Recuemos...

ARTIGOS DO SEMANÁRIO REGIONAL TORREJANO, "O ALMONDA". por Carlos Leitão Carreira

quinta-feira, abril 05, 2007

Entre “Ovos e Coelhos”, onde pára a Páscoa?



Por esta altura do ano, há quem esconda uns ovos de chocolate no quintal para que as criancinhas os descubram. Há quem compre e coma compulsivamente as amêndoas coloridas. Trocam-se doces e oferece-se dinheiro. Depois são os coelhos. Coelhos para aqui, coelhos para ali, ovos para aqui, ovos para acolá…E no fim da quadra, corre-se o sério risco de ter uma boa porção de crianças a pensar que Páscoa é uma espécie de Natal, onde quem “desce a chaminé” é um coelho, e as prendas se resumem a doces porque nessa quadra os pais não recebem subsídio! Pois a moda parece pegar e alastrar entre as nossas famílias, inspiradas num marketing amigo de uma simbologia mais simpática às vendas. É sem dúvida menos agradável à vista um Cristo agonizante do que um coelhinho azul, mas valerá a pena privar os mais jovens do profundo significado do primeiro em prol da estética do segundo?! Nesta Páscoa sugiro que se expliquem os símbolos àqueles que dependem do nosso cuidado.

Quando, a partir do séc.IV, o avanço do Cristianismo se começou a deparar com as várias crenças pagãs enraizadas na Europa, bem como com alguma relutância no abandono de certas práticas e costumes, deram-se uma série de ajustes e adaptações das práticas religiosas locais, procurando-se fazer coincidir (no seu significado) festas e temas pagãos com as principais celebrações cristãs, de modo a proceder a uma evangelização mais espontânea e eficaz dessas regiões. Dessa sintonização resultaria uma natural troca de elementos que acabavam engrossando também a própria simbologia cristã. A Páscoa é disso exemplo.



Entre as populações pagãs do Norte da Europa, a mudança de estação, correspondente ao equinócio da Primavera, era vivamente celebrada e intimamente ligada a Eostre, deusa da fertilidade, da renovação. Ora, a deusa Eostre surgia representada sob a figura de uma mulher segurando um ovo (símbolo tradicional de fertilidade) junto a um coelho (também ele símbolo de fecundidade). Era uma Primavera exultada no seu carácter fértil, renovador, abundante, e, como tal, acolhida em festa. Na verdade, e face ao período em que se assinala a Paixão, facilmente se alinhou a celebração deste conceito pagão de renovação e renascimento com o da Ressurreição de Cristo e seu carácter salvífico e reabilitador dos homens, um recomeço. Consta que a troca de ovos decorados remonta já aos cultos pagãos de romanos e gregos, pelo que a prática generalizada prevaleceria, acabando mesmo absorvida pelo Cristianismo, que a transformaria numa expressão do culto e veículo de evangelização. A tradição permanece, todavia, mais fiel entre os cristãos do Leste europeu, onde ainda hoje é muito vulgar encontrarem-se ovos decorados com alusões a temas cristãos. Já por cá, parece completamente perdida essa associação, não passando um “ovo” apenas disso mesmo, e de chocolate, de preferência.



Talvez por isso mesmo resulte a necessidade de reintroduzir esta associação, aproveitando o incremento dado ao consumo alusivo à época, para reaproximar a Páscoa destes pequenos veículos, hoje em dia completamente desprovidos de um sentido que não o desse mesmo consumo. Se através de um ovo, onde uma criança pinte a sua ideia de Jesus, surgir uma semente para a compreensão do significado da Páscoa e da mensagem que ela traz à sua vida, então encham-na de amêndoas e os quintais de chocolate, porque se fez a diferença. Tudo o mais são cáries e folias desprovidas de sentido. Se os coelhos e os ovos não forem apresentados às crianças como portadores de uma mensagem e enquanto símbolos (eufemísticos) da obra de um Deus que está presente e é amigo, eles tornar-se-ão contraproducentes, porque apenas distrairão o seu imaginário daquele que é o único significado da presente quadra: Amar como Jesus amou.

sexta-feira, março 30, 2007

Artigo de Opinião: Aristides, o “Grande Português”



O vencedor do concurso “Grandes Portugueses” (da RTP) é, para mim, claríssimo (e não estou a falar de Salazar), bem como o verdadeiro sentido e valor do voto nacional. Esqueçamos, por ora, a votação nos dois primeiros no pódio (Salazar e Cunhal), fruto de outras quezílias e portadora de outro tipo de mensagem.

Como seria de esperar, os portugueses colocaram o escol mais representativo do seu património histórico nos 10 primeiros lugares. Símbolos de um passado comum que nos identifica e agrega enquanto povo, depositários do que melhor Portugal tem sido enquanto nação, os 7 últimos finalistas preenchem o espaço que lhes era devido e que todos lhes reservavam à partida. A História fala por si, nem eles precisavam de "defensores" (e quão maus alguns deles!)

Mas eis que surge o 3º classificado, aquele que aponto como o vencedor inequívoco deste concurso. E porquê? Comecemos por recordar que, antes do programa, certamente apenas uma minoria dos portugueses se encontrava familiarizada com a figura de Aristides de Sousa Mendes. Tratava-se quase tão só de mais um capítulo na análise da História do Estado Novo, essencialmente abordado pelos especialistas. Contudo, esta série de debates e a passagem de uma biografia magistralmente apresentada por José Miguel Júdice, deu a conhecer aos portugueses um ilustríssimo anónimo que sem dúvida os cativou. Se atentarmos nas percentagens (ver no fim do artigo), verificamos que existem dois claros fossos nas votações, o primeiro entre Salazar e os demais, o segundo entre os 4 primeiros e os demais. Ficando em 3º (com 13%), Aristides fica ainda à frente do próprio D. Afonso Henriques (12,4%), deixando depois a léguas as vastíssimas glórias da nação. Ora isto não é por acaso.

Os muitos que votaram no diplomata Aristides de Sousa Mendes por certo reconhecem o alto valor dos restantes candidatos, personagens que povoam o imaginário e a alma de qualquer português. Contudo, não embarcando em salazares e cunhais, destinaram o seu apreço não a um líder astuto, não a um aventureiro valente ou a um poeta divinamente inspirado. Elegeram, sim, um Exemplo de Vida, e é isso que a memória de Aristides nos sugere. Homem esforçado, recto, honesto, sereno, humilde, generoso, amigo, ele é a imagem do cristão cumpridor, que, de resto, fazia questão de ser. Até nos seus vícios a maioria de nós se pode rever, numa certa cedência aos pequenos mimos que a instrução nos dá a conhecer e o dinheiro ajuda a conquistar. Mas foi um homem que, a determinado momento da vida, se vê confrontado consigo próprio e com uma consciência lavrada no culto do amor ao próximo. Pai, extremoso e empenhado, de uma família numerosa, não pôde condescender com o paradoxo último que, para qualquer um de nós, constitui a bestialização indiscriminada de seres instruídos e civilizados, como era o caso das muitas famílias e individualidades que se lhe deparavam em fuga da perseguição nazi.

Consciente de todos os riscos em que incorria, Aristides tomou uma opção: salvar quantos pudesse, passando inúmeros vistos à revelia das ordens que tinha. Nunca procurou desculpar ou desvalorizar a sua falta como profissional, assumindo sempre a sua desobediência. É também do caso deste homem que se extrai o mais triste defeito do Dr. Salazar (que custou muitas vidas): a sua teimosia orgulhosa. Nunca condescendeu às várias cartas recebidas, apelando à situação gravosa de toda a numerosa família de Aristides, algumas enviadas pelo próprio e largos anos após o episódio julgado. Sereno e sempre digno, Aristides foi acatando o desprezo dado aos seus sentidos apelos, apenas repetidos face à situação em que via os filhos. De igual modo, serena e digna foi finalmente a sua morte.

É, por isso, fácil de entender a predilecção de tantos portugueses por este "anónimo" agora conhecido. Aparte as doutrinas, regulamentos, hierarquias ou conveniências, eis o exemplo de um dos muitos casos pessoais em que foi preciso agir de acordo com o coração, prevalecendo o desprendimento militante em prol do outro (próprio de quem vive a Fé nos momentos de provação) sobre o apego a uma existência cuidadosa (próprio de quem vive ciosamente esta vida).

Portanto, quer pela fama recém adquirida, quer pela lição de vida que constitui, o verdadeiro voto dos portugueses foi sem dúvida este, na medida em que não está refém da competição absurda ou das quezílias ideológicas convertidas em votos para Salazar ou Cunhal. Excluindo, pois, estes dois, o facto de Aristides ser destacado de entre os demais vultos, revela a antiga e actual expressão do sentimentalismo português: a doce condescendência perante a vulnerabilidade do semelhante.

Comentando, por outro lado, a retumbante vitória de Salazar (41%)… pior ainda que desatar aos gritos, como fez a Drª Odete Santos em directo, seria desvalorizar a expressividade deste voto. Também ele comporta uma mensagem que importa reter. Por certo a maioria dos votantes em Salazar não subscreveria, com esse voto, o retorno das antigas práticas e pontos de vista, ou não votariam dessa forma. Mas, conscientes de que esse voto não comporta ameaça para as instituições democráticas, assinalam um protesto. E como? Recorrendo à memória colectiva, recordam-se os portugueses das inegáveis qualidades intelectuais e profissionais do Dr. Salazar. A auto-disciplina, a coerência, o despojamento, igual empenho em receber ou dar ordens, rigor, perfeccionismo, persistência, etc., são as características que naturalmente fariam de Salazar um funcionário modelo fosse em que regime fosse e ocupasse o cargo que ocupasse. Como é evidente, é esse o carisma de que a figura de Salazar hoje beneficia na tal memória colectiva. É a atitude, é a autoridade (que lhe conferiu a sua austeridade e frugalidade) que paira ainda forte no imaginário de muitos portugueses. Ora, num momento em que é regra desancar na classe política actual, classificando-a como interesseira, corrupta, eleita mais por abstenção que por devoção, natural será que se destaque o modelo oposto de se estar na política, ou seja, o da Causa Pública. Salazar, como figura histórica e passada que é, encarna esse papel, pelo menos nesse imaginário.

Concluindo, esta votação nada tem a ver com “saudades do Passado” ou “tentativas de branquear o fascismo”, tratando-se tão só (ou tanto) de um sinal dos tempos, um protesto sincero, um desabafo desassombrado que merece séria reflexão por parte das classes dirigentes. Não é o sangue e o despotismo que se pede, mas sim a honestidade e o sentido do dever que se exige. Quanto aos brados alarmistas face a esta “vitória”, evite-se credita-la na acção de uma qualquer “extrema-direita florescente”. Tal, seria colocar holofotes no sítio errado e potenciar protagonismos indesejados. É preciso serenidade e lucidez. Sigamos, pois, o exemplo de Aristides de Sousa Mendes, esse grande português.

(1º António de Oliveira Salazar: 41,0% - 2º Álvaro Cunhal: 19,1% - 3º Aristides de Sousa Mendes: 13,0% - 4º D. Afonso Henriques: 12,4% - 5º Luís de Camões: 4,0% - 6º D. João II: 3,0% - 7º Infante D. Henrique: 2,7% - 8º Fernando Pessoa : 2,4% - 9º Marquês de Pombal: 1,7% - 10º Vasco da Gama: 0,7% - Nº total de votos válidos recebidos: 159.245 - Nº total de chamadas recebidas: 214.972)

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Artigo de Opinião: Recordando Oliveira Marques


Quem são os “alfacinhas”?

Faleceu no passado dia 23 de Janeiro, aos 73 anos, o professor António de Oliveira Marques. Historiador de renome, foi considerado um dos maiores especialistas na investigação da Idade Média, área na qual se tornou uma referência incontornável, pela obra construída, pela relação de proximidade que sempre manteve com os seus discípulos. Foi responsável pela criação de gerações de investigadores, inspirados no seu rigor, no seu exemplo de persistência e imparcialidade.

Integrando uma geração de profissionais durante a vigência do Estado Novo, Oliveira Marques soube destacar-se do excessivo conservadorismo que então emanava dos círculos universitários, alinhando com os parâmetros evolutivos da historiografia europeia. Foi, por isso, acolhido como um exemplo e uma referência pelas novas gerações de historiadores. Acabaria, contudo, por ser afastado do ensino, quando resolve tomar parte numa greve estudantil contra o regime, em 1962. Vê-se então na necessidade de sair do país, em busca de condições para prosseguir o seu trabalho. Em 1965 começa a leccionar nos Estados Unidos da América, passando por várias universidades como conferencista e mesmo como catedrático. Só em 1970 regressaria a Portugal, no entanto, apenas retoma o ensino universitário após a revolução de 1974. É então que se torna numa presença constante, quer como director da Biblioteca Nacional de Lisboa, quer depois no meio académico, ao qual retorna enquanto professor catedrático da recém fundada Universidade Nova de Lisboa. Aí, para além de prosseguir os seus estudos enquanto eminente medievalista, dedica-se agora ao estudo da contemporaneidade da História nacional, algo que o Estado Novo não apoiava e cujo ensino proibia. Enquanto presidente da comissão instaladora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), parte da Universidade Nova de Lisboa, abrirá caminho ao seu departamento de História, junto com investigadores como José Mattoso, Maria José Ferro Tavares ou Iria Gonçalves.

Foi na FCSH que tive o meu primeiro e único encontro com o mítico professor, que, face ao seu falecimento, gostaria de aqui recordar. Por meados de 2000, uns amigos perguntavam-me intrigados, já que era lisboeta e andava a estudar História, qual era a origem da expressão “alfacinha”. Pois eu não fazia a mais pequena ideia… A partir de “alface” todas as teorias eram possíveis. Talvez comessem muita alface e pronto! Numa aula de História de Portugal Medieval, confrontei o professor da cadeira com o enigma. Não me soube responder, no entanto, indicou-me quem talvez o soubesse: o professor Oliveira Marques.

Dirigi-me nesse mesmo dia até ao primeiro andar do Bloco1 (a faculdade, erigida num antigo quartel, é dividida em blocos, sendo este o das antigas cavalariças), onde o professor tinha o seu gabinete. Quando finalmente avistei a porta certa, esta abre-se, e de lá sai um homem altíssimo, algo curvado, com um sobretudo negro e todo abotoado que lhe cobre o corpo quase até aos pés. É um homem idoso, de cabelo branco, com bigode curto e aparado. Acabava de trancar o gabinete quando se virou para a saída. Tinha um olhar cansado e uma expressão algo combalida. Quando me viu ali, especado, perguntou delicadamente – Deseja alguma coisa? – Respondi que sim, que tinha uma dúvida que talvez ele pudesse esclarecer. Sem me deixar dizer mais, o professor esboçou um sorriso e disse – Venha, venha – Procurou novamente as chaves, abriu a porta do gabinete, acendeu as luzes – Tenha a bondade – convidou-me a entrar. Depois de fechar a porta ficou em pé diante de mim e agora sim – Então diga lá. O relato pormenorizado que faço, é para que se recorde o rigor na diligência com que este homem encarava até a menos prometedora conversa, ao fim de um dia de cansaço. A delicadeza no trato é, aliás, uma das características que mais oiço serem-lhe atribuídas.

Num breve diálogo de cerca de 10 minutos, o professor não me pôde dar certezas. Mencionou, contudo, um antigo hábito da Lisboa burguesa de fins do séc. XIX. Em pleno Romantismo, as famílias da classe média lisboeta tinham o costume, quase compulsivo, de, nas tardes solarengas de Domingo, se reunirem em almoçaradas pelas inúmeras hortas que povoavam os arredores da capital. Aí, acompanhando o tradicional peixe frito, parece que se consumiam quantidades absurdas de salada de alface. Ora, este hábito tornava-se tão peculiar quanto pitoresco, aos olhos de quem vinha de fora da cidade. Na verdade, o consumo da alface era então pouco difundido pelo resto do país, pelo que a moda foi algo estranhada e até caricaturada.

O professor chamou-me a atenção para a obra de Almeida Garret, Viagens na Minha Terra. Aí, o autor faz uma referência à tal alcunha lisboeta, que aponta para esse sentido, de certa forma pejorativo, do nome “alfacinha”. Com efeito, a determinada altura do capítulo VII, quando Garret vai descrevendo ao leitor as suas viagens por uma Europa luxuosa, acaba esquecendo-a por completo, quando recorda a sua chegada ao bem português “café do Cartaxo”. Aí, passa a dirigir-se aos leitores lisboetas, acusando o seu sedentarismo, a falta de curiosidade pelo que está para além da capital. Vamos ouvi-lo:

Fazem ideia do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, não saem, se não vêem mundo esta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre o Chiado, a rua do Oiro e o teatro de S. Carlos, como hão de alargar a esfera de seus conhecimentos, desenvolver o espírito, chegar à altura do século? Coroai-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos à dama nova, ide que não prestais para nada, meus queridos lisboetas… Viajar?... Qual viajar! Até a Cova da Piedade, quando muito, em dia que lá haja cavalinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço, todas as ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare. Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum.”

O professor, disfarçando o seu cansaço e sempre sem se mostrar enfadado, não arredou pé enquanto eu não dei a conversa por terminada. Guardarei na memória essa educação, afabilidade e delicadeza extremos, que tanto rareia entre os nossos homens de saber profundo. Bem-haja e Deus o tenha.

sábado, dezembro 23, 2006

De onde vem o “Almonda”?



Se há uma área interessante na análise histórica ou antropológica de uma terra, é a Toponímia, ou seja, o estudo da origem dos nomes próprios de lugares ou unidades paisagísticas. O nome de uma localidade, de um lago, de uma estrada, de um vale, de um rio, pode, por vezes, constituir a única pista que nos resta para a compreensão do seu passado. Ora, a região de Torres Novas é um destes casos, em que, não abundando os elementos documentais, nos limita muitas vezes a um simples nome ou a uma expressão designativa. Aqui, como no resto do país, somos confrontados com uma grande profusão de nomes, uns são-nos familiares, mas outros nem tanto. Este facto deve-se a um percurso, complexo e demorado, empreendido pela língua daqueles que se foram radicando no território que hoje é Portugal. A presença de populações ancestrais como os romanos, visigodos ou muçulmanos, foi tecendo, com o seu contributo, aquilo a que hoje se chama de Língua Portuguesa. Esta apresenta-se, em si mesma, como testemunha privilegiada desse percurso, uma fonte difícil mas concreta, que não deve ser descurada. Ora, Almonda, o nome pelo qual conhecemos o rio que serpenteia a cidade, bem como o presente jornal, concentra uma riqueza informativa que importa decifrar. É esse raciocínio que aqui proponho hoje.

Na sua obra Mosaicos Torrejanos, Artur Gonçalves abordava esta questão segundo duas perspectivas diferentes. A primeira, aquela tida como “mais aceitável”, segundo o autor, sugere uma construção estritamente latinizada, onde de “Almonda” se descobre o “Alius-Munda”. Uma alegada parecença deste rio com o Mondego (antigamente conhecido por Munda ou Monda) teria levado a um “empréstimo” do nome, passando o rio torrejano a designar-se também por “Munda”. Mas, existindo já um “Munda”, o de Coimbra, os romanos teriam adicionado o “Alius”, significando “outro”. Teríamos assim o “Aliusmunda” (ou o “Outro-Mondego”), de onde, por degeneração, resultaria o “Almonda”. A outra perspectiva apresentada por Artur Gonçalves é a de Pinho Leal, segundo o qual o nome do rio Almonda derivara do árabe Almodde (ou “Almude”, uma antiga medida para cereais), passando assim de Almodde para Almonda.

A perspectiva que pretendo sugerir terá um pouco destas duas, no entanto apontando um sentido diferente. De facto, parece clara uma participação da língua árabe no nome do rio. Se partirmos a palavra em dois, teremos duas palavras distintas, “Al” e “Monda”. Ora, analisando os traços mais comuns do árabe, encontramos repetidamente as palavras começadas por “Al”, como Algarve, Alviela, Alenquer, Alijó, alpendre, alface, etc., etc. Sabendo nós que “Al”, em árabe, não é mais que o nosso artigo definido “o” ou “a”, compreenderemos que, “Almonda”, na verdade, corresponderá simplesmente a “o monda”, o que afasta assim a improvável origem romana no “Alius” acima referido. Na verdade, os muçulmanos marcaram uma presença prolongada nesta região da Península Ibérica, pelo que, não será de admirar a sua intervenção também na transformação do nome do rio (assim como aconteceu com outros nomes, presentes da região). Resta-nos, assim, procurar o significado de “monda”. Analisando o léxico arábico, não encontramos nenhuma palavra que se assemelhe a esta, contudo, talvez não seja no árabe que deveremos fazer essa busca, mas antes, e agora sim, no latim, cá introduzido pelos romanos.

Se extrapolarmos a partir de “Monda”, poderemos encontrar no latim palavras como Mundus (limpo), ou Mundare/Mundo (limpar), Mundator (limpador), Munde (limpamente) e Munditia (limpeza), sendo que, o conceito latino empregue a esta família de palavras, tem equivalência no conceito de “purificação”, conforme o contexto em que é aplicado. Ora, todas estas palavras estarão na origem da expressão “Monda”, ainda actual, e que qualquer dicionário de Português explicará tratar-se não só do acto de arrancar as ervas nocivas às sementeiras, mas também de limpar ou purificar, como forma de expurgar de tudo o que é prejudicial. Ora, este conceito aplica-se na perfeição à natureza de um rio, especialmente se atentarmos nas características do Almonda. Este nasce dos canais cársicos subterrâneos, vindos da serra, ou seja, das entranhas puras da terra-mãe, o que, na senda de um imaginário pagão hispano-romano, lhe confere um carácter purificador, límpido, fertilizador e pleno de vida, que limpa e revitaliza as margens por onde corre.

Chegados a este ponto, temos já compreendida a origem do “Al” e do “Monda”. Falta explicar o porquê da combinação de um termo árabe com um termo latino na construção do nome do rio. No séc. IV d.C. findava o predomínio romano na Península Ibérica, dando lugar ao domínio visigodo durante os quatro séculos seguintes. A língua das populações locais era, assim, o produto de séculos de aculturação romana, onde o latim foi, de facto, sempre predominante. Mas, com o séc. VIII d.C. dá-se o início de uma longa ocupação de cinco séculos, desta vez preconizada pelos muçulmanos, vindos do Norte de África para a Ibéria. É aí que se dá um novo processo de aculturação das populações locais, verificando-se então o predomínio do árabe. Teríamos, assim, as populações cristãs, latinas, a viver sobre o domínio político e económico dos invasores muçulmanos, o que, no decorrer desses 5 séculos de ocupação, terá originado um forte impacto sobre a cultura e a língua locais. A esses cristãos que viviam sob o domínio muçulmano, damos o nome de Moçárabes. Ora, é junto destas populações moçárabes que haveremos de encontrar a origem do nome do Almonda.

Gente que falava o latim mas que convivia diariamente com a cultura arábica, foi absorvendo algumas características dessa língua, acabando por criar, ou recriar, todo um léxico que se consolidou e perdurou até aos nossos dias. Daí a já referida introdução do artigo definido árabe “al” (o/a), em nomes de origem latina. Disso são exemplo palavras como Alviela (que tendo origem no latim “venella”, precedido do artigo “Al”, significa “a veia” ou “o canal de água”), ou Alporão (que tendo origem no latim “planu”, precedido do artigo “al”, significa “o plano” ou “a planície”). Assim, al-monda poderá tão somente constituir um topónimo moçárabe, que, integrando o artigo definido árabe “al”, acrescenta uma das palavras latinas acima descritas (monda), com o significado simples e claro de “ a purificação” ou “o purificador”, ou ainda, numa observação menos poética do caso, “aquele que limpa”. Assim, o rio terá provavelmente sido nomeado pelas anteriores populações romanas, ainda pagãs, nome que, com a chegada dos muçulmanos, ter-se-á adaptado ao dialecto destes.

Portanto, tendo, como propunha Pinho Leal, uma influência árabe (“al”) e apesar de ser um termo com origem no latim (“monda”), reforço a ideia de que o Almonda não deverá o seu nome ao rio Mondego, quando mais não seja, em face da total ausência de similitude em dois rios de natureza tão díspar. Mais provável será que, o próprio nome Mondego, a ter origem romana, signifique exactamente o mesmo que o Almonda, usando desse conceito de limpeza e purificação, que traz a vida e a renovação por onde passa. Se for esse o motivo de comparação, então os rios serão de facto parecidos.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Artigo de Opinião - Este ano, um Pai Natal torrejano.



A questão é simples, isto não está fácil! Os preços aumentam, o orçamento diminui e, na mesma proporção, cresce aquele sentimento absurdo de que há um forte investimento a fazer…porque é Natal! Não é que seja mau receber presentes, ou especialmente ver a cara de quem recebe os nossos… Mas torna-se profundamente pernicioso este imenso esforço financeiro que se faz hoje em busca da prenda ideal. É que, geralmente, a “prenda ideal” comporta custos que vão muito além de uma gestão prudente dos nossos meios, e o problema assume proporções complicadas quando a prenda ideal se multiplica por umas quantas. Queremos dar uma lembrança a toda a gente, mas nem sempre é fácil encontrar algo suficientemente agradável a um preço comedido.

Pois, como em tempo de contenção todos procuramos alternativas que nos permitam manter a tradição, gostaria de partilhar convosco a minha ideia para este Natal. No passado dia 10 compareci à apresentação do “Mercado dos Sabores”, na alcaidaria do castelo. Uma iniciativa que visou a divulgação dos produtos tipicamente torrejanos, bem como uma abordagem sobre a importância da preservação dos métodos tradicionais de produção, que encerram um saber e um sabor únicos. Contando com a presença do famoso Chefe Silva, enalteceram-se o mel, o vinho, as ervas aromáticas, os licores, os doces, e, nas palavras do próprio Chefe, aquele que é o melhor de todos os azeites, o torrejano pois então! Mas, de facto, o enaltecimento daquilo que já sabemos ser bom, não foi o mais importante. A preservação da produção tradicional colide, não poucas vezes, com as metodologias e condicionantes que nos são externamente impostas, dificultando uma venda organizada destes produtos e debilitando assim a continuidade desses processos. Surgindo como essencial a promoção de uma legislação que salvaguarde também este tipo de património cultural, importa, antes de mais, reabilitar e valorizar estes conhecimentos, garantido que haja uma informação que passe e deixe marca entre os consumidores, de maneira a aumentar a procura.

Ora, neste pequeno mercado, encontrei pessoas que, para além de exporem para venda produtos raros, específicos e de uma extrema qualidade, fazem questão de encontrar fórmulas originais de apresentação dos mesmos, transformando o que poderia ser uma mera embalagem, numa espécie de bibelot de absoluto requinte, capaz de envergonhar as prateleiras de qualquer hipermercado. Os preços…tendo em conta o conjunto, são tudo menos excessivos, convidando ao investimento. Os caros leitores concebem outra oferta tão cheia de bom gosto como um delgado e colorido frasco de licor com o rótulo de “Torres Novas”? Ou um pote de mel ou de figos em calda de Torres Novas? Ou uma pequena cesta de vime torrejana a abarrotar de frutos secos torrejanos? Ou um pequeno pote da olaria torrejana com inscrições à nossa escolha e cheio de doce de frutos…torrejanos? Ou um pequeno saquinho bordado, e com a mensagem que quisermos, cheio de ervas aromáticas da nossa Serra? Ou uma bonita caixa de madeira com frascos de azeite torrejano? E o caro leitor sabe quanto gastaria com este tipo de lembranças? Decerto muito menos do que talvez pensa gastar este ano…!

O bom gosto passa essencialmente pelo amor que colocamos nas coisas e pelo facto da as criarmos a pensar em alguém. Daí que, este Natal, em que os tostões não abundam, seja talvez uma boa oportunidade para reanimar o lado mais puro desta tradição, descobrindo que o bom gosto, afinal, se descobre justamente na humildade da dedicação com que os nossos artesãos recriam e transformam a natureza. E eles, ao que tenho visto, estão abertos a sugestões e encomendas com originalidade. Neste Natal, aqui este “Pai-Natal” será definitivamente torrejano.


Para mais informações: Associação Nacional dos Produtores de Frutos Secos e Passados (em frente ao café Império); a loja de artesanato (nas traseiras do edifício do novo mercado); o CRIT (Centro de Reabilitação e Integração Torrejano) ou a Mercearia Nelito.

sábado, novembro 25, 2006

Júlio Dinis – um perscrutador de almas



No passado dia 14 de Novembro, terça-feira, celebraram-se 167 anos do nascimento de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que vulgarmente conhecemos como Júlio Dinis. Quis recordá-lo por ser o meu autor preferido e cujo génio insiste em permanecer quase que oculto sob o génio de Eça ou de Camilo. De facto, Júlio Dinis tem pouco destaque quando toca a celebrar a literatura portuguesa… Apesar da sua inquestionável importância, parece que a extrema leveza e naturalidade com que escreveu, nos deixa um subconsciente repleto de sensações e sentimentos que dispensam uma leitura frequente ou sequer a celebração da sua obra, ainda que paire sobre nós. A originalidade e a limpidez da sua escrita é tal que dispensa seguidores, é completa na sua unicidade, abrindo e fechando um ciclo próprio que, entretanto, vai sendo catalogado como “de transição” (entre o romantismo e o realismo). Mas recuemos…

Joaquim Gomes Coelho nascia a 14 de Novembro de 1839, na antiga Rua do Reguinho, no Porto. Filho de José Gomes Coelho, um médico-cirurgião de Ovar, e de Ana Constança Potter Pereira, de ascendência anglo-irlandesa, o pequeno Joaquim contava apenas 6 anos quando perdeu a mãe, vítima de tuberculose. Uma enfermidade que cedo haveria de perseguir a sua família e a ele próprio. O seu percurso escolar foi o habitual para um jovem membro da vitoriosa burguesia do pós-guerra civil. Lembremos que poucos anos antes se combatiam por todo o país as forças liberais, fiéis a D. Pedro e ao progressismo burguês, com as forças absolutistas, fiéis a D. Miguel e ao tradicionalismo do clero e da nobreza. Face à vitória dos primeiros, a família do pequeno Joaquim floresce no seu esplendor progressista, vincada pelo espírito científico positivista que ele próprio haveria de explorar no seu percurso académico. Tendo frequentado a escola primária de Miragaia, concluirá aos 14 anos o curso preparatório do liceu. Matricula-se então na Escola Politécnica do Porto de onde se transferiria logo depois para a Escola Médico-Cirúrgica na mesma cidade. Completando em 1861 o curso de medicina com alta classificação, é logo no ano a seguir convidado para o corpo docente desse mesmo estabelecimento de ensino, como demonstrador e lente substituto.

Joaquim contava então 23 anos e sofria já há 6 da doença que o consumiria, como à sua mãe e a outros seus dois irmãos 7 anos antes, a tuberculose. A luta que travou contra a debilidade persistente e galopante foi uma constante na sua curta existência. Vendo-se obrigado a interromper a carreira académica, optaria por abandonar a cidade para buscar na província ares mais salutares para a sua condição. Ruma então a Ovar, terra de seu pai, ao encontro da tia Rosa Zagalo Gomes Coelho, com a qual habitará por algum tempo. Debalde, não dando a doença mostras de recuo, parte para outras tentativas, buscando nova cura de ares na ilha da Madeira, onde esteve por duas vezes, bem como noutros pontos do país. Mas a sua sorte não haveria de mudar, acabando mesmo por sucumbir aos 32 anos, no Porto, cidade onde nascera.
Ora, até ao momento da ida forçada para a província, tinha já encetado a sua veia de poeta e romancista, datando de 1856 (ano em que sofreria os primeiros sintomas da tuberculose) as suas duas primeiras peças de teatro, “Bolo Quente” e “O Casamento de Condessa de Vila Maior”. Dois anos depois escrevia a sua primeira novela, “Justiça de Sua Majestade” (depois incluída na obra “Serões da Província”), contudo, apenas em 1860 se estrearia com o pseudónimo Júlio Dinis, quando publica uma série de poemas na revista portuense “A Grinalda”, referência do romantismo ao tempo. Os anos de 62 e 63 marcariam, a par do agravamento do seu estado de saúde, a produção e publicação das suas primeiras narrativas, “Os Novelos da Tia Filomena” e o “Espólio do Senhor Cipriano”, mas, desta feita, com novo pseudónimo, Diana de Aveleda, com o qual assinava algumas crónicas no “Diário do Porto”. A sua ida para Ovar, em 1863, marca um ponto de incremento na sua produção literária, escrevendo ou alinhavando romances e novelas que ia publicando através de folhetins no “Jornal do Porto”, como foi o caso de “As Pupilas do Senhor Reitor” (obra que seria apenas publicada completa em 67, depois de se ter descoberto a identidade do autor). No ano de 68 publicavam-se “A Morgadinha dos Canaviais” e “Uma Família Inglesa” e, em 1869, Joaquim parte para a Madeira, onde espera encontrar melhoras. É aí que publica “Serões da Província”, em 1870, seguindo-se então uma rápida contagem decrescente para a sua existência. Retorna definitivamente ao Porto em 71, onde inicia a revisão das provas para a publicação dos “Fidalgos da Casa Mourisca”, mas a morte abrevia-lhe a missão e abafa-lhe o génio, aos 32 anos, como anteriormente referido.

“Os Fidalgos da Casa Mourisca”, vista como a obra-prima de Júlio Dinis, publicada postumamente, em 1872, concentra em si todas experiências vividas pelo autor no contacto diário com a província. Júlio Dinis, mais que um médico, mais que um académico, foi um perscrutador na sensibilidade humana, um espectador atento da Vida em toda a sua dimensão, em Natureza, onde incluía o Homem e a partir da qual lhe avaliava o carácter. É toda essa obra o laboratório onde Júlio Dinis refina a sua percepção da essência do ser-se humano, combinando o perfil psicológico de pessoas reais que conhecera, e acabando vertendo-a como uma torrente de sentimentos sobre as personagens do seu derradeiro conto. Quem tenha lido “Os Fidalgos da Casa Mourisca” compreende o que quero dizer. Não há quem não encontre alguém ou a si próprio nas personagens que Dinis aí constrói. De resto, quem queira compreender o estado de espírito que fendia o Portugal da primeira metade de oitocentos, tem de ler esta obra. O autor revela não só um contacto próximo do espaço e das gentes do campo, presença constante na sua obra plena de reflexões descritivas, como um espírito carregado de optimismo e de uma Fé quase cega na bondade e na capacidade de perdoar e de amar dos homens. Para si não há homens maus e esse sentimento ele concretiza-o na inevitável remissão de todas as personagens que cria. A ira, a vingança, o rancor, a inveja, o orgulho, nunca levam de vencida o seu inverso pela pena deste romântico, sendo o perdão, a humildade e a reconciliação os valores mais altos que permanecem na mente do leitor após o fecho do livro. Era esse o espírito de Joaquim, era essa a sua natureza individual e foi esse o apelo que nos deixou.
Encontra-se sepultado no cemitério privado da Ordem Terceira de S. Francisco, em Agramonte - Porto.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Artigo de Opinião - A Hora de Acordar!



Aqui por perto, no passado dia 25 de Outubro, o Nabão invadia as casas ribeirinhas de Tomar, as suas famílias eram evacuadas e contabilizavam-se os prejuízos. Mas uma semana antes, o Entroncamento era assolado por um tornado que, encaminhando-se para a Barquinha, foi arrancando árvores, telhados, campas funerárias, arremessando objectos contra janelas e automóveis, derrubou uma grua e espalhou o pânico por 6 concelhos da região. Mas quem não tem reparado nos Verões sempre mais e mais quentes? Quem não tem reparado na inconstância de um tempo que tão depressa nos afoga em água como nos mata o gado à sede e à fome? Ainda assim, Portugal não está localizado numa daquelas zonas do globo em que as condições atmosféricas se apresentam com maior rigor, mantendo este clima ameno que nos permitiu uma espécie de calendarização meteorológica durante tanto tempo. Mas esse tempo já lá vai, claramente, e as evidências estão ao alcance da compreensão de qualquer um.



Por vezes, é quando as coisas nos tocam mais de perto que se abrem as consciências e a realidade se torna evidente aos olhos de todos. Mas será que foi desta? Tornados a rebentar com os cemitérios a norte do distrito de Santarém?!? Chuvadas que transformam ribeiros em rios e rios em torrentes de lama?! Verões acima dos 40º e que transformam os mesmos rios em pestilentas fossas de águas paradas?! Sempre se registaram anos de maior ou menor rigor climático, mas as duas últimas décadas apontam uma escalada constante na óbvia desordem do tempo.

Aqui há umas semanas atrás fui ao cinema ver o “filme” “Uma Verdade Inconveniente”, do realizador americano Davis Guggenheim. Trata-se de um documentário sobre os esforços que Al Gore (o candidato do Partido Democrata derrotado por George Bush nas eleições americanas de 2000) tem vindo a fazer ao longo de anos, afim de sensibilizar o Mundo para os perigos ambientais da conduta do Homem. A partir de uma série de gráficos, imagens, e apoiado no trabalho sistemático e actual dos mais consagrados cientistas do Mundo, Al Gore adverte para o facto de apenas dispormos de 10 anos para inverter a marcha suicida que hoje mantemos. Tudo se centra em torno da insistência na utilização de combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás), que, mais do que nunca, vai contribuindo para o aquecimento global e para o degelo das calotes glaciares dos pólos. Ora, este degelo, para além de aumentar progressivamente o nível do mar, altera a sua temperatura e corrompe o seu equilíbrio salínico. A partir daqui, as inundações, as ondas de calor, tempestades mais agressivas, tornados onde não existiam e a morte causada por todos estes factores combinados, encontram-se no horizonte de todo o Mundo, sem excepções.

Os 10 anos referidos por Al Gore reportam-se ao período em que uma radical inversão nas opções políticas e individuais de consumo, possa evitar o ponto de irreversibilidade neste processo de auto-destruição onde caminhamos. Assim, para além do forte desejo de que todos cheguem a ver este documentário, deixo algumas medidas lá sugeridas, acções simples do dia a dia que podem fazer a diferença:

1-Substituir as vulgares lâmpadas incandescentes pelas lâmpadas fluorescentes, consumindo menos 60% de energia. Poupa na conta mensal.

2-Manter os filtros dos aparelhos de ar condicionado limpos (a sua sujidade obriga ao aumento de esforço energético, gastando e custando mais.)

3-Optar por chuveiros de baixa pressão, consumindo menos água e menos energia no seu aquecimento.

4-Optar por banhos mornos em vez de quentes, assim como na lavagem da roupa, evitando as programações de elevadas temperaturas.

5-Ao comprar novos electrodomésticos, opte por aparelhos de baixo consumo, peça o conselho do vendedor.


6-Sempre que possível, abdique do uso das máquinas de lavar loiça ou de secar roupa. Ao utiliza-las, certifique-se que o faz quando estão devidamente cheias.

7-Desligue os aparelhos de som e TV na fonte. Quando ao desligar se mantém acesa a luz vermelha, o aparelho está em stand-by, não desligado, pelo que consome na mesma.

8-Fazer da reciclagem um acto natural diário, separando os diferentes tipos de lixo. Ao comprar, prefira produtos reciclados.

9-Procure isolar a sua casa, de forma a que esta mantenha a temperatura ambiente com o mínimo de fugas, que obrigam a um consumo energético extra para compensar essas fugas.

10-Plante árvores sempre que tal esteja ao seu alcance, na sua propriedade, quintal, etc. Uma árvore consome cerca de uma tonelada de Dióxido de Carbono durante a sua vida, para além disso, a sua sombra, junto da casa, ajuda a manter a temperatura, diminuindo gastos na refrigeração do lar.

11-Prefira a compra de produtos agrícolas frescos locais, não contribuindo para o consumo energético exigido pelo transporte e acondicionamento refrigerado desses produtos, em camiões e em lojas.

12-Evite andar de automóvel próprio, preferindo os transportes públicos, caminhando ou movendo-se em bicicleta, sempre que possível.

13-Mantenha o seu automóvel em condições, de maneira a que não sejam lançados fumos para a atmosfera para além do necessário.


Para mais informações, consultar o site - http://www.climatecrisis.net/

sexta-feira, outubro 13, 2006

Escola Prática de Cavalaria (III)



A abrupta revolução no funcionamento da nossa cavalaria, que referíamos na semana passada, acabaria fomentando um forte dinamismo na área da formação técnica dos quadros de oficiais e sargentos, que passam a frequentar cursos sucessivos (orientados por especialistas ingleses), que por sua vez estariam incumbidos de dar formação às restantes patentes.



Tendo em conta a constante actualização destes equipamentos e a rapidez com que se tornavam obsoletos, estendem-se novas relações e parecerias militares, afim de suprir a ausência de uma indústria de guerra nacional. Nesse sentido, a França e os Estados Unidos surgem como parceiros privilegiados na aquisição de equipamentos e especializações. A vinda dos carros de combate americanos “M 47”, em 1952, dão testemunho dessas relações, cabendo então à Escola a direcção de instrução no novo Centro de Instrução de Blindados.



Já então, a dinâmica e o espaço exigido por todo este processo obrigava a uma dispersão da escola por outras localidades e pólos de instrução e armazenamento (Entroncamento, Santa Margarida), que providenciassem o espaço e a mobilidade necessária de efectivos e equipamentos. A estruturação da NATO, da qual Portugal foi membro fundador, obriga-nos a cumprir metas e a observar uma estratégia comum, o que leva à reestruturação da própria Escola Prática de Cavalaria, que, em 1957, acabaria sendo transferida de Torres Novas para Santarém, onde conheceria grande incremento.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Escola Prática de Cavalaria (II)



Recordávamos, na semana anterior, o desfasamento notório entre o processo evolutivo da cavalaria portuguesa e o das suas congéneres europeias. Enquanto, no período que medeia as duas grandes guerras, países como Alemanha, França ou Inglaterra vão trocando a cavalaria tradicional, ligada ao cavalo e ao manuseamento da espada, pelo carro blindado e as armas automáticas, Portugal permanece quase totalmente alheio ao ímpeto da corrida às armas, que então se verificava, e que haveria de resultar na catástrofe da II Guerra Mundial.



Não obstante, o ano de 1943 (a data de ambas as revistas cujas fotos aqui se apresentam) acabaria por trazer um ponto de viragem nesta situação. Na verdade, o posicionamento então tomado pelo lado dos Aliados, abdicando-se na neutralidade inicial, acabaria por beneficiar as forças armadas portuguesas, na medida em que as novas relações preferenciais, especialmente com Inglaterra, acabariam por resultar na aquisição de novo material bélico, bem como da respectiva instrução no seu manuseamento.



Constituem-se então os primeiros pelotões providos de metralhadoras anti-aéreas, canhões anti-carro, motos, camiões e viaturas “Bren”. Seria o início de uma era de sucessivos reforços, reformas e actualizações constantes. De ano para ano novos equipamentos dão entrada na Escola: auto-metralhadoras “Humber”, em 1944; auto-blindados “White”, em 1946; carros de combate “Valentine” e “Centauro”, em 1948.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Escola Prática de Cavalaria.



No próximo dia 24 deste mês de Setembro, comemorar-se-ia o 93º aniversário de José Carreira, 1º Sargento da Escola Prática de Cavalaria de Torres Novas, meu saudoso avô (na foto acima).

A efeméride pessoal servirá de pretexto para a divulgação de algum raro património fotográfico que ele nos deixou, fazendo-o acompanhar por uma breve resenha da História da Escola Prática.

Em duas revistas, editadas no auge da II Guerra Mundial, concentra-se uma série de fotografias, algumas das quais únicas, que ilustram duas reportagens então feitas sobre a Escola. A primeira, com o título “Uma tarde na escola de cavalaria de Torres Novas”, consta da Deutsche Reiterhefte - “revista da cavalaria alemã” - editada em Berlim, a 26 de Março de 1943 e onde se podem encontrar 9 fotografias (capa e contracapa incluídas) tiradas no decorrer de exercícios da cavalaria, levados a cabo em diferentes pontos da cidade. A segunda, trata-se de uma reportagem constante no 2º número de Abril, também do ano de 1943, da revista portuguesa Sinal. Aqui se encontram 10 fotografias também referentes a exercícios levados a cabo na cidade.

Tendo a Escola Prática de Cavalaria atingido um estatuto de referência a nível nacional (e não só), importa compreender a sua origem no seio das próprias forças armadas. Recuemos pois.

Poderemos talvez apontar o convulsivo período das invasões francesas, entre 1807 e 1814, como aquele que viria a evidenciar a necessidade de proceder à implementação de umas forças armadas propriamente ditas. É então que se procedem aos primeiros ensaios afim de criar focos de formação para infantaria e cavalaria. Trabalho penoso e por muito tempo sujeito aos desmandos das guerras entre liberais e absolutistas, sendo que apenas com o apaziguamento posterior se abre caminho a uma organização militar.

É então que pontualmente se criam pequenos e efémeros “depósitos de cavalaria” pelo país, centros de formação que procuram constituir quadros locais. Seria apenas na década de 70 que o forte incremento industrializador, aliado à urgência de ocupar militarmente as possessões coloniais (num tempo em que as várias potências europeias cobiçavam o ultramar português), que surge a necessidade de um considerável e decisivo reforço na reorganização militar do país. É então que surge a ideia de criar um verdadeiro pólo de instrução para as suas principais ordens, a infantaria e a cavalaria. No entanto, a ideia apenas se virá a concretizar cerca de uma década depois, criando-se então em Mafra a “Escola Prática de Infantaria e Cavalaria”, corria o ano de 1887.

Dado o impulso, e agravando-se a principal fonte motivadora para a proliferação militar, ou seja, a defesa das colónias, cedo o projecto de Mafra se revela insuficiente, quer pela falta de espaço, quer pela crescente necessidade de especialização. É então extinta a escola de Mafra, em 1890, para que nesse mesmo ano, a 26 de Abril, se decrete a criação de uma “Escola Prática de Cavalaria”, com sede em Vila Viçosa. Aí e ao longo de 12 anos floresce a cavalaria portuguesa. Daí e nesse tempo partem as expedições de Mouzinho de Albuquerque para Moçambique, logrando a manutenção da soberania portuguesa por essas terras longínquas. Enquanto isso, o país vive conturbações várias. É desse tempo o custoso processo do Ultimato Inglês, em que Inglaterra ameaça Portugal de guerra caso este não abrisse mão de certas possessões africanas. Também então o Estado declarava a bancarrota, face às exorbitantes dívidas acumuladas à banca nacional e europeia.

Seria no decorrer desses tempos difíceis que a 30 de Janeiro de 1902, Torres Novas recebe definitivamente a Escola Prática de Cavalaria, onde dada a maior proximidade dos centros de decisão do país, adquire maior relevância militar. Oito anos passados, dá-se a Revolução Republicana, mudam-se as chefias e criam-se novas fidelidades. A escola perde então a sua influência, para além do estatuto, vendo o seu nome reduzido a mera “Escola de Equitação” em 1912.

Cinco anos depois, 1917 marca a participação do corpo expedicionário português na 1ª Grande Guerra Mundial, que havia eclodido 3 anos antes. A cavalaria parte então de Torres Novas com funções diversas. Rumo à guerra europeia e mantendo também funções em África, este foi um período de grande exigência e dinamismo para a escola, na formação de quadros e no envio de militares, acabando assim por ver o seu prestigio devolvido. É sob o comando do então coronel Óscar Carmona que, em 1925, a escola recebe novo nome, mais adequado ao seu estatuto, a “Escola de Aplicação de Cavalaria”.

Ora, entre o fim da Iª e o início da IIª Guerra Mundial, enquanto a cavalaria das grandes potências europeias se reformava no essencial, trocando o cavalo pelo carro blindado e pelas armas automáticas, a escola (não obstante a chegada de alguns veículos blindados – sem o devido acompanhamento de instrução específica), permaneceu fiel ao modelo tradicional, mais fortemente ligada ao cavalo e ao manuseamento da espada, o que acabaria por, na prática, tornar obsoleta uma cavalaria que acabaria não tomando parte activa na IIª Grande Guerra. (continua)

sexta-feira, julho 28, 2006

Artigo de Opinião - Maravilhas da Participação Cívica -



No passado Domingo, dia 23, tive oportunidade de ir até Óbidos, onde se dava o encerramento do V Mercado Medieval. Desde 2002 que esta autarquia vem apostando neste evento, que, no seu quinto ano de organização, conta já com uns quantos milhares de visitantes que vêm de todos os lados, engarrafando os acessos e atestando os estacionamentos. Já havia visitado a Feira Medieval de Montemor-o-Novo, bem como a de Castro Marim, e, cada uma a seu jeito, justifica sem dúvida a fidelização de um público crescente, que marca presença anual.

Naturalmente que, no caso das autarquias promotoras, este evento tem de constar no programa orçamental antes mesmo de se pensar o programa cultural correspondente. Na verdade, os custos envolvidos obrigam a que se encare este tipo de evento como uma aposta estratégica concreta e objectiva quer na promoção da localidade e no fomento ao turismo, quer na dinamização do comércio e participação activa da comunidade local. À partida são só vantagens. Vem gente de fora que começa logo por encher os parquímetros, que paga depois bilhete para entrar no recinto, que enche os restaurantes, cafés e tabernas, que anima o comércio de artesanato local, que compra em todas as tasquinhas montadas pelos populares… E quanto mais for oferecido ao transeunte, mais dinheiro este por lá larga. Não sei até que ponto a autarquia reavê o seu investimento, tendo em conta as despesas logísticas para acomodar o mercado e mascarar a vila, as despesas de contratação dos grupos de animação especializados, e, quando mais não seja, o desmontar e as limpezas finais. No entanto, e tendo em conta que se trata de um investimento cultural e turístico, se a população e o comércio local ficarem a ganhar, então a autarquia cumpriu com a sua obrigação e esse é o seu melhor lucro.



Nenhuma descrição, por resumida que se tente, poderá dar uma verdadeira ideia da variedade de atracções que por lá se vê. De artesãos vários (marceneiros, ceramistas, latoeiros, ourives, boticários, tecelões, etc.), passando por cartomantes, escribas, comerciantes estrangeiros de produtos árabes, vendedores de inúmeros tipos de ervas para chá, frutos secos, doces, sangria, limonada, de tudo se vê pela vila fora, antes mesmo de se entrar no recinto do mercado, dentro do castelo. As várias casas de comércio, abertas durante todo o ano, associam-se ao espírito reinante mascarando o seu exterior, multiplicam-se os figurantes que se passeiam pela vila, vestidos a rigor com trajes da época, são nada mais nada menos que os habitantes de Óbidos aderindo à festa. Ao centro do largo da Igreja principal encontra-se um pequeno estábulo com animais de quinta (principal atracção para os mais pequenos), bem como uma pequena arena de areia onde se organizam jogos tradicionais e fazem pequenas peças de teatro. Em volta dominam os grupos e associações locais, dispondo as suas tascas de comes e bebes, bem como as bancas de venda de artesanato.



Quando se entra no castelo, depois de pagar 3 euros por pessoa, temos acesso a um mundo completamente transformado. Aí, para além das múltiplas e variadíssimas bancas de artesanato, bem como das casas de pasto onde se come carne retirada de uma grande peça a assar num espeto à nossa frente, encontramos vários grupos de percussão e gaitas de foles tocando incessantemente, bem como a atracção principal, ou seja, a actividade dos referidos grupos de animação contratados. Trazendo material próprio, estes profissionais do “Recuo” montam tendas de campanha medievais, montam estruturas de apoio para jogos e teatralizações que constem do programa a cumprir, fazem desfiles com músicos e instrumentos da época, com cavalos, com soldados, pajens, damas e nobres todos trajados a rigor, sem esquecer as encenações de doentes com peste, duelos, o jogo da Távola a cavalo, etc, etc, etc… Em dias de semana, as festas decorrem entre as 17 e as 24 horas, ao fim-de-semana entre as 12 e as 24 horas.



Vamos então falar de Torres Novas. A um torrejano que visite este tipo de evento, não será difícil começar a projectar algo do género no castelo da sua cidade. Imagina uma série de bancas que partem da Praça 5 de Outubro, subindo pela ladeira, em ambos os lados, em direcção ao castelo. Imagina o adro de Stª Maria com os muros ponteados por tochas, onde se façam jogos tradicionais de dia e teatro à noite, imagina as escadas do castelo cheias de gente que sobe e desce do seu interior. Lá dentro os cortejos, as tendas, os duelos, os cavalos, os malabaristas, os archotes nas muralhas, nas torres, alumiando a noite. No túnel, pouco iluminado, o acesso às traseiras do castelo, onde mais bancas de comércio medieval se podem encontrar, as videntes, os “leprosos”, os frades, uma série de forcas montadas com bonecos pendurados… Não é nada difícil imaginar um castelo vivo em Torres Novas.

Não está em causa se é um recinto mais ou menos agradável, ou se a sua envolvência é mais ou menos propícia. Na verdade, o castelo de Torres Novas tem todas as condições para se tornar um perfeito anfitrião e da sua envolvência não se dirá menos. O que está de facto em causa é o lado humano de tal evento. Até que ponto os torrejanos estariam dispostos a enfiar uns farrapos e ir gozar um verdadeiro Carnaval? Até que ponto as associações locais estariam dispostas a marcar presença e a submeter-se ao espírito do evento? Até que ponto os funcionários da Câmara estariam dispostos a ter uma participação activa, independentemente de integrarem ou não o departamento cultural? Até que ponto os artesãos da terra estariam dispostos a aplicar a sua arte ao tema e a fazer demonstrações durante dois ou três dias perante os transeuntes? Até que ponto os comerciantes interiorizariam o espírito do evento e adaptariam os seus estabelecimentos? Até que ponto os estabelecimentos de ensino participariam nesta festa? Numa pequena localidade como Óbidos, a participação cívica tem feito alguns pequenos milagres…



Não tenho dúvidas de que este tipo de organização não se completa com uma tentativa apenas. Para além de carecer de uma certa intencionalidade estratégica, que se converta em financiamento e num determinado esforço de organização, o seu aperfeiçoamento vem da persistência e da experiência adquirida, dos contactos recolhidos, dos orçamentos conhecidos e das impressões auscultadas de um ano para o outro. Tudo, por forma a criar mais um evento, mais uma atracção, mais uma razão para viver a cultura e a própria cidade. Acima de tudo, uma forma de resgatar o castelo da sua imensa solidão.

sexta-feira, julho 07, 2006

- A partida de Vasco da Gama -



No próximo dia 8 de Julho assinalar-se-ão 509 anos da partida de Vasco da Gama e sua armada rumo à Índia. Um capítulo da nossa História pleno de pormenores, alguns dos quais aqui evocaremos, procurando visualizar esse momento repetido, onde a coragem se confunde com a lágrima e o sentido do dever com a incerteza de um retorno.


Vasco da Gama provém de uma família nobre. Seu pai, Estêvão da Gama havia prestado relevantes serviços ao reino, não só combatendo no Norte de África, mas muito especialmente em actividades de espionagem no seio da antiga Anafé (Casablanca-Marrocos). Aí, disfarçado de vendedor de figos, buscava informações sobre a real capacidade defensiva da cidade, e o seu sucesso foi tal que D. João II logo se prontificou a recompensar tal argúcia e bravura, nomeando-o alcaide de Sines. Terá sido provavelmente aí que nasceu o jovem Vasco, por volta de 1468/69, o segundo de quatro irmãos. O seu local de nascimento encontra-se envolto em alguma polémica, havendo quem lhe aponte Évora ou Santarém, respectivamente os locais de nascimento dos pais, como sua cidade natal. Seja como for, denota-se uma clara afectuosidade de sua parte em relação a Sines. Os esforços que mais tarde, no regresso da sua primeira viagem à Índia, Vasco da Gama levará a cabo de maneira a recuperar a alcaidaria de seu pai, onde quereria fixar a sua família, denotam esse apreço à então vila de Sines. Em fins do séc. XV, a vila tratava-se de uma pequena povoação piscatória, que não chegava aos 200 habitantes, mas que, no entanto, se distinguia pela posição estratégica que ocupava no contacto com o mar, cabendo mesmo ao seu alcaide o título de “Alcaide do mar”. Assim, terá sido nesse lugar que, já antes de se tornar alcaide, Estêvão da Gama terá exercido a prática da navegação, envolvendo provavelmente o filho na sua actividade. Conhecendo-se muito pouco da vida de Vasco da Gama, anteriormente a 1496, é esta preferência e este apego à sua terra de família que nos permite compreender a sua vocação e bases científicas. Uma prática náutica vivida desde a adolescência, no decorrer da qual adquiriu as necessárias noções de Matemática, Cosmografia, Astronomia, bem como o manuseamento de instrumentos náuticos como a bússola ou o astrolábio.



Vasco da Gama era fidalgo da casa de real, por isso conheceu e lidou desde muito cedo com D. Manuel I. Ora, em 1495 dá-se a morte de D. João II, falecendo sem que deixasse um herdeiro legítimo que ocupasse o trono. É, por isso, o seu primo D. Manuel que lhe sucede, retomando muitas das políticas e projectos desenvolvidos por D. João. Entre eles, encontrava-se a concretização da chegada à Índia por mar, projecto acalentado e cuidadosamente preparado por D. João II, que acabava sem tempo para o realizar. Pois essa é uma empresa à qual D. Manuel dará imediato seguimento, convocando Vasco da Gama para preparar a expedição logo a partir de 1496, cabendo-lhe ainda a sua liderança. Estando então em Montemor-o-Novo, D. Manuel manda-o chamar, para que se apresentasse com seus capitães em audiência pública. Aí, diante de alguns notáveis do reino, D. Manuel passou à leitura das suas razões e objectivos, elogiando e depositando a sua confiança em Vasco da Gama. Posto isto, e estando ajoelhado, apresentam-lhe uma bandeira de seda com uma cruz ao meio, das da Ordem de Cristo (da qual D. Manuel era administrador), perante a qual Vasco da Gama se compromete a atingir o seu objectivo, desfraldando-a perante todos os povos que avistasse, defendendo-a com a vida e trazendo-a de volta no seu regresso vitorioso. Posto isto, foi-lhe entregue a bandeira, dizendo-lhe D. Manuel que decidisse o que levar, e encarregando seus oficiais de providenciarem tudo quando fosse requerido por Vasco da Gama, incluindo os mestres e pilotos que entendesse.

A par do apetrechamento dos navios, que eram três (S. Gabriel, S. Rafael e S. Miguel), Vasco da Gama pediu aos seus marinheiros que procurassem aprender ofícios enquanto não embarcassem, pagando-lhes para tal um excedente do soldo base. Assim se ganharam carpinteiros, cordoeiros, calafates, ferreiros e torneiros que garantiriam a manutenção das embarcações no decorrer da viagem. Na véspera da partida, estando já os navios prontos e ancorados no Restelo, procederam os capitães a uma vigília na Igreja de Nossa Srª da Vocação de Belém (que aí o Infante D. Henrique havia mandado erguer. Hoje, o Mosteiro dos Jerónimos), onde receberam os sacramentos.

A partida decorreria então a 8 de Julho, um Sábado consagrado a Nossa Senhora, pelo que, aliando a natureza votiva deste templo ao propósito de se ver partir a armada, muita gente acorreu ao Restelo. Após a realização de missa solene, prosseguiu-se uma grande procissão que deveria acompanhar os mareantes até junto dos batéis. Assim, de tochas na mão, caminhando Vasco da Gama com os seus à frente, junto com os sacerdotes, sucedia-lhes a imensa população que ia repetindo a ladainha à frente cantada. Chegados à beira rio, todos se ajoelham e silenciam. O sacerdote faz a confissão geral e absolve os mareantes, que podiam perecer na viagem. Entrando nos batéis espalhados pela praia, cerca de 150 homens rumam às pesadas embarcações ancoradas no Tejo, por elas se distribuindo. Seguem-se os Adeus, as lágrimas, o contentamento de uns, a apreensão de outros. Entre quem parte e quem vê partir multiplicam-se as reacções. O sentimento de perda e fatalismo mistura-se com exortações de sucesso e glória. Enquanto se reconhecem os rostos prolongam-se as emoções, à medida que aumentava a distância. Consta que D. Manuel os seguiu ainda no seu batel, dando-lhes palavras de alento e coragem. Com as velas plenamente soltas e à mercê do vento do Norte, os navios aceleram e el-Rei fica para trás, sempre a observa-los até desaparecerem no horizonte.

sexta-feira, junho 30, 2006

- Lembrar a Rainha Santa -



Neste 4 de Julho, a Igreja assinalará o dia em que faleceu Dª Isabel de Aragão, a Rainha Santa. Nenhuma outra é tão lembrada e acarinhada pelo povo, entre o qual se completou como pessoa e cumpriu enquanto rainha. Vamos recorda-la pois, 670 anos decorridos da sua morte.

“Rainha Santa Isabel” foi o nome escolhido para baptizar o novo hospital de Torres Novas, à semelhança de inúmeros outros casos no país. Uma homenagem que se quis prestar a esse vulto da História, na qual se destacou pelo exemplo de atenção, cuidado e amor aos demais, digamos que, um pouco à semelhança do que se espera de um hospital. Isabel, (que significa “promessa de Deus”) filha do rei de Aragão, D. Pedro III, nasce no ano de 1271. Descendente dos imperadores germânicos, por via materna, recebera o seu nome por deferência à sua tia-avó Isabel da Hungria, já então considerada santa pelo exemplo de caridade e abnegação que revelara ao longo da vida. Entregue ao seu tio Tiago I, fervoroso devoto, Isabel de Aragão será educada no rigor da oração aliada à auto-disciplina, revelando desde cedo um especial empenho e vocação para a Fé, na senda do exemplo da tia húngara.

Contava apenas 12 anos quando recebeu o pedido de casamento da parte de 3 príncipes, entre eles, o nosso D. Dinis. Ao português os reis de Aragão haveriam de consagrar a mão da filha, dada a proximidade e as boas relações desejadas entre os reinos. Casados por procuração a 11 de Fevereiro de 1282, apenas 4 meses depois ela atravessaria a fronteira, por Trancoso, afim de celebrar o acontecimento. Trancoso seria então incluído no dote oferecido por D. Dinis à rainha, assinalando o seu local de entrada no reino. Se se previa um percurso de santidade para Isabel, a vivência junto do rei de Portugal haveria de constituir plena oportunidade para essa consagração. Na verdade, D. Dinis cedo se revela um homem violento, infiel e de má vontade no seu casamento. É conhecida a numerosa prole desse rei, que, mantendo diversas relações extra-conjugais, acabava produzindo uma descendência ilícita que trazia para a Corte. Aqui se destaca o comportamento da rainha, que, apesar de humilhada, terá mantido o respeito e a bondade para com D. Dinis, acolhendo, amando e educando os filhos ilegítimos do marido, como se seus fossem.



À luz deste comportamento o rei oscilava o seu, assim, ora numa profunda admiração, ora dando atenção a intrigas na Corte, ia respeitando ou mal tratando Dª Isabel. Ainda assim, D. Dinis respeitava a vivência devota da rainha, que se desdobrava em desvelos entre a orientação da residência e da família real e a atenção aos necessitados. A leitura e a meditação espiritual alternava com a assistência à família, mas, sobretudo, com as obras de caridade que produzia com outras damas da Corte. Confeccionando roupas para pobres, visitando enfermos e idosos, patrocinando a construção de albergues ou um hospital para os mais necessitados, escolas, um lar para meretrizes convertidas, outro para órfãos, para além de conventos e de todo um trabalho junto das ordens religiosas.

Em poucas palavras se poderá contar o sobejamente conhecido “milagre das rosas”, a ela atribuído. Consta que uma das suas obras de caridade consistia na distribuição assídua de pão pelos mais pobres. Sendo o ano de 1333 um ano de carência e maior fome, ter-se-á o rei oposto a este tipo de prática, que constituiria grande despesa para a sua Casa. Isabel terá então vendido algumas das suas jóias para poder comprar trigo, que lhe permitisse manter o hábito. Ora, num desses momentos de distribuição o rei terá aparecido, indignado, reagindo a rainha com a ocultação dos pães que trazia consigo no regaço, procurando evitar a censura do marido. Percebendo o seu gesto apressado, D. Dinis terá perguntado – Que tendes em vosso regaço senhora? – Ao que Isabel teria respondido – São rosas senhor…! – Rosas em Janeiro?! Deixai que as veja então! – E soltando as vestes, eram de facto rosas que caíam ao chão. Trata-se de um conto popular que perdurou sempre, mas que alguns apontam ter sido uma colagem de um episódio ocorrido com Isabel da Hungria, sua tia e não com a nossa rainha.

Seja como for, não precisaria de alguma vez ter transformado pão em rosas para que recebesse justamente uma tal admiração. Isabel de Aragão teve uma preponderância decisiva em vários momentos de luta eminente no reino. Dera dois filhos a D. Dinis, Constância, futura rainha de Castela, e Afonso, futuro rei de Portugal. Será este último, que, movido pelo ciúme que lhe causava a preferência que D. Dinis dedicava a um dos seus filhos bastardos (D. Afonso Sanches), moveria uma campanha militar contra o rei, pretendendo que este abdicasse em si o trono. Isabel intervém, procura demover o filho de tais intentos e concilia-lo com o pai. Ainda assim, chega a ser acusada de se unir ao infante, o que lhe vale a desconfiança do marido e a ordem de expulsão para a província. Acabando por lhe ser reconhecida a inocência, Isabel retorna e consegue então amenizar um pouco as relações entre o marido e o filho. Consta que, estando ambos os exércitos preparados para combater, na zona de Alvalade, Lisboa, a rainha ter-se-á aproximado de ambos, ajoelhando-se em pleno campo de batalha e rogando para que se entendessem.

À paz assinada no decorrer desse episódio, em 1325, seguiu-se a morte do rei, nesse mesmo ano. Isabel parte então em peregrinação a Santiago, onde, entregando a sua coroa ao arcebispo, obtém permissão para vestir o hábito das clarissas. A partir de então, Isabel recolhe ao convento franciscano de Stª Clara, em Coimbra. Dedicará o seu tempo ao aprofundamento da Fé, lendo sobre os Santos, desenvolvendo outras obras e saindo em peregrinação. Num derradeiro esforço de pacificação, Isabel sai ao encontro do seu filho, que havia declarado guerra ao rei de Castela, seu primo. Conseguindo uma vez mais garantir a paz, Isabel, já com 65 anos, não aguenta as exigências da caminhada e acaba por falecer, a 4 de Julho de 1336. É por vontade sua sepultada em Stª Clara. Em 1516 é beatificada pelo Papa Leão X e cerca de um século depois, Urbano VIII procede à sua canonização.


Túmulo gótico de Dª Isabel de Aragão. Autoria de mestre Pêro, 1336.

quinta-feira, junho 22, 2006

- Sebastião, o “menino-rei” -



A 2 de Janeiro de 1554 morria João de Portugal, o último filho de D. João III e último possível herdeiro da Coroa Portuguesa. Quando Castela já esperava vir dominar Portugal, unindo os dois reinos ibéricos, eis que nasce D. Sebastião, o filho póstumo que vem ao Mundo 18 dias após a morte do príncipe como… o “Desejado”.

A dinastia de Avis, iniciada com D. João I, o tal que venceu os espanhóis em Aljubarrota, foi pautada por gerações de casamentos entre a mesma família, tanto que D. Sebastião apenas tinha 4 dos 8 bisavós que normalmente qualquer pessoa tem, e ainda assim, todos eles descendentes directos do mencionado D. João I. Ora, para além de graves casos de demência, as novas gerações traziam uma fragilidade física que se reflecte, por exemplo, na morte célere dos 8 filhos de D. João III, deixando o reino à beira da união ibérica. Com a morte de João, o último e o mais novo dos filhos do rei de Portugal, resta ao reino a esperança de que o seu filho, Sebastião, cresce lúcido e forte, afim de dar continuidade à dinastia. Pois, é com apenas 3 anos de idade que, face à morte de D. João III, seu avô, o pequeno e frágil príncipe sobe ao trono e sucede na linha dos reis de Portugal.



Enquanto foi menor, a regência foi assegurada pela sua avó, a viúva de D. João III, e depois pelo tio-avô, o Cardeal D. Henrique, sendo que no decorrer desses 11 anos se continua o processo de expansão a Sul e Oriente. O príncipe é educado em austeridade pelos jesuítas, crescendo com grande fervor religioso, contudo, rodeado de todas as atenções e mordomias, o que lhe desenvolveria um espírito teimoso e caprichoso, aliado a uma forte dose do misticismo e até do messianismo que lhe incutia todo o reino, em relação à sua pessoa e à sua missão enquanto rei. Sebastião acreditava que lhe competia cumprir uma nova grande cruzada contra os muçulmanos do Norte de África, restituindo a glória à sua dinastia. Vê ainda nesse empreendimento uma oportunidade para o comércio, bem como uma área de intervenção para a nobreza do reino, ávida por novos combates e glórias.

Não é difícil imaginar as pressões e tentativas de influência, vindas de todos os quadrantes da sociedade portuguesa, a que o jovem príncipe terá sido continuamente exposto. Assim, ao tomar para si o controle do reino, aos 14 anos, D. Sebastião começa imediatamente a planear a sua campanha em África. É curioso observar que o então rei de Espanha, D. Filipe II (futuro I de Portugal) impõe o adiamento do casamento de sua filha com o príncipe, para depois da campanha. Ora, a oportunidade certa para o avanço desta campanha, surge com a instabilidade ocorrida entre os muçulmanos. Al-Malik, expulsa o seu sobrinho Moulay Mohamed de Marrocos em 1576, tomando-lhe o poder. O líder deposto vem então pedir o auxílio a D. Sebastião para retomar o poder (depois de tal lhe ser negado pelo rei de Espanha, que já havia feito pacto com Al-Malik), prometendo a praça de Arzila em troca, ao que o jovem rei acede imediatamente.

Começa então a tentativa de reunir tropas para a campanha, vindo mercenários da Alemanha, da Flandres e Itália com armas e munições, juntar-se aos lavradores e mesteirais portugueses arregimentados à força e a alguns fidalgos prontos a comandar as hostes. Em suma, constituiu-se um exército de cerca de 15 mil homens, indisciplinado, inexperiente, mal organizado e pouco motivado para a batalha. Com eles parte de Lisboa D. Sebastião, no dia 25 de Junho de 1578, a data que agora se assinala, rumo a Alcácer Quibir. Parando em Tanger, onde o aguardava Moulay Mohamed, seu aliado, desembarca em Arzila, de onde pretende seguir a pé até ao local da batalha. O jovem não dá ouvidos aos militares mais experimentados, que o aconselham a que siga nos navios, paralelamente à costa, não só para poupar o exército mas também para poder ter forma segura de poder retirar, em caso de derrota eminente. Chegando a Alcácer Quibir, depois de muito caminhar sob calor intenso, cansado e com fome, o exército português encontra o de Al-Malik, muito superior em número e extremamente motivado. É a 4 de Agosto que se dá a refrega. Envolvido em meia-lua, face à desproporção numérica, o exército português é então dizimado, terminando tudo rapidamente com inúmeras mortes e aprisionados os sobreviventes. Esta batalha, conhecida pela “Batalha dos Três Reis”, ficou famosa pelo facto de nela terem perecido os 3 líderes envolvidos. Moulay Mohamed morre afogado na ribeira Mocazim, Al-Malik morre subitamente no início da batalha e D. Sebastião terá sido morto em combate, desaparecendo.


Quadro alusivo à batalha.

É aqui que começa aquele que se quis como um dos maiores mistérios da História de Portugal. Sebastião foi morto? Sobreviveu e fugiu, retirando-se para um mosteiro até ao fim da vida? O “Sebastianismo”, como movimento misticista, começou aí, face à ocupação castelhana que se seguiu ao desaire de Alcácer Quibir. Os portugueses foram alimentando a esperança de ver a qualquer momento ressurgir o jovem rei, libertando o país do domínio espanhol e restaurando a dinastia de Avis. Essa crença manteve-se e generalizou-se nas palavras do poeta Bandarra, partilhada pelo próprio Padre António Vieira e, através dos tempos, chegando a Fernando Pessoa, já sob a forma de um patriotismo místico e messiânico, com a sua “Mensagem”.

Certo, é que existem documentos no Vaticano onde os papas Clemente VIII e Paulo V atestam que, diante de si, se encontrara o verdadeiro D. Sebastião, reivindicando a sua Coroa, sentenciando eles que D. Filipe III de Espanha (o então II de Portugal) lhe devolvesse o reino, o que este nunca quis cumprir, pedindo sucessivas revisões do processo. É também certo que, não tendo nenhum soldado ou nobre português visto ou resgatado o corpo do rei, acaba por ser o próprio rei de Espanha, que agora reivindicava o trono de Portugal para si, a apresentar um corpo vindo não se sabe de onde, que alegava ser o de Sebastião, afim de ser trasladado para os Jerónimos, em Belém. Há quem sugira que Filipe II, contrariado com o inesperado nascimento de Sebastião, quando se preparava para ser coroado rei de Portugal, lhe prepara uma armadilha que o demoveria do trono para sempre. Há quem descreia da sua morte. Há ainda quem o aguarde…

sábado, junho 17, 2006

- Santo António de Lisboa ou Pádua? -



"A paciência é o baluarte da alma, ela a fortifica e defende de toda perturbação." Eis uma frase atribuída ao Santo que agora se celebra. Vamos procurar rever o percurso e obra do homem que a Igreja mais depressa santificou.


Fernando Martins de Bulhões, é o nome que recebe à nascença, pensa-se que em Agosto que 1195. A esse tempo vivia-se o ímpeto guerreiro das cruzadas, vindo a aristocracia de toda a Europa com o fim de combater os muçulmanos a Sul. Estes, por sua vez, proclamavam a Jihad contra os infiéis cristãos, medindo forças também na Península Ibérica, com os reis de Portugal e Castela. É neste contexto que nasce o pequeno Fernando, numa Lisboa ainda com pouco tempo de domínio cristão, mas com uma estrutura clerical em rápido desenvolvimento. Nascendo numa família de ascendência nobre, Fernando vive comodamente no bairro da Sé, com os pais e uma irmã, Maria, até aos 15 anos, durante os quais frequenta a escola da Sé. É, por isso, cedo que decide prosseguir os estudos no meio religioso, integrando os Cónegos Regrantes de Stº Agostinho, no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa. Em 1211 e contando cerca de 16 anos, Fernando ruma a Coimbra, ao mosteiro de Stª Cruz, em busca da maior biblioteca eclesiástica então existente no país. Completamente absorvido na leitura, entrega-se ao estudo das muitas obras que lê e conhece como poucos. Assim, 8 anos depois, Fernando era ordenado sacerdote.


Mosteiro de Stª Cruz de Coimbra.

Contemporâneo de Fernando Martins de Bulhões, outro religioso teria abandonado a casa abastada dos pais para se dedicar à meditação e à vivência monacal. Falamos de Francisco de Assis, um puritano que busca no exemplo de Cristo e dos primitivos cristãos, um ideal de pobreza e abnegação esquecido, promovendo a reaproximação da Natureza e dos homens. Esta nova reflexão sobre a vivência dos Evangelhos acaba por rapidamente atrair novos seguidores, que se multiplicam e partem rumo a outros países. Ora, foi já como sacerdote que Fernando toma pela primeira vez contacto com membros desta comunidade. Recebendo um dia alguns destes frades no mosteiro de Coimbra, agrada-se do seu modo simples e alegre de viver a Fé. Contudo, poucos meses depois desta visita, chegam a Coimbra as relíquias de cinco franciscanos, degolados nesse mesmo ano de 1220, no decorrer da sua missão em Marrocos. Fernando impressiona-se imensamente perante os cadáveres e com o martírio desses homens simples, logo resolvendo tomar o hábito franciscano.


Stº António recebendo os franciscanos.

Contando então cerca de 25 anos, Fernando integra esta Ordem, e, alterando o seu nome de baptismo para António, muda-se para o ermitério de Stº Antão dos Olivais, perto de Coimbra. Numa completa entrega ao seu espírito de missão, Frei António pede para partir quanto antes rumo a Marrocos. Pretende continuar a missão daqueles mártires que havia observado, na evangelização dos muçulmanos. Contudo, o projecto não lhe corre de feição e, chegando a Marrocos, em 1221, logo adoece com gravidade e vê-se obrigado a regressar a Portugal. Mas nem a viagem de regresso corre como desejado e, sofrendo uma violenta tempestade, a embarcação é desviada para o interior do Mediterrâneo, acabando por desembarcar na Sicília. Aí, Frei António é recebido no seio da comunidade franciscana, acabando mesmo por participar no “Capítulo das Esteiras”, uma grande reunião com cerca de 5 mil frades, que então ocorria em Assis, e tendo oportunidade de conhecer o próprio fundador da ordem, S. Francisco de Assis. Findo o encontro, Frei António passa então para o eremitério de Monte Paolo, onde permanece ao longo de 15 meses, empregando o seu tempo na meditação e nos trabalhos domésticos da comunidade. É desta forma que toda a sua sabedoria permanece desconhecida dos monges, que assinalam, contudo, a humildade constante daquele estrangeiro.


Convento de S. Francisco, em Assis.

Em 1222, António participa numa cerimónia de ordenação de frades, na cidade de Forli, sendo convidado para produzir a conferência espiritual. Aí, a sua dicção e o domínio das Escrituras que demonstrou ao discursar foi tal que pasmou toda a audiência. Não estavam preparados para que daquele monge discreto e modesto saísse tamanho dom para a pregação. Assim, ao longo dos 3 anos seguintes, Frei António percorrerá a Itália como pregador e mestre de Teologia, chegando a ser convocado pelo próprio Francisco de Assis para ensinar em Bolonha, Montpelier ou Toulouse. Com a morte de S. Francisco, em 1226, Frei António muda-se para a cidade italiana de Pádua, onde passa a produzir os sermões dominicais. Como resultado, a afluência às suas missas aumenta, mas aumenta de tal maneira que, em breve, terá de discursar em campo aberto, pois que nenhum templo comportava o imenso público que o procurava ouvir. A sua celebridade aumenta ao ponto de ser santificado, ainda em vida, pelo povo, que disputava por um simples pedaço do seu hábito como relíquia. São-lhe encomendados sermões pelo bispo de Óstia, o futuro Papa Alexandre IV, para serem lidos nas principais festas religiosas, documentos que escreve em 1229 e que constituem as principais fontes do Santo que hoje nos chegam.


Fachada da Igreja de Stº António, em Pádua.

Em 1231 deu-se a consagração da sua santidade, quando, ao fazer o discurso da Quaresma, em Pádua, é assistido por uma verdadeira e crescente multidão, facto que tem sido apontado como uma espécie de segunda fundação cristã da cidade face ao número de conversões que produziu. Contudo, é também nesse ano, em inícios de Junho (13 de Junho), que o frade adoece e sucumbe nas imediações de Pádua, proclamando-se a “morte do Santo” pela cidade. Certo, é que foi canonizado antes que se completasse um ano da sua morte, a 30 de Maio de 1232, o que nem com S. Francisco de Assis acontecera. O sepulcro, conforme sua vontade, foi erigido em Pádua, onde ao longo do tempo foi sendo alvo de grande oração e peregrinação, na Igreja de Santo António. Por outro lado, a Igreja de Stº António de Lisboa, foi erguida sobre a sua casa, também alvo de intensa peregrinação. O dia 13 de Junho é, pois, a data de celebração do santo em Lisboa e Pádua, as cidades que o viram nascer e morrer.

sexta-feira, junho 09, 2006

- Camões, poeta das 7 partidas -



O 10 de Junho é apontado como data da morte de Luís Vás de Camões. Não havendo certezas em relação a tal, pior certamente seria não haver data alguma que lhe assinalasse a passagem e a obra. Pois, 426 anos passados, vamos recorda-lo.

Foram muitos os portugueses que, na gesta dos Descobrimentos e do Império Português, partiram mundo fora “em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana”. Desterrados, condenados, aventureiros, uns sem raízes ou amarras no coração, outros comprometidos e sedentos do retorno, milhares de homens circulavam pelas carreiras que rumavam às Índias, à China e múltiplos entrepostos. Por entre peles crestadas pelo sol, ressequidas pelo sal, tufões e tempestades marítimas, batalhas sangrentas em pleno mar alto contra piratas e em rebeliões, todos traziam histórias e memórias que constituiriam o chamado “País de Marinheiros”. Contudo, nem todos saberiam relatar tão bem ou imortalizar de forma tão sublime a epopeia que constituía a vida individual de cada um. Luís Vás de Camões levaria essa vivência ao limite, da mesma maneira que o fará na expressão escrita da sua memória. Recuemos…

Pensa-se que terá nascido em Lisboa, por volta de 1524. Filho de uma família galega, Camões pertence a uma nobreza decadente e pobre que vai mudando de poiso sucessivamente, de Chaves para Coimbra e depois para Lisboa. Perdendo o pai, destacado em Goa, vê a mãe contrair novo casamento afim de obter sustento. Contudo, não deixa de ser educado, sendo acompanhado por jesuítas e dominicanos, após o que, rumando a Coimbra, faz o curso de Artes e frequenta o meio aristocrático. Aí, formará o seu espírito na literatura clássica greco-romana, aprofundando o latim e aprendendo italiano e castelhano. No entanto, o espírito livre e vertiginoso de Camões leva-o a um estilo de vida pouco recomendável. Circula entre vadios e amotinados, meretrizes e boémios, num romantismo depravado que lhe vai entorpecendo a razão. Contudo, pontua e alterna violentamente este abandono de si, com as alegadas famosas paixões platónicas que dedica às damas da Corte, com as quais tem contacto, e onde eleva o amor ao nível do transcendental e imaculado. Ainda assim, é ao seu lado boémio e conflituoso que o jovem dá largas, o que, em 1548, lhe vale um desterro de alguns meses para Constância, no Ribatejo. Aí, valem-lhe alguns amigos que lhe garantem guarida, até que, em 1549, resolve embarcar rumo a Ceuta, entre a milícia do Ultramar. Aí ficará por dois anos, no decorrer dos quais perderá o olho direito, num cerco feito pelos mouros.



Em 1552, já regressado a Lisboa, é no Largo do Rossio que se envolve numa rixa com um funcionário da Cavalariça Real que se digladiava com dois amigos seus. Camões fere gravemente o homem com uma adaga, após o que, é aprisionado. Nove meses depois e apenas por perdão da vítima, Camões é posto em liberdade, contudo, condicionado a partir para a Índia por 3 anos, ao serviço do reino. Em Setembro de 1553 chega a Goa. Aí, Camões participará em expedições militares, por terra e mar, cujo salário tenta aumentar com encomendas de versos e autos que lhe fazem, bem como com a escrita de cartas ditadas por soldados analfabetos, a enviar para o reino. Em 1556, terminado o seu serviço obrigatório, Camões é nomeado provedor-mor em Macau, cabendo-lhe a administração provisória dos bens de falecidos ou desaparecidos e sendo aí que começa a composição dos Lusíadas, numa gruta onde buscava inspiração e escrevia. Face às acusações que entretanto sofre de desvio de valores alheios, é forçado a voltar a Goa para responder judicialmente. É no regresso dessa viagem que naufraga ao largo do Camboja, tendo então por prioridade salvar os manuscritos que já se adensavam e trazia sempre consigo. Nadando até terra firme, consegue salvar o que havia já escrito dos Lusíadas.

Resgatado e levado para Goa, aí ficará à mercê da sua miséria e das dívidas que entretanto contrai, sendo rapidamente aprisionado. Mas sorri-lhe a sorte mais uma vez, ganhando, através da sua escrita, a simpatia e a protecção do Vice-Rei da Índia, o Conde de Redondo, que o liberta e introduz no meio aristocrático e intelectual da região. Em 1567, trava conhecimento com Pêro Barreto, capitão de Moçambique, que lhe oferece emprego e adianta o pagamento da passagem para lá. Mais uma dívida que Camões não salda e que, com outras entretanto contraídas, leva o capitão a prendê-lo. Uma vez solto, está de novo por sua conta, miserável e desamparado, mas prosseguindo a escrita. São os amigos que mais uma vez o acodem e, depois de lhe darem guarida, juntam dinheiro entre si, compram-lhe umas roupas, saldam-lhe as dívidas e ajudam-no a regressar a Portugal, terminando mais uma aventura e onde chega em 1570. Uma vez em Lisboa, Camões vai viver com a sua mãe na Mouraria, onde passa grandes privações. Acalenta como grande objectivo a publicação dos Lusíadas que antes concluíra, e para tal, pede auxílio ao Conde do Vimioso. Por intermédio deste, obtém permissão real para o seu projecto, que, em inícios de 1572 toma corpo e sai em 200 exemplares. Com esta publicação, D. Sebastião atribui-lhe uma pequena tença trienal de 15 mil reis, o que, em orçamento diário, era diminuto e insuficiente para seu sustento.



Em pleno ano de 1579, Lisboa é assolada pela peste e Luís Vás de Camões, já de si debilitado, é facilmente contagiado, passando o resto dos seus dias na cama, no ambiente húmido e infecto dos bairros populares de Lisboa. Numa derradeira carta, endereçada ao capitão D. Francisco de Almeida, faz referência ao desastre de Alcácer Quibir, de 1578, bem como à ruína financeira do reino, prevendo aí o fim da sua independência em favor dos castelhanos.

"Enfim acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de morrer nela, mas com ela".

O seu próprio funeral é pago por caridade e celebrado junto ao cemitério do Convento de Santana, em Lisboa.


Túmulo de Camões no Mosteiro dos Jerónimos.

quinta-feira, junho 01, 2006

-Quem foi o "Infante Santo"? -


Infante D. Fernando nos painéis de S. Vicente.

Da História das nações não rezam apenas glórias e seus heróis. Momentos há em que as nações se desprestigiam e os heróis falham. Portugal não foi excepção e o Infante D. Henrique também não.

É bastante comum encontrarmos referências a um tal “Infante Santo”. No nome de colégios, estabelecimentos comerciais, hospitais e clínicas, ruas e avenidas, trata-se de uma presença mais ou menos constante, cuja origem, contudo, se perde na sabedoria popular. Tempos houveram em que o seu nome foi elevado bem alto na tradição e no coração do povo. Esse nome era Fernando, filho de rei e santo pelo martírio. Era o irmão mais novo entre a chamada “Ínclita Geração”, ou seja, entre os filhos de D. João I, o Mestre de Avis, com a rainha Dª Filipa de Lencastre, em inícios do séc. XV. Entre tão notáveis irmãos, onde se incluíam o Infante D. Henrique, D. Pedro, duque de Coimbra ou o próprio D. Duarte, futuro rei, o jovem Fernando sobressai pela sua fragilidade, uma saúde débil que lhe vale a atenção e carinho redobrado. Contudo, o infante vinga e fortalecesse-se física e espiritualmente. Na verdade, o jovem cultivava uma forte religiosidade, ocupando-se essencialmente em obras e iniciativas piedosas. Muito cedo o seu pai o faz mestre da Ordem de Avis, procurando compensa-lo pelo facto de ser o último dos filhos e, como tal, aquele que menos beneficiaria em relação aos irmãos. Não obstante, Fernando não se contentava com estas honras, aspirando a maior prestígio e glória, à semelhança dos irmãos e projectando, para isso, partir ao serviço do Papa ou de outros reis europeus.

Estando nestes intentos, o jovem infante acaba, no entanto, por decidir ficar. Tomara conhecimento da mais recente empresa do seu irmão Henrique, que, então, preparava uma expedição ao Norte de África, à conquista de Tânger. Era uma boa oportunidade de se revelar e prestar importantes serviços ao reino, podendo fazê-lo ao lado do irmão e ao serviço de Portugal. Apesar das tentativas do, já então, rei D. Duarte, seu irmão, para o dissuadir de participar, o jovem acabou por levar a melhor, obtendo licença para partir. Assim, sob comando do Infante D. Henrique, a armada parte do porto de Lisboa, a 22 de Agosto de 1437 e levando a bordo o Infante Fernando. Sucede que a expedição não correu como o Infante D. Henrique planeara, e, uma vez em Tânger, as tropas portuguesas foram atacadas por tão grande número que, a alternativa a uma chacina geral seria mesmo a rendição incondicional. Foi o que D. Henrique fez, terminando o confronto.


O Infante D. Henrique.

É aí que se dá um momento singular na História militar portuguesa, embora pelo seu lado menos glorioso. O Infante D. Henrique, mestre da Ordem de Cristo, senhor de inúmeras riquezas, promotor e principal ideólogo da empresa dos Descobrimentos, ao tentar negociar a sua libertação, confronta-se com a exigência, por parte do governador de Tânger, da devolução da importante cidade de Ceuta, anteriormente conquistada pelos portugueses. Ora, não podendo garantir tal devolução sem que o propusesse ao seu rei e irmão, D Duarte, pede ao chefe mouro que o deixe partir e às suas tropas, deixando-lhe, como garantia de sua palavra, o seu próprio irmão, o Infante D. Fernando.

Parte então o Infante D. Henrique, junto com toda a sua armada rumo a Portugal em busca do rei. Mas, em Portugal, a situação foi recebida num misto de indignação e discórdia. Dava ideia que o ultraje de ter um príncipe português nas mãos dos "infiéis", de alguma maneira se minimizaria face à importância estratégica de Ceuta e ao interesse da sua permanência no domínio de Portugal. A verdade é que a situação que D. Henrique trazia às cortes não parecia ter resolução fácil, uma vez que as vozes se dividiam entre a cedência imediata aos mouros e, por outro lado, a recusa de cedência, procurando resgatar o infante de outra maneira. Sucede que, quando se preparava para dar ordem favorável à troca incondicional, D. Duarte morre, deixando o reino sem uma liderança forte, tendo em conta que o herdeiro, D. Afonso, era ainda uma criança. É assim que a situação de indecisão se arrasta indefinidamente. Tenta-se ainda o resgate do infante de forma secreta, contudo, descoberta a acção, tudo piora para D. Fernando.


Tanger

Verificando que Portugal não tinha qualquer intenção de cumprir com a sua parte do acordo, os mouros reflectem a sua fúria no cativo, intensificando, a partir daí, maus-tratos e desconsiderações de todo o tipo sobre Fernando. Encerrado numa torre e posto a ferros, o infante sofre fome, sede, agressões, humilhações de toda a sorte, é escravizado, forçado a pesados trabalhos agrícolas, a limpar cavalos e estrebarias, etc. Ainda assim, e aceitando tudo isto com pacífica resignação, o infante chega a escrever ao seu irmão, o rei D. Duarte, pedindo-lhe que não cedesse, pois que Ceuta era mais importante que a sua vida. Durante seis anos, este homem, filho de rei, permanece ao livre dispor do principal inimigo de Portugal, que lhe faz sentir na carne todas as humilhações e sofrimentos que a medida do ódio muçulmano então comportava. Assim, tendo passado uns derradeiros 15 meses encerrado num cárcere de Fez, isolado, escuro e sem qualquer contacto humano, o infante acaba por morrer, contando apenas 41 anos, a 5 de Junho de 1443. Muitas foram ainda as malfeitorias que os mouros fizeram ao cadáver, embalsamado e exposto em público, pendurado às avessas, nu, à porta da cidade para chacota popular. Seria apenas resgatado largos anos depois, já ao tempo das expedições africanas de D. Afonso V, seu sobrinho.

Para a História e para que conste também, fica a atitude do Infante D. Henrique, que tendo pronto trocado a sua liberdade pelo cativeiro do irmão, foi capaz de viver e permitir que o reino vivesse, apesar do martírio do infante e até que tudo esquecesse. Contudo, e tendo nunca esquecido tal martírio e tamanha abnegação, o povo, esse o elevou a santo e “Infante Santo” ficou, até hoje, 563 anos passados da sua triste morte, que agora se assinala.

quarta-feira, maio 24, 2006

- A “Invencível Armada” -



No Verão de 1588, dava-se a maior batalha naval alguma vez assistida desde a época clássica. Um conjunto de 130 navios de guerra entrava em águas inglesas, a mando de Filipe II de Espanha, com o objectivo de depor a “rainha herege” e restituir a coroa britânica à Igreja Católica. Assinalam-se, agora, 418 anos da sua partida desde o porto de Lisboa.

É discutível até que ponto Portugal se pode ou não integrar nesta expedição. Na verdade, haviam oito anos desde a união dos dois tronos ibéricos sob o comando do rei de Espanha. Desde 1580 que Portugal deixara de existir enquanto reino soberano e dono dos seus desígnios, agora entregues às mãos dos administradores e burocratas espanhóis. Assim, oficiais, marinheiros, mercadores, artesãos, etc., todos passam ao serviço de D. Filipe II de Espanha, o I de Portugal. Da mesma forma, também seus tratados e alianças são quebrados e vilipendiados, em benefício das novas fidelidades. Recuemos…

Unificada a Ibéria, pretende este rei alastrar os seus domínios e influência pela Europa e mundo conhecido. Estabelecidas alianças com outros reinos europeus e garantido o incondicional apoio do Papa, havia, antes de mais, que garantir o completo domínio das rotas marítimas e relações comerciais inerentes, sua principal fonte de riqueza. Contudo, subsistia nessa altura um importante entrave a esse plano, a pirataria inglesa. Ao Norte, a Inglaterra vinha, internamente, vivendo tempos muito conturbados. Um tempo em que se acendiam já fogueiras na rua, para queimar os apologistas do Protestantismo. Estes autos de fé e outras perseguições, foram apoiados e instigados por Roma, como forma de luta contra a deriva anti-católica que grassava na Inglaterra. Desde Henrique VIII que o reino estava de relações cortadas com o Vaticano, por questões religiosas e políticas, contudo, seriam as suas duas filhas a protagonizar o referido período de conturbação social na Inglaterra quinhentista. D. Maria I, católica, ao contrário de seu pai, reabilita as relações com o Papa, declarando-lhe fidelidade e perseguindo os defensores do protestantismo no seu reino. Contudo, este reinado não durará muito, encurtado por uma doença mortal que leva a rainha sem que deixasse descendência. Suceder-lhe-ia, assim, a irmã mais nova, Elisabete, filha de segundo casamento e protestante como seu pai. Este novo reinado reiniciará, assim, o corte nas relações com o Vaticano, bem como com todos os reinos fiéis ao Papa. Ora, entre esses reinos fiéis a Roma, encontrava-se a poderosa Espanha, dona dos mares e principal difusora do catolicismo no mundo.


Elisabete I de Inglaterra.

Então, e em conluio com o Papa, o rei de Espanha inicia um plano para substituir Elisabete I por Maria I da Escócia, católica e rebelada contra Inglaterra, mobilizando a aristocracia inglesa católica. O facto de, em 1587 e por ordem de Elisabete, Maria I e outros destacados católicos terem sido executados, leva a que o rei espanhol mobilize todos os católicos da Europa contra a “rainha herege”. Trata-se de uma sucessão de revezes que levam D. Filipe II a tomar esta decisão. Acumulando com a questão religiosa da permanente desobediência de Inglaterra ao Papa, a Espanha sofria então pesadas perdas ao longo das suas rotas comerciais no mar. Na verdade, Elisabete I dava cobertura à acção de piratas e corsários ingleses, que infestavam o Atlântico e o Pacífico, em busca de galeões espanhóis carregados de riquezas variadas, que pilhavam sucessivamente. A própria coroa inglesa reservava para si parte importante desses roubos, apesar de receber as críticas e apelos dos espanhóis contra esses actos.


Rei D. Filipe II de Espanha.

É então que o rei de Espanha decide atacar Inglaterra, tomar o reino e atribuir-lhe um monarca católico. Para tal, começa a reunir uma armada de fortes e pesados navios, chegando a um total de 130 unidades, entre 22 galeões e 108 navios mercantes, que rumam ao estuário do Tejo, ao largo de Lisboa. Aí, e a despeito da antiga aliança entre Portugal e Inglaterra, juntam-se as embarcações portuguesas, num total de 31, sendo que o próprio comandante da armada, o Duque de Medina Sidónia, se deslocaria no galeão português S. Martinho. Da mesma forma, mobiliza um total de cerca de 30 mil homens, prontos a integrar a, então chamada, “Invencível Armada”. A 28 de Maio (1588), levantam âncora os primeiros navios, partindo de Lisboa rumo ao Canal da Mancha, onde se haveriam de encontrar com a frota inglesa. A partir de 20 de Julho dão-se as primeiras refregas ao largo de Inglaterra. Os ingleses, detentores de uma frota com cerca de 100 unidades, menores que as espanholas e nem todas preparadas para combate, adoptam uma estratégia de prudência, mantendo-se à distância e procurando envolver a armada espanhola, que se dispunha em meia-lua. Lideradas pelo famoso corsário, Francis Drake, as embarcações inglesas surgem por detrás, mais velozes e ligeiras, atacando e retirando-se, numa estratégia que obriga os espanhóis a dispersar a armada, desorganizando-se.



Tendo os maiores galeões espanhóis de se dirigir ao porto de Calais, para arranjos, são surpreendidos por uma ideia do referido corsário inglês. Um inaudito episódio naval que arrumaria para sempre as aspirações espanholas ao domínio dos mares, e marcando, por outro lado, o início de uma ascensão da armada britânica que culminará nos séculos seguintes com a construção de um verdadeiro império. Sucede que, na calada da noite de 27 de Julho, encontrando-se esses pesados navios alinhados no cais, é ordenado o lançamento de oito “bulotes” em direcção aos mesmos. Essas pequenas embarcações, apenas contendo o seu piloto, estavam atestadas de explosivos e todo o tipo de combustíveis, que, levadas velozmente até ao centro do cais, chocam entre os navios espanhóis, explodindo com tudo em redor. É tão grande o alarido e a mortandade, que, aos espanhóis, resta uma confusa debandada para Sul, num total de 53 navios que Lisboa acolhe, alguns dias depois.