- “Morro bem. Salvem a Pátria! ” - (Sidónio Pais / 1872-1918)

Qual é o jornal, telejornal, colóquio universitário ou simples conversa de café, onde não se passe sistematicamente um atestado de incompetência ou vilanagem aos nossos políticos? Longe vão os tempos em que se rezava, diariamente, pela saúde e sabedoria de quem orientava o espaço comum, em que se depositava uma esperança e confiança genuínas, nos líderes tidos como providenciais. Com o desenrolar da História, a sociedade foi sendo educada para a informação, tornando-se mais exigente e vigilante, educada para a formação, tornando-se mais culta e capaz. A política perde espaço no coração popular e os novos heróis nascem de outras obras.
A 1 de Maio de 1872 nascia um dos últimos políticos heróis que o povo português acarinhou. O “pai dos pobres”, ou “aquele que amou o povo”, “protector das crianças”, o “Mártir” ou o “Grande Morto”, Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais tornou-se num fenómeno relâmpago que, em apenas um ano e seis dias, consegue reunir os mais antagónicos apoios, liderar um golpe de Estado, congregar o apoio de toda a população, reformar o regime, reprimir rebeliões, escapar a um atentado e ser assassinado num outro.
Nascido em Caminha, a 1 de Maio de 1872, órfão de pai e irmão de 5, Sidónio divide a sua formação entre o Exército e a Universidade, onde acaba por se tornar catedrático como lente de Matemática, em Coimbra. Chega a vice-reitor dessa universidade no próprio ano da revolução de 1910. Tendo a sua actividade política começado entre grupos de conspiração republicana, apenas daria um contributo verdadeiramente activo na sequência da implantação da República. Sidónio movia-se facilmente nesse meio, próximo do futuro presidente Manuel de Arriaga, recebe um claro voto de confiança deste grupo ao ser convidado para integrar a Maçonaria coimbrã, em 1911.

Em 1912 é enviado como embaixador para Berlim. Aí permanecerá por 4 anos, no decorrer dos quais o seu pensamento e visão política se transforma, degenerando da sua prévia formação republicana. Com o advento da I Guerra Mundial e com o posicionamento português ao lado dos Aliados, Sidónio regressa a Lisboa, em 1916, onde é feito major. Na pasta, trazia uma nota alemã de declaração de guerra a Portugal. Não está contente com o rumo dado às relações externas portuguesas. Sidónio crê firmemente que, finda a guerra, a vitória será alemã e logo, considera que Portugal está no lado errado das trincheiras. Aprendera a admirar a eficácia do sistema presidencialista alemão, a disciplina daquele povo e de suas instituições. É isso que sonha para Portugal, e, no envio de tropas portuguesas para a frente de guerra vê o desbaratar de vidas por uma causa em que já não se revê.

Frente de batalha na I Guerra Mundial
Nos 10 meses que se seguem, Sidónio prepara um golpe militar que visa a destituição do Governo e a imposição de uma nova ordem. Não lhe foi difícil fazê-lo, na verdade, desde a Direita mais conservadora às esquerdas mais radicais, os apoios multiplicavam-se em torno do seu carisma. Reuniu monárquicos e socialistas, militares e clérigos, patrões e proletários, e na tarde de 5 de Dezembro de 1917, inicia um movimento que se conclui em 3 dias com o derrube do governo e a instituição de uma Junta Militar. “Dar estabilidade e prestígio à República e engrandecer e honrar o país”, é o ponto-chave do seu programa de Governo, que apresenta no dia 12 de Dezembro, para além da instituição do regime presidencialista. Começa então uma série de viagens por todo o país e, de Norte a Sul, Sidónio é aclamado por multidões em histeria. Note-se que 1918 foi um ano particularmente dramático, aliando-se à instabilidade económica (resultante da guerra) uma forte epidemia e mortandade, a população pedia ordem, trabalho, comida, justiça e nada disto encontrava com os sucessivos governos dos partidos instalados no poder, os quais Sidónio apelidava de “demagogos”.

O contacto com a população também através de desfiles.
A acção social por ele promovida logrou um apoio ainda maior da população, instituindo a “sopa dos pobres”, visitando hospitais e orfanatos, etc. A sua política de proximidade criou um verdadeiro coro de apoio aquele que Fernando Pessoa imortalizaria como o “Presidente-Rei”. Contudo, a sua tendência ditatorial, bebida na disciplina da hierarquia militar, cedo lhe valeu grandes inimizades. A proximidade que veio a estabelecer com os sectores mais conservadores e monárquicos, afastou o apoio socialista e sindical, que já então mobilizava grandes falanges de proletários. Por outro lado, o ostracismo a que votou os tradicionais partidos republicanos, valeu-lhe a oposição da Maçonaria que o havia acolhido anos antes, contando manipula-lo.
Dando-se por concluída a acção do seu governo provisório e convocando-se eleições, é a 28 de Abril de 1918 que Sidónio Pais será eleito Presidente da República. De Maio a Dezembro desse ano, sucedem-se os focos de rebelião e de contra ofensivas governamentais que aumentam a instabilidade do novo regime. O restabelecimento da censura prévia, a prisão política de dezenas de conspiradores, a proibição de manifestações sindicais, etc., move contra Sidónio todo um imenso leque de interesses económicos, sociais e políticos que ele procurou contrariar frontalmente. O regime assentava num só homem e morto o homem, acabava-se com a sua obra. Não obstante, permaneceu sempre ovacionado e querido pelo povo, que lhe reconhecia a delicadeza no trato, a honestidade no olhar e a força na acção.
Na noite de 14 de Dezembro, ele está decidido a embarcar no comboio rumo ao Porto, onde o aguardam tumultos populares. Todos lhe pedem para que fique, garantem-lhe não ser segura a viagem e que o aguardam os conspiradores. Sidónio responde-lhes: “Ou eles, ou eu!” e ruma ao Rossio. É então que, por entre um grande aparato policial e uma imensa multidão de aplausos e vivas, uma arma fura o cordão policial, e quando o major transpõe a entrada do grande átrio da estação, são disparados 2 tiros que o deitam por terra. Disseram, os que o agarraram, que antes de falecer suspirara a frase: “Morro, mas morro bem. Salvem a Pátria”.

Átrio da Estação do Rossio, o local do assassinato.
Sendo ou não verdade, o mito ficou. Muito para além do dito e do seu significado, ficou pela atitude e pela imagem, entretanto apagada da memória colectiva. Hoje, 134 anos depois do seu nascimento, Sidónio Pais é pouco mais que uma avenida junto à rotunda do Marquês de Pombal. É, pois, justo que lhe assinalemos a efeméride.