
No próximo dia 24 deste mês de Setembro, comemorar-se-ia o 93º aniversário de José Carreira, 1º Sargento da Escola Prática de Cavalaria de Torres Novas, meu saudoso avô (na foto acima).
A efeméride pessoal servirá de pretexto para a divulgação de algum raro património fotográfico que ele nos deixou, fazendo-o acompanhar por uma breve resenha da História da Escola Prática.
Em duas revistas, editadas no auge da II Guerra Mundial, concentra-se uma série de fotografias, algumas das quais únicas, que ilustram duas reportagens então feitas sobre a Escola. A primeira, com o título “Uma tarde na escola de cavalaria de Torres Novas”, consta da Deutsche Reiterhefte - “revista da cavalaria alemã” - editada em Berlim, a 26 de Março de 1943 e onde se podem encontrar 9 fotografias (capa e contracapa incluídas) tiradas no decorrer de exercícios da cavalaria, levados a cabo em diferentes pontos da cidade. A segunda, trata-se de uma reportagem constante no 2º número de Abril, também do ano de 1943, da revista portuguesa Sinal. Aqui se encontram 10 fotografias também referentes a exercícios levados a cabo na cidade.
Tendo a Escola Prática de Cavalaria atingido um estatuto de referência a nível nacional (e não só), importa compreender a sua origem no seio das próprias forças armadas. Recuemos pois.
Poderemos talvez apontar o convulsivo período das invasões francesas, entre 1807 e 1814, como aquele que viria a evidenciar a necessidade de proceder à implementação de umas forças armadas propriamente ditas. É então que se procedem aos primeiros ensaios afim de criar focos de formação para infantaria e cavalaria. Trabalho penoso e por muito tempo sujeito aos desmandos das guerras entre liberais e absolutistas, sendo que apenas com o apaziguamento posterior se abre caminho a uma organização militar.
É então que pontualmente se criam pequenos e efémeros “depósitos de cavalaria” pelo país, centros de formação que procuram constituir quadros locais. Seria apenas na década de 70 que o forte incremento industrializador, aliado à urgência de ocupar militarmente as possessões coloniais (num tempo em que as várias potências europeias cobiçavam o ultramar português), que surge a necessidade de um considerável e decisivo reforço na reorganização militar do país. É então que surge a ideia de criar um verdadeiro pólo de instrução para as suas principais ordens, a infantaria e a cavalaria. No entanto, a ideia apenas se virá a concretizar cerca de uma década depois, criando-se então em Mafra a “Escola Prática de Infantaria e Cavalaria”, corria o ano de 1887.
Dado o impulso, e agravando-se a principal fonte motivadora para a proliferação militar, ou seja, a defesa das colónias, cedo o projecto de Mafra se revela insuficiente, quer pela falta de espaço, quer pela crescente necessidade de especialização. É então extinta a escola de Mafra, em 1890, para que nesse mesmo ano, a 26 de Abril, se decrete a criação de uma “Escola Prática de Cavalaria”, com sede em Vila Viçosa. Aí e ao longo de 12 anos floresce a cavalaria portuguesa. Daí e nesse tempo partem as expedições de Mouzinho de Albuquerque para Moçambique, logrando a manutenção da soberania portuguesa por essas terras longínquas. Enquanto isso, o país vive conturbações várias. É desse tempo o custoso processo do Ultimato Inglês, em que Inglaterra ameaça Portugal de guerra caso este não abrisse mão de certas possessões africanas. Também então o Estado declarava a bancarrota, face às exorbitantes dívidas acumuladas à banca nacional e europeia.
Seria no decorrer desses tempos difíceis que a 30 de Janeiro de 1902, Torres Novas recebe definitivamente a Escola Prática de Cavalaria, onde dada a maior proximidade dos centros de decisão do país, adquire maior relevância militar. Oito anos passados, dá-se a Revolução Republicana, mudam-se as chefias e criam-se novas fidelidades. A escola perde então a sua influência, para além do estatuto, vendo o seu nome reduzido a mera “Escola de Equitação” em 1912.
Cinco anos depois, 1917 marca a participação do corpo expedicionário português na 1ª Grande Guerra Mundial, que havia eclodido 3 anos antes. A cavalaria parte então de Torres Novas com funções diversas. Rumo à guerra europeia e mantendo também funções em África, este foi um período de grande exigência e dinamismo para a escola, na formação de quadros e no envio de militares, acabando assim por ver o seu prestigio devolvido. É sob o comando do então coronel Óscar Carmona que, em 1925, a escola recebe novo nome, mais adequado ao seu estatuto, a “Escola de Aplicação de Cavalaria”.
Ora, entre o fim da Iª e o início da IIª Guerra Mundial, enquanto a cavalaria das grandes potências europeias se reformava no essencial, trocando o cavalo pelo carro blindado e pelas armas automáticas, a escola (não obstante a chegada de alguns veículos blindados – sem o devido acompanhamento de instrução específica), permaneceu fiel ao modelo tradicional, mais fortemente ligada ao cavalo e ao manuseamento da espada, o que acabaria por, na prática, tornar obsoleta uma cavalaria que acabaria não tomando parte activa na IIª Grande Guerra. (continua)