IV, reforçadas as suas próprias razões, resolvesse a situação ao seu modo. Assim sendo, naquela tarde de 7 de Janeiro, aproveitando-se a ausência do infante, o próprio rei com 3 fidalgos de sua confiança, cavalga até à mata real de Coimbra, onde Pedro havia instalado a sua família, longe das intrigas e ameaças da Corte. Aí se encontram com uma Inês suplicante, que apunhalam e degolam sem misericórdia. Dª Inês cai morta, três crianças perdem a sua mãe e o problema de el-rei fica resolvido…. Não é fácil encontrar um motivo plausível, para que um rei ordene tal fim a uma mulher indefesa. Que razões para um crime desta monta?



Referiu-se atrás, que os nobres castelhanos pretendiam destronar o seu rei, inaugurando uma nova dinastia. Ora, ao fazê-lo punha-se o problema da sucessão. Quem iniciaria essa nova dinastia castelhana? Pois imagine-se que se foram lembrar, nem mais nem menos, que do nosso infante Pedro, descendente directo que era dos reis de Castela, por via materna. Logo se aproximaram-se dele, atraindo-o para o seu partido. Na verdade, uma importante parte do seu séquito era constituído por alguns dos mais destacados responsáveis pela conjura contra o rei castelhano. Agravando tudo isto, Inês de Castro era irmã e meia-irmã de 3 destes responsáveis, logo, partidária da sua causa. Ora, aos olhos do rei de Portugal, estas companhias do filho, começando por Dª Inês, eram altamente comprometedoras da neutralidade que se vinha esforçando por manter face à situação castelhana. Com o seu herdeiro prestes a aceitar encabeçar uma rebelião que, no seu íntimo, acreditava vir a falhar, a posição dele próprio estaria em causa face ao rei de Castela, com o qual mantinha relações cordiais. Tendo já por outras vezes ameaçado o infante, D. Afonso IV resolve eliminar da forma mais brutal, aquela que considerava ser a principal e mais próxima voz de encorajamento que Pedro tinha, para anuir à proposta dos seus amigos castelhanos, Dª Inês de Castro. De resto, D. Afonso não poderia também aceitar que o seu único herdeiro fosse ocupar o trono castelhano, abandonando Portugal a um D. Fernando ainda criança e já sem mãe.
Mas ainda assim, outra razão igualmente intensa povoava a mente do rei português, uma razão pessoal, familiar, um rancor que encontrou consolo na vingança sobre Inês. (continua…)

Sexta-feira, Dezembro 30, 2005

- “Foi tudo prò maneta” -



Correndo o risco de nem todos os leitores estarem familiarizados com o dito, “Ir para o Maneta” é uma expressão que sobrevive ainda com considerável vitalidade por diversas zonas do país. Seja por acidente, por roubo ou falta de atenção, quando algo se perde irremediavelmente, lá vem o dito: “Foi tudo prò maneta !”. Pois neste dia 30 de Dezembro, faz anos que morreu o tal “Maneta”, e proponho que o conheçamos.

Num artigo anterior, assinalava os 198 anos da primeira invasão francesa em Portugal, ordenada por Napoleão e comandada pelo seu general Andoche Junot. Foi nesse mesmo ano de 1807 que, acompanhando Junot, um outro homem entra em Portugal com o intuito de fazer prevalecer a força do imperador francês, esse homem era Louis-Henri Loison. General francês de apenas 36 anos, contava já uma extensa e bem sucedida carreira militar, ao comando das legiões napoleónicas que se estendiam por toda a Europa. Alistando-se em 1791 num batalhão de voluntários, era já tenente quando a França declara guerra à Alemanha, um ano depois. Outro ano volvido, 1793 consagra-o já capitão, servindo na frente de guerra da actual Bélgica. Aí, Loison lidera o grupo que leva a cabo a pilhagem da riquíssima e célebre abadia de Orval. Chega a general em 1799, quando, muitas pilhagens depois, é enviado para a Suíça às ordens do General Massena.

Em inícios de 1806, uma tarde de caça não lhe corre de feição e Loison perde o braço esquerdo, em consequência de ferimentos. A mutilação não lhe permitirá permanecer ao comando da sua divisão, nas campanhas em curso na Suíça, acabando por cumprir lugares secundários nas operações de guerra. Será então que, em fins de 1807 e já ao comando de nova divisão, Loison tem a rota traçada rumo a Portugal. Ordenado o avanço das tropas napoleónicas sobre a Península Ibérica, a divisão de Loison integra a força militar de Junot e, a 30 de Dezembro, ambos chegam a Lisboa.

Começa aqui um percurso de má memória que, naquela expressão popular, imortalizaria a inimizade que o povo português consagrou a este general de França. O ano de 1808 foi pródigo em focos de resistência, um pouco por todo o país. A ocupação francesa e os sucessivos vexames por esta causada, instigou aos mais variados levantamentos populares, cuja intensidade propiciou não só a desarticulação das forças francesas, como a entrada de forças britânicas em nosso auxílio. Foi neste contexto que Loison passou a figura proeminente na repressão destas revoltas. Após falhar o intento de dissipar a grande revolta de 19 de Junho, no Porto, retorna à capital, onde assumirá a defesa e o controlo dos arredores da cidade, não sem antes saquear todas as localidades por onde passara, Guarda, Alpedrinha, Sarzelas, etc. Conta-se que nessa revolta do Porto, tal era o ódio a Loison que, sendo confundido com este, o general Foy apenas se livrou de um linchamento popular quando, ao ser perseguido, se lembrou de agitar os dois braços no ar, para que vissem todos que não era ele o “Maneta”.



Assumindo o cargo de chefe da “polícia política” francesa em Lisboa, Loison espalha o terror entre as populações lisboetas e arredores. Sucedem-se as prisões, as execuções, perseguições, roubos, as tropas de Loison dispunham livremente de vilas e cidades, bem como das suas gentes. A má fama do “Maneta”, como a população o designava, tornava-o alvo do ódio e do medo de um país que se via espoliado da sua liberdade e dos seus haveres. Igrejas e conventos, palácios e lojas, tudo é saqueado pelas tropas de Napoleão. Já antes, em Fevereiro desse ano, se havia decretado o envio para a capital de todo o ouro e prata das igrejas e confrarias do país, para que fosse convertido em moeda, a ser enviada para Paris como tributo de guerra. O general Loison, ou o “Maneta”, era o grande protagonista destas acções de espoliação, a par da cruel repressão exercida sobre os resistentes. Évora (5 mil civis mortos), Estremoz, Elvas, Arronches ou Portalegre foram outros locais de onde o “Maneta” levou prata e ouro, deixando os escombros do fogo e dos mortos. Mais a Norte, Leiria, Tomar e Nazaré, não tiveram sorte melhor.

Na sequência dos avanços luso-britânicos, Loison retira para Espanha. Ainda por duas vezes integrará forças de invasão a Portugal, mas nem de perto causa os danos da estadia anterior. Depois de ainda integrar algumas batalhas, já fora da Península Ibérica, só em 1814 regressaria de vez a França, onde é feito conde e Cavaleiro de S. Luís. Retirado do exército, parte para Liége, onde passará os seus últimos 2 anos. A 30 de Dezembro de 1816, morre Louis-Henri Loison, aos 45 anos de idade e sem tirar grande proveito dos 20 anos de saques e pilhagens, a que dedicara o seu percurso militar. Entre nós, ficaria para a posteridade a memória do general “Maneta”, o vilão francês sem escrúpulos, para o qual tudo ia e tudo se perdia. Daí que, ainda hoje, “vá tudo prò Maneta”, na gíria nacional está claro.

Sexta-feira, Dezembro 23, 2005

- Acreditar no Pai Natal -



Em criança deparava-me com este complexo dilema, que é saber qual o verdadeiro responsável pelos presentes de Natal que tinha à minha espera, nas manhãs de 25 de Dezembro. Em casa dos meus pais era o “Pai Natal” que lá os ía deixar, entrando pela janela da sala, mas na casa dos meus avós era o “Menino Jesus” que, sabe Deus como, lá os fazia chegar. Anos mais tarde, e já ultrapassado o trauma de saber que eram afinal os meus pais os verdadeiros responsáveis (espreitei pela fechadura da sala), acabei por interiorizar a ideia de que o tal “Pai Natal” não passava de um burlão ao serviço de um consumismo desenfreado, pelo que, o “Menino Jesus” me pareceu um motivo bem mais humano e historicamente correcto para a tradição da troca de presentes. A idade tem destas coisas e com o passar do tempo, começamos a querer compreender melhor as coisas. E sabem o que descobri? Ainda acredito no “Pai Natal”! Eu explico:

Parece-me bem mais ajustado o hábito espanhol de trocar presentes no Dia de Reis, ou não se pretendesse assinalar o dia em que os “Reis Magos” terão feito as suas ofertas a Jesus Cristo, como celebração do Seu nascimento. Contudo, nós, como tantos outros povos do mundo cristão, fazemo-lo na noite de Natal e o motivo parece prender-se com uma combinação de duas celebrações, o nascimento de Jesus e a morte de S. Nicolau. Recuemos...

Em fins do séc. III, o Império Romano domina ainda uma grande parte do continente europeu, bem como toda a área mediterrânica. É, pois, na região romana da Lícia (actual Turquia), que na cidade portuária de Patara, no ano de 280 d.C. nasce Nicolau (significa “pessoa virtuosa”). Filho de uma família abastada de devotos cristãos, cedo Nicolau dá inicio a um percurso de santidade. Conta-se que aí, um pobre homem, pai de três filhas, na impossibilidade de lhes proporcionar um dote de casamento resolve encaminha-las para a prostituição. Tendo tomado conhecimento de tal, Nicolau decide interferir cobrindo a falta daquela família. A lenda conta-nos que o jovem Nicolau terá subido ao telhado desse lar, e ao abrigo da noite fez descer pela sua chaminé um saco de moedas de ouro. Por mais duas vezes terá repetido o acto, sempre que se aproximava a idade de casamento das jovens.

Nicolau perde os pais muito cedo, aprofundando aí a sua Fé. É então que, a conselho de um tio, decide visitar a Terra Santa, Jerusalém. É nessa viagem que dá um passo mais na consagração da sua santidade. Conta-se que, indo por mar, uma imensa tempestade ameaçava perder a embarcação com todos a bordo. Terá sucedido que, em começando Nicolau a rezar fervorosamente, o Céu se acalmara miraculosamente. O acontecimento foi digno de registo, concorrendo para que fosse, mais tarde, feito padroeiro de marinheiros e pescadores. Essa viagem, que passou ainda pelo Egipto, terá sido uma peregrinação religiosa e cultural para Nicolau, amadurecendo-lhe a devoção e aprofundando conhecimentos. Regressado a casa, traz um novo projecto de vida. Doando toda a sua abundante riqueza aos mais desfavorecidos, com especial atenção às crianças, muda-se para a cidade de Mira. Aí cultivará a sua Fé como homem religioso, adquirindo um carisma que o conduzirá a Bispo dessa cidade. No novo cargo, dá continuidade à sua obra junto dos mais pobres e vulneráveis, orando pelos homens e protegendo as crianças.

Falecerá a 6 de Dezembro de 342, deixando uma vasta obra de caridade, semente de um futuro verdadeiro culto. As lendas atribuídas à sua vida e obra espalharam-se por toda a Europa, na imagem de um generoso distribuidor de bens e de presentes, tornando-se num dos santos mais populares da Cristandade ao qual se atribuíam muitos milagres, padroeiro da Rússia, da Grécia, dos marinheiros e das crianças. Instituído o seu dia de celebração, era a 6 de Dezembro que se trocavam os presentes em sua honra. Com o advento da Reforma, no séc. XVI, o culto aos santos é denegrido pelos Protestantes, especialmente no Norte europeu. Passa-se então a tradição da troca de presentes para o dia de Natal, procurando-se centrar o culto religioso apenas em Cristo. Anos depois, na Contra-Reforma, a recuperação do culto a este santo tão popular, transfere a sua celebração também para o dia de Natal.

Face à escassa documentação da vida do santo, em 1969, o Papa Paulo VI retira a festa de S. Nicolau do Calendário Oficial Romano, contudo, o culto permanece por todo o mundo cristão e em todos os lares, ao ponto de partilhar, quando não centralizando em si, o próprio dia do nascimento de Jesus, a festa da Família. O “Pai Natal” é pois o S. Nicolau de origem mediterrânica e bispo de Mira, que, em 1822, um poema do americano Clement More imaginou como um velhinho de barbas brancas, num trenó puxado por renas e que desce pela chaminé com presentes. Por fim, a publicidade de Inverno da marca “Coca Cola”, retoma esta imagem em 1931, vestindo-a com as suas cores e imortalizando S. Nicolau como um velho gordinho, de vermelho, botas altas e saco às costas cheio de presentes para os meninos bem comportados.

Muito para além desta imagem fantasiosa, bem como dos milhentos sósias espalhados pelos centros comerciais, o “Pai Natal” tem um significado bem diferente de um sino que se toca para comprar, comprar, comprar… S. Nicolau representa a partilha, o despojamento, a renúncia, a caridade e um desinteressado amor ao próximo. Lembrando a sua obra, não será assim tão difícil voltar-se a “acreditar no Pai Natal”, pois não?

Um Feliz Natal a todos.

Sexta-feira, Dezembro 09, 2005

-Pela janela fora –



Já lá vai o tempo em que, por aqui, se resolviam os problemas atirando-os janela abaixo… Foi um tempo em que os portugueses não se lamentavam tanto como agora pois agiam por mãos próprias. Contra condes e marqueses, reis e rainhas, padres e papas, temos um Passado repleto de indignação e de iniciativa. Um espírito que se perde neste democrático marasmo de abstencionismo e lamechice.

Pois foi “pela janela fora”, que no 1º de Dezembro de 1640 se deu inicio à resolução de um problema com uns já fartos 60 anos de idade. Caía então de um dos balcões do antigo Palácio da Ribeira, um Secretário de Estado português ao serviço de um rei estrangeiro. Mas, como de costume…recuemos:

Posto o desaire em Alcácer Quibir (1578), desaparecido el-Rei D. Sebastião e terminado o curto reinado (2 anos) do Cardeal D. Henrique, chega-se a um impasse em que, de entre os netos de D. Manuel, se esperava o novo rei. Filipe toma a dianteira, reivindicando para si o trono de Portugal. Acontece que Filipe era já o 2º de seu nome na linha de reis castelhanos. Filho de Carlos V, Filipe herdara e liderava agora um império de força extrema, rico, bem organizado e em expansão, o que num Portugal derrotado e sem rumo, acaba por dividir a sociedade entre defensores e opositores a uma união com Espanha. Filipe insiste e dispõe-se mesmo a reivindicar o trono pela via militar, pelo que logo se procura resolver a questão diplomaticamente. Convocadas as Cortes para Tomar, em 1580 decide-se a favor de Filipe, o primeiro de Portugal, o 2º de Espanha. Aí, o príncipe compromete-se com uma série de premissas que visavam garantir uma administração independente de Portugal, mantendo-se o reino intacto nas suas instituições e identidade. Posto isto, Portugal sente imediatamente um considerável alívio económico, beneficiando do bem estar financeiro espanhol, proliferando o comércio e, consequentemente a classe média.

A partir de cerca de 1630, tudo isto se inverte. Já com Filipe IV de Espanha no poder, a frente de guerra aberta com os franceses pende para o lado destes, a Espanha entra em crise e logo, Portugal também. É então que o descontentamento face à ocupação estrangeira se evidencia. Os compromissos feitos em Tomar vinham sendo insistentemente atropelados, verificando-se o aumento de impostos, a ocupação de cargos de prestígio em Portugal por elementos espanhóis, etc. Por outro lado, Madrid ordena o encerramento dos portos portugueses aos seus inimigos, que, por sua vez, acabam por atacar o Nordeste brasileiro. Isto leva à derrocada do comércio português, encarecendo produtos, diminuindo o poder de compra, fragilizando uma classe média habituada a lucrar. O aumento da carga fiscal provoca a rebelião popular, que sai à rua um pouco por todo o país, embora com especial incidência em Évora.

Alguns meses antes da data que agora se celebra, um grupo crescente de algumas dezenas de nobres dissimula uma causa comum, a restauração da independência. Eram essencialmente jovens, uma vez que a fidalguia de mais idade se encontrava destacada em Madrid ou recatadamente à espera do resultado da conjura. Um plano é urdido secretamente na última noite de Novembro. No pátio posterior do “Palácio do Almada” (actual Palácio da Independência) juntam-se os cabecilhas do movimento, a coberto do colégio jesuíta de Stº Antão por onde entravam. É então que na manhã de 1 de Dezembro, pelas 9 horas, cerca de 40 homens neutralizam a guarda do palácio real, sobem até aos aposentos da vice-rainha, a Duquesa de Mântua, obrigando-a a assinar uma ordem de rendição pacífica aos regimentos estacionados no castelo de S. Jorge e nas fortalezas ribeirinhas. Entretanto dirigem-se até outros aposentos, os do Secretário de Estado Miguel de Vasconcelos, um português que assumia funções enquanto representante de Castela no governo do reino. Era um burocrata, elevado a um posto para o qual não havia sido educado, insuflado de uma soberba e desdém que cedo lhe granjearam muitos inimigos entre as mais velhas famílias da nobreza lusa. Assim, neste dia de decisões nem a nacionalidade lhe valeu a vida, e tendo ainda procurado esconder-se dentro de um seu armário de documentos, traiu-se por sons que provocou, logo sendo descoberto, alvejado a tiro e, diz-se que ainda vivo, atirado janela fora junto com alguma prataria e outras riquezas que aí conservava. O povo exultante acorreu à oferta e parece que pouco restou do infeliz.

É então aclamado rei D. João, Duque de Bragança, legítimo herdeiro do trono por ambas as linhas parentais, de origem real. Ao princípio ainda relutante em assumir a liderança do movimento, o Duque acabou por anuir à insistência de sua esposa, Dª Luísa de Gusmão, à qual se atribui a célebre frase: “Antes rainha uma hora que duquesa toda a vida”. Pois, por morte de seu marido, chegou mesmo a reger o país na menoridade do filho Afonso, ficando como uma das mais persistentes e tenazes rainhas de Portugal.

É certo que só em 1668 se encerraria a guerra causada pela reacção castelhana, contudo, o resultado de uma decisão lícita e corajosa, foi o saldo inestimável que é um pedaço de terra, onde livremente se criem gerações e transmitam os valores de uma memória comum. Creio ser essa a ambição que leva ainda, alguns de nós, a celebrar este dia, 365 anos depois.

Sexta-feira, Novembro 25, 2005

O que tem a Sexta-Feira 13?



Actualmente, não é fácil entrar numa livraria sem que a febre esotérica ligada aos templários não nos entre pelos olhos a dentro. Desde o famoso “Código Da Vinci”, o tema desdobrou-se em largas dezenas de publicações por todo o mundo, esgotando todas as teorias possíveis e imaginárias. Este Natal não é excepção e é ver as prateleiras repletas de mais do mesmo. Ainda assim, parece-me justificável que esta semana se aborde o tema, simplificando-o tanto quanto possível.
No dia 29 da presente semana, assinalam-se 691 anos da morte de Filipe IV, o Belo, rei francês da dinastia capetíngia. Contudo, esta efeméride não passa de um pretexto para abordar aquilo que de facto nos interessa, ou seja, a origem da “azarenta Sexta Feira 13”. Recuemos…

Há muitos, muitos anos, por volta de 1118, nove cavaleiros cristãos abandonam a Europa rumo ao Médio-Oriente, onde havia sido recentemente implantado o reino cristão de Jerusalém. Terra de lugares santos e alvo de constante peregrinação, era também atractivo para todo o tipo de malfeitores, que viviam dos saques perpetrados ao longo das rotas dos peregrinos. Os crescentes massacres e roubos praticados entre o velho porto de Jafa (actual cidade de Tel Aviv) e Jerusalém, juntaram estes homens sob um manto branco e uma cruz vermelha, com o propósito de proteger os fiéis. Inicialmente “Pobres Cavaleiros de Jesus Cristo”, ficariam conhecidos como “Templários” ou “Guardiães do Templo”, o que se deveu à mítica localização do seu primeiro quartel-general, instalado no espaço onde, muito antes, se erguia o Templo do Rei Salomão.

O sucesso e a visibilidade desta iniciativa, levou à necessidade da criação de uns estatutos que os organizasse enquanto Ordem, sendo então redigidos pela mão do abade de Claraval (futuro S. Bernardo). Compreendida a importância que teria para a Igreja a posse de uma Ordem monástica inteiramente ao seu serviço e que serviria para fazer a guerra, esta foi posta sob a exclusiva autoridade do Papa, como tal, nem rei nem bispo teriam sobre eles qualquer poder. Ora, este estatuto conferia à Ordem uma imensa autonomia e prestígio, ao que esta correspondia com inúmeras vitórias sobre o Islão, resgatando fartos valores logo enviados para a Europa, desenvolvendo e protegendo as trocas comerciais a Oriente, erguendo fortalezas, tornando-se fiéis depositários da riqueza de nobres e reis por toda a Europa… Pode dizer-se que nos fins do séc.XIII, estes eram uma espécie de Caixa Geral de Depósitos de toda a Cristandade. O próprio rei francês devia muito dinheiro aos templários, a sua guerra na Flandres agravara uma situação económica já de si difícil, levando-o a sujeitar-se ao crédito e aos juros da Ordem (cujo imponente quartel-general se encontrava já em Paris, contendo aí todas as suas riquezas).

É então que Filipe IV, cansado dos juros e dividas contraídas aos Templários, promove uma forma de saldar essas dívidas. E como?
Pairava já então sobre os Templários a suspeita de práticas pouco cristãs, onde se incluía a negação de Cristo, a adoração de ídolos, a prática da homossexualidade, entre outras. Ora, em tempo de crescente fervor cristão, isto fragilizaria qualquer instituição, por forte que fosse. Aliando estas suspeitas ao descontentamento geral, pelos juros que a Ordem exigia ao rei francês em tempo de carência, Filipe resolve cortar o mal pela raiz.

Na sexta-feira, dia 13 de Outubro de 1307, dá-se uma das maiores operações policiais ao tempo. Mantendo tudo em segredo, Filipe faz circular as suas ordens apenas pelas autoridades dos locais onde existiam comendadorias templárias. As ordens eram para que no mesmo dia e pela mesma hora, todos os cavaleiros da Ordem em França fossem aprisionados, evitando desta forma qualquer reacção possível. Os apelos que ainda foram feitos junto do Papa revelaram-se inúteis. Na verdade, Clemente V encontrava-se comprometido com o rei francês desde que este lhe garantira o pontificado, em detrimento do candidato italiano. Assim, ainda que a Ordem estivesse sobre a sua exclusiva tutela, o Papa submete-se à vontade de Filipe e a 22 de Novembro, emite uma bula ordenando a prisão e a inquirição aos cavaleiros da Ordem, sendo o eminente jurista Nogaret a redigir e a liderar todo o processo. Esta inquirição fez-se por meio da tortura, e o estiramento de membros sobre um potro (onde eram amarrados), matou vários elementos antes de confessassem. Certo é que outros falaram, sendo registados relatos onde se admitia a idolatria, a sodomia, que se cuspia na cruz e renegava Cristo nos rituais, etc., registando-se a do próprio Jacques de Molay, grão-mestre da Ordem.



Passados 7 anos, obtidas as confissões e confiscados os bens da Ordem pela Coroa, arma-se um grande cadafalso em frente da catedral de Notre Dame, em Paris. Aí se reuniriam os inquisidores para ler a sentença. É então que, apesar de apenas condenado a passar o resto da vida num mosteiro (uma vez que, tendo confessado se mostrava arrependido), o grão-mestre toma a palavra diante do rei, dos magistrados e de uma multidão, para então renegar tudo o que havia confessado sobre tortura. Imediatamente se mandou ali acender uma grande fogueira, onde Jacques de Molay foi amarrado e consumido pelas chamas, enquanto bradava maldições sobre aqueles que o haviam perseguido e morto: O jurista Nogaret, o Papa Clemente e o rei Filipe. Consta que a maldição intimava aqueles 3 a comparecer perante o “Supremo Julgador” no prazo de um ano. Certo, é que em menos de um ano todos 3 haviam deixado este mundo, e aquela Sexta-Feira, dia 13, para sempre ficou na memória colectiva como um dia de particular azar, em que se deu inicio a um processo para sempre amaldiçoado.

Sexta-feira, Novembro 18, 2005

“Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes ”


Oficial da Legião Portuguesa ao serviço de Napoleão

Eis um dito popular que muitos portugueses ainda certamente recordarão. Vamos procurar explica-lo, para que não esqueça aos novos.
Esta semana coincide com um advento histórico notável, pelas consequências directas e indirectas provocadas no Portugal de então, ou não decorressem 198 anos da primeira de três invasões, que a poderosa França napoleónica perpetraria por terras lusas. Mas voltemos um pouco atrás:
Falhada a reacção militar das monarquias europeias contra a Revolução Francesa e a proliferação dos seus ideais republicanos, fortalecida e consolidada pelo pulso de Napoleão, a França estende o seu plano de conquista territorial em todas as direcções. Desde o Norte de África à própria Rússia, a frente de guerra francesa foi elevada a uma dimensão só posteriormente igualada pela Alemanha nazi. Assim, também Portugal viria a sentir a força dessa ambição, sendo que logo em 1800, a França retoma a intenção de ocupar a Península Ibérica.

Napoleão ordena a Portugal que encerre os portos aos navios ingleses (com quem a França estava em guerra aberta), o que não se chegaria a concretizar. A impaciência de Napoleão face à nossa resolução em manter a neutralidade leva-o assim a ordenar a entrada de cerca de 28 mil homens na península rumo a Portugal e com o apoio espanhol. Será a 19 de Novembro de 1807 que o general Andoche Junot transpõe a fronteira portuguesa, à frente de um exército já algo macerado pelo rigor invernil das serranias do Norte de Espanha. Ora, esta situação fragilizaria a sua progressão pela Beira, região inóspita, sem estradas e onde o pleno Inverno se fazia já sentir. Ainda assim, Junot chega a Abrantes dia 24 de Novembro, à frente de um exército de alguns milhares de homens descalços, sub nutridos, doentes ou feridos. É aí que se recompõe e selecciona os elementos capazes de prosseguir, sendo que no dia seguinte partia já rumo a Lisboa. Transposto o Zêzere a custo, bem como as terras alagadas da Golegã, Junot entra em Santarém dia 28, com o seu Estado-Maior incompleto e um regimento de já poucos homens. No mesmo dia segue para Lisboa onde, ainda nas proximidades, é recebido por um destacamento da cavalaria portuguesa. A facilidade com que este fraco exército ali poderia ser vencido, levou certamente os nossos homens a questionar as ordens recebidas. E que ordens eram essas?

O esforço por manter a situação de neutralidade face ao conflito anglo-francês, levou o regente D. João de Portugal à situação desesperada de considerar publicamente a entrada destes soldados como uma simples “marcha de tropas estrangeiras”, dando ordens explicitas para que fossem bem assistidas e aquarteladas na sua estadia, “conservando sempre a boa harmonia que se deve praticar com os exércitos das nações com as quais nos achamos unidos no continente”. Eis a razão pela qual este exército, depauperado pela fome e pelo rigor do clima, de uniformes rasgados e espingardas arruinadas, rumou até à capital do reino a salvo de uma reacção militar ou popular concertada. No entanto, toda a Corte embarcou rumo ao Brasil na véspera da chegada de Junot a Lisboa. Uma estratégia tecida secretamente com os ingleses e que Napoleão viria mais tarde a admitir ter sido uma jogada de génio por parte do rei português, onde outros têm visto uma atitude cobarde deste. Um total de 35 navios mercantes e de guerra, transferiram aproximadamente 15 mil pessoas para o outro lado do Atlântico nesse dia. Juntamente com artesãos e mesteirais de todo o tipo, a Corte permaneceu intocada onde também era Portugal.


Junot

Certo é que dia 30 de Novembro, apenas 12 dias após transpor a fronteira, Junot entra em Lisboa onde assume a regência em nome do imperador Napoleão e declara o fim do reinado da família Bragança. Ergue a bandeira francesa no castelo de S. Jorge e trata de desarmar o pais, enviando regimentos de soldados portugueses para as frentes de batalha francesas.
A partir daqui, ainda que abandonada pelo príncipe regente e sobejamente reprimida pelos franceses, a população revolta-se permanentemente e em vários pontos do pais. Estes focos de rebelião popular permitiriam às forças inglesas o planeamento e assalto por mar, ao território português. A 6 de Agosto de 1808, o general inglês Arthur Wellesley (futuro duque de Wellington) desembarca na baía de Vagos. Daí em diante, inicia-se um longo processo de reacção luso-britânica às investidas francesas, durante o qual com certeza muitos portugueses terão questionado sobre o estado da contra-ofensiva, daí que a resposta habitual fosse “Tudo como dantes, quartel general em Abrantes”, ou seja, que esse importante bastião militar continuava na posse estrangeira. Posteriormente a popularidade do dito veio a converter-se num provérbio que significa inoperância.

Só em 1814, com a retirada do general Massena, Portugal se livra da ocupação francesa. Para trás ficava a destruição, a desorganização social, o despojamento das igrejas e palácios de todo o reino de suas riquezas, enviadas para França, o esgotamento dos bens de consumo alimentar, o descontentamento popular e mais significativo de tudo, a ausência prolongada da Corte no Brasil provocaria o descontentamento entre as elites, que inspiradas nas ideias liberais vindas de França, começavam a exigir, na ausência do Rei, a liberalização do poder, ou seja, a criação de uma Constituição que transferisse o poder legislativo para um parlamento. Este fenómeno alterará para sempre o rumo político do país, conduzindo ainda a uma guerra civil entre Liberais e Absolutistas que adiará um pouco mais o progresso e a estabilidade social

Sexta-feira, Novembro 11, 2005

1755 - O Terramoto hoje.



Pelas 9:40 da manhã do passado dia 1 de Novembro, badalaram em uníssono os sinos das igrejas lisboetas. Assinalavam-se os 250 anos volvidos da grande catástrofe que foi o terramoto do Dia de Todos os Santos, ocorrido nesse mesmo dia, nesse mesmo momento, na antiga cidade de Lisboa.
Acompanhando a iniciativa religiosa, a efeméride foi satisfatoriamente assinalada por vários órgãos de comunicação social. Aos artigos, suplementos, desdobráveis e à inclusão de abundante apoio iconográfico na imprensa escrita, juntaram-se as referências em telejornais, bem como reportagens, documentários e até a reposição de ficção televisiva alusiva ao tema. Uma questão de se estar atento. Assinalável ainda uma actuação da Orquestra Metropolitana de Lisboa na imensa igreja de S. Domingos, em memória de quantos por ali penaram 250 anos antes. No entanto, os responsáveis pela autarquia de Lisboa deixaram que este dia passasse sem que lhe dedicassem uma atenção minimamente proporcional à actualidade do tema. Lembremos que as exactas condições naturais que causaram a tragédia se encontram prontas a agir novamente. Fica-nos a sensação de que a edilidade gosta pouco de se associar abertamente a uma verdadeira demonstração de pesar e de humildade perante a História, perante a força dos elementos e a memória viva daqueles que, “do lado de lá”, ainda nos tentam despertar os sentidos, bem como antigas lições aparentemente já esquecidas. Na verdade, embora a memória colectiva nos distancie o coração dessas almas sofridas, parece subsistir um sentimento de temor que torna o tema tabu. O medo de um novo cataclismo só é comparável à certeza da sua inevitabilidade. Os lisboetas sabem-no, sentem-no como uma questão de anos, dias, horas, minutos até, quem sabe? Assim sendo, mais vale viver e não massacrar os ânimos, que por outros motivos já o estão de sobeja. A comunidade científica é unânime e assegura o fenómeno para uma relativa proximidade temporal. Dizem ser uma questão de energia acumulada de que a Terra se tem de aliviar periodicamente. Ora, quanto maior for esse hiato, maior será a intensidade do sinistro. Cronologicamente mais próximos, 1356 foi o terramoto de maiores proporções do seu tempo, 175 anos depois, em 1531, nova grande destruição grassa por Lisboa e arredores. 224 anos depois, o ano de 1755 traz novamente a devastação e, salvo algumas pequenas demonstrações destas forças, passaram-se já 250 anos sem um sinal claro de alivio tectónico que nos permita o sono descansado.

No entanto, não se pode aceitar que a dita edilidade, bem como o próprio Governo, se escusem de encarar como real a falha sísmica do Vale do Tejo e a sua potencial manifestação. A quimérica implantação do Metropolitano no Terreiro do Paço, a multiplicação de parques automóveis subterrâneos em plena Baixa Pombalina, o polémico Túnel do Marquês, são autênticas afrontas à força dos elementos, revelam a ânsia de inaugurar placas a qualquer custo e legam assim futuros factores potenciadores de uma catástrofe já de si terrível. Sendo estas as prioridades dos nossos responsáveis, bem se lhes compreende a falta de voz na efeméride. Para quê sujeitarem-se a ter de encarar perguntas incómodas sobre a segurança das obras públicas, a eventual existência de um plano de emergência em caso de catástrofe, ou sobre um também eventual regulamento de prevenção para a construção de habitações? “Quem vier a seguir que encare o devir” – Este é o mote – “E se vier em meu tempo, que Deus me poupe o tormento!”

Deus… Isto então levar-nos-ia a páginas de dissertação. O nosso D. José Policarpo veio falar e bem, como de costume. Apelou à remissão de pecados, lembrando os efeitos da ira divina sobre a soberba e a falta de humildade dos homens. A mesma ideia fora já difundida aquando do terramoto de 1531. É o próprio Gil Vicente que, numa carta a el-Rei D. João III, refere a ânsia com que os clérigos logo se apressaram a apontar a mão punitiva de Deus para com os pecados das gentes, prometendo-lhes ainda um segundo terramoto a rematar o primeiro. Em 1755 esta ideia foi essencialmente lavrada pelos jesuítas na voz de Gabriel Malagrida, um padre italiano de renome que chegou a criar um panfleto, desautorizando o rei (e o Marquês de Pombal) e atribuindo-lhe, bem como ao seu povo, as causas da ira divina. Só que este teve azar, como era próximo dos Távoras, foi astuciosamente incluído no processo movido à dita família pelo Marquês de Pombal, depois estrangulado e queimado em auto-de-fé.

Ainda assim, podemos deixar no ar as mesmas questões que ao tempo opuseram religiosos e humanistas por toda a Europa:

-Porquê uma cidade tão devota como Lisboa ser o alvo da tal ira divina?
-Como pôde um “Deus justo” permitir a morte indiscriminada de bons e pecadores?
-Como pôde esse mesmo Deus permitir a ruína de tantos templos, deixando ao invés intactos os bordéis da chamada “Rua Suja”?
-Como justificar a morte de tantas crianças?

Seja como for, as cerca de 12 mil vítimas mortais de 1755, têm forçosamente de constituir património memorial deste país, porque entre pobres e ricos, pretos e brancos, cultos e ignorantes, malfeitores e religiosos, não foram feitas distinções e a condição humana pouco pode em tais desígnios. Que a ciência o aguarda já sabemos. Por força das inevitabilidades da Natureza ou pela vontade de um Deus vigilante… De acordo com o sentimento do leitor… Valerá a pena pensar muito mais nisto?

Quinta-feira, Novembro 10, 2005

Apresentação



Decidi colocar neste espaço o contributo que venho dando ao jornal semanal de Torres Novas, "O Almonda".

Desta forma, torna-se prática e rápida uma consulta ao que foi já escrito e que acaba por desaparecer com o suceder das edições. Não se perde o acesso ao tipo de assuntos abordados na crónica "Recuemos...", assuntos sempre actuais, uma vez que abordam essencialmente alguns aspectos da História de Portugal.

Permite ainda a inclusão de fotografias que ilustrem os textos, e, finalmente, a eventualidade de um diálogo com os leitores sobre os temas abordados, bem como explicações e esclarecimentos adicionais que sejam solicitados.

Sempre que, excepcionalmente, os artigos publicados não pertençam à dita crónica, os seus títulos serão precedidos das palavras: "Artigo de Opinião".

Disponham:

Carlos L. Carreira